Normcore, esse incompreendido

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No fim de 2013, os escritórios de pesquisa de tendências Box 1824 e K-Hole lançaram um relatório chamado Youth Mode – Um Estudo Sobre Liberdade. O objetivo desse tipo de estudo, em geral, é identificar em movimentos de vanguarda os primeiros sinais de novos ventos culturais que começam soprando em nichos e que acabam, depois de um tempo, varrendo a vasta planície do mainstream com sua influência. Um destino comum para esses relatórios é a mesa de diretores de marketing de marcas globais, que costumam procurar desesperadamente por elementos de diferenciação que possam resolver um sério problema no consumo hoje: o fato de que quase tudo é tão rapidamente absorvido pelas pessoas e pelo mercado que logo se torna parte da paisagem.

Smartphones, calças skinny, tênis Converse, sacolas ecológicas e música indie são alguns exemplos de produtos que começaram seu ciclo de vida como elementos de diferenciação para quem os usava mas que acabaram se popularizando numa velocidade nova, perdendo o contato com os nichos originais e, também, seu status de diferenciadores. Isso tem diversas consequências. Por um lado, pode criar um problema mercadológico, já que a lógica do capitalismo desde os anos 50 vem sendo absorver os movimentos culturais alternativos e devolvê-los digeridos, embalados para o consumo seguro de um público mais amplo. Por outro lado, essa saturação abre um novo ângulo de abordagem da individualidade no momento em que o consumo de novidades passaria a não servir mais como diferenciador de identidade.

Essa perspectiva é consolidada pela Box/K-Hole no conceito de Normcore, a atitude de transcender a diferenciação industrial em vez de contrapô-la. Normcore é “entender o processo de diferenciação através de uma perspectiva não-linear. (…) Não é a liberdade de se tornar alguém, é a liberdade de poder estar com qualquer pessoa. Você pode não entender nada de futebol e mesmo assim sentir um arrepio com o grito da torcida na Copa do Mundo. Em Normcore, a pessoa não finge estar acima da vergonha de querer pertencer.” No território de extrema complexidade que se tornou a sociedade urbana, o Normcore surge como um comportamento de abertura ao todo muito mais do que como uma definição de uma nova reserva de atitude. Mas nem todo mundo entendeu assim.

Em fevereiro, a New York Magazine publicou um artigo intitulado “Normcore: Moda pra quem percebeu que é só mais um em um milhão”. O foco do texto eram os hipsters nova-iorquinos vestindo tênis New Balance, calças cáqui Uniqlo e jaquetas Patagonia (no Brasil, talvez o correspondente seria Nike Shox e conjunto de abrigo de tac-tel). No mesmo mês, a Dazed and Confused perguntou qual seria a trilha musical do Normcore. E respondeu: seria a playlist de dance music superficial que se ouve na academia. Em ambas as matérias, e em tantos outros posts internet afora, o ponto do Normcore foi perdido completamente. O New York Times identificou isso em março, declarando que Normcore é possivelmente “um meme de internet que se tornou uma gigantesca piada interna na qual a mídia insiste em cair”, como a GQ, que abraçou o Normcore como tendência de moda, e a Elle.com, que o denunciou como fraude. Normcore não é uma coisa nem outra. Talvez seja apenas um comentário cultural de duas empresas com objetivos híbridos que flutuam entre a investigação sociológica, o jornalismo, a arte e a consultoria comercial.

Hypes à parte, Normcore é um bom termo para resumir como a dinâmica de propagação de tendências pode estar mudando. Até pouco tempo atrás, esse esquema costumava se parecer com a imagem de um líquido viscoso sendo derramado no topo de uma pirâmide e escorrendo lentamente paredes abaixo. No topo da pirâmide estava uma espécie de elite cultural, não no sentido de “bem educadas formalmente”, mas mais como verdadeiras antenas da sociedade, pessoas que, indiferente de sua classe social ou formação, captavam antes dos outros novos modos de ser e de agir. Um bom exemplo disso foram os DJs e jornalistas que abraçaram o funk carioca desde o início, identificando nele uma onda cultural relevante e que se tornaria abrangente, parte do novo imaginário nacional. O que demorou, mas aconteceu.

Sob a lente do Normcore, essa demora, representada aqui na imagem do líquido viscoso descendo a pirâmide, não faz mais sentido. Hoje, é mais realista pensar que as ondas culturais se disseminam como uma bala de paintball explodindo dentro da pirâmide, espalhando tinta de maneira não-uniforme para todos os lados, manchando diferentes segmentos sociais em splashes pollockianos. Foi o que aconteceu com o sertanejo universitário moderno, que não pode ter uma origem traçada de forma tão linear quanto à do funk carioca. Se bem me lembro, nenhum relatório de tendência dos últimos anos destacava como vetor de comportamento um paranaense criado no Mato Grosso rebolando ao som de “Ai Se Eu Te Pego”. De onde veio essa? Não veio das antenas sociais, mas das “pessoas normais” para quem “o entendimento de que só a adaptabilidade leva ao pertencimento”, como diz o relatório Youth Mode, é uma ferramenta básica de sobrevivência desde sempre e não um conceito desenvolvido em laboratório.

O Brasil é um campo rico para a discussão do Normcore. Primeiro, porque sempre celebramos nosso mainstream. Aqui, a busca pelo pertencimento em comunidades amplas é quase um valor nacional e para poucos grupos sociais a ideia de adaptar seu estilo dinamicamente é uma novidade ou um desafio, quanto mais um conceito sociológico. Além disso, a recente mistura de ascensão econômica da classe C com a digitalização de pelo menos metade da população bagunçou completamente o esquema pelo qual operava a disseminação de ondas culturais e, consequentemente, da ideia de diferenciação. Você passa na rua por alguém de camisa xadrez e tênis Converse e não sabe se a pessoa é apaixonada por anos 90, sertanejo universitário ou Sambô. Ou tudo isso ao mesmo tempo. Normcore na veia.

Numa perspectiva extremamente otimista, talvez a ideia de Normcore como uma hiperadapabilidade em busca de conexão humana seja um cansaço natural de 60 anos de busca por individualidade através de códigos comerciais externos. A noção de que uma pessoa consome alinhando seus valores pessoais com os valores construídos pelo branding de uma marca já caducou como conceito e, se tudo der certo, deve caducar como prática. Quem se importa se você é Mac ou PC quando ambos são montados na China pelas mesmas fábricas com condições de trabalho questionáveis? Outro ponto seria rever a ideia ocidental-capitalista de uma individualidade que serve pra nos separar uns dos outros. A psicanálise, meio fora de moda com o avanço da indústria química sobre o cérebro, há muito tempo defende a singularidade do sujeito como um ponto de conexão e empatia e não necessariamente de afastamento uns dos outros. Somos semelhantes nas nossas singularidades e não apesar delas. Do ponto de vista do Normcore, poderia se dizer: de perto, ninguém é normal e mais de perto ainda ninguém é anormal.

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Esse artigo saiu na página 77 da nova revista Void. A revista está inteira lá no Issuu. Desde que escrevi, uma série de outras matérias e artigos saíram sobre o assunto. Em breve, voltarei a ele.

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Imagem do tumblr True Detective? More like True Normcore.

O smartphone seduz tanto porque permite segurar a bagunça da vida com uma só mão

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A previsão de estudiosos de tecnologia e comportamento se confirmou: o smartphone é o aparelho símbolo desse início de era digital. Totalmente móvel e finalmente amigável no preço e na operação, o celular com acesso à internet deixou de ser um habitante do mundo da tecnologia e garantiu visto de residência definitiva na cultura mainstream. Ele é usado e desejado por pessoas de diferentes idades, classes sociais e conhecimento tecnológico, e está se inserindo em praticamente todos os aspectos do dia-a-dia, desde tarefas profissionais e escolares até nos meandros dos relacionamentos e em toda e qualquer forma de diversão. A questão que resta sobre o smartphone diante de tudo isso é: como foi que ele conseguiu superar laptops e tablets, que pareciam tão atraentes e mais completos, na preferência geral? Foi graças à acessibilidade financeira? À vasta disponibilidade de apps e joguinhos? À facilidade de conexão? À leveza e portabilidade? Acho que não. Meu palpite é que o trunfo do smartphone não é prático, mas psicológico. Seu poder de atração vem de permitir que qualquer um possa segurar o caos da vida humana na palma de uma mão. Essa sensação, mitologicamente, foi sempre reservada aos deuses e agora está amplamente disponível aos meros mortais.

A notícia de uma tragédia, quando assistida na televisão, nos deixa ergonomicamente desamparados e impassíveis. Ficamos lá, de peito aberto, sem ter o que fazer com as mãos. Uma discussão de relacionamento por chat num laptop, mesmo que possa ser encerrada fechando o computador com raiva, retém um certo peso nas pernas, onde o laptop provavelmente está apoiado. Fotos de um antigo relacionamento sendo revisitadas num tablet precisam ser seguradas e passadas adiante usando as duas mãos, numa pose desajeitada. Já num celular, qualquer um desses conteúdos está a um dedo de ser manipulado (ou dedopulado) e a um simples gesto de ir para o bolso. O smartphone pode ser girado, jogado, apertado entre os dedos. Ele e seus conteúdos parecem muito mais um brinquedinho do que um dispositivo de interação com os vários setores da vida, que ficam todos condensados dentro de alguns centímetros quadrados, esmagados entre os chips, o cartão de memória, a bateria e o processador. É incrível que tanta carga emocional caiba (e tão organizadamente) em tão pouco espaço.

Por mais tumultuado que seja um relacionamento, suas mensagens, fotos, ligações e compromissos estão bem embalados no design minimalista dos aplicativos que o casal usa nos seus smartphones. Por mais intragável que seja um chefe, seus emails podem se tornar reféns de sons de notificação fofinhos selecionados pelo seu empregado no programa de email do celular. Por pior que esteja o tempo lá fora, no app de meteorologia isso significa apenas uma nuvenzinha escura com um raio singelo. Por mais revoltante que seja a declaração de um político no Twitter, graficamente ela se parece muito com a de todos os outros perfis que você segue. Por mais frustrante que seja o engarrafamento que surge lá na frente, no Waze ele está sujeito a se transformar em meras linhas congestionadas em vermelho e povoadas por avatares engraçadinhos. Esqueça as princesas da Disney. O conto de fadas definitivo está sendo narrado agora mesmo, na sua frente, em tempo real, no seu smartphone.

Eu sei que posso estar soando distante e sarcástico, mas de maneira alguma me declaro imune ao falso estado de empoderamento que o smartphone induz. Com ele nas mãos, sinto que o fluxo desordenado e selvagem da vida é filtrado por uma interface mágica e brota aos meus olhos como um reino encantado, de paisagens idílicas em flat design, habitadas por duendes coloridos chamados apps e governado pelo Rei Polegar. Mesmo que seja ilusória, essa perspectiva me deixa tão mais tranquilo que ando pensando em aceitá-la e comprar uma coroa para o meu dedão.

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Foto: Picjumbo

"Faça o que você faz. Ame o que você ama."

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Foi com esse título que a poeta Camille Rankine abriu um post recente no site da Poetry Foundation comentando o fato de que não há dinheiro no mundo da poesia e que não é demérito ou derrota ter um emprego comum, fora das artes, sustentando o seu amor. A questão está longe de ser nova, mas vem sendo revisitada pela cultura millenial e desafiada por um dos mantras mais poderosos do cânone não-escrito dessa geração: “encontre algo que você ama fazer e nunca mais trabalhe na vida”.

O post de Camille começa justamente com uma bravata de um universitário durante uma aula de escrita. “Não há dinheiro nessa coisa de poesia” ela disse à turma. “Você está se vendendo fácil” desafiou o aluno. Pra responder a isso, em vez de se perder em uma argumentação qualquer a respeito das escolhas e dificuldades de vida que porventura ela tenha passado, Camille escolheu olhar por baixo do conceito de trabalho:

“Eu acho que trabalho é algo pelo qual nós, americanos, meio que nos apaixonamos. Nós tendemos a nos definir pelo nosso trabalho. Mas nesse contexto, quando eu digo trabalho, eu quero dizer como é que ganhamos o dinheiro do dia-a-dia. Quando alguém numa festa pergunta ‘o que você faz?’, essa pessoa não quer dizer ‘o que você faz pra se divertir? O que você faz porque tira alguma satisfação daí? Que atividade em que você se engaja que dá sentido à sua vida?’ A pessoa em geral não quer ouvir sobre seus bordados ou sobre as maratonas de seriados no Netflix. A menos que você tenha transformado isso tudo em negócio. (…) Ela quer saber pelo que você é pago. Isso é, em geral, a primeira coisa que qualquer um quer saber sobre você.

Eu tenho trabalhado em alguma coisa ou outra desde que eu tinha quinze anos. Existe valor nesse trabalho, eu acho. É o tipo de trabalho no qual você dá duro, não porque você ama aquilo, mas porque você tem que fazer e, pra alguns de nós, você quer fazer aquilo bem. Mas esse tipo de trabalho não é o que me define. Ainda assim, muito frequentemente, o seu trabalho é compreendido como o que você é, como a coisa mais valiosa que você tem a oferecer pra sociedade. E, na nossa sociedade, valor é geralmente compreendido em termos econômicos. (…)

Os poetas existem, em sua maioria, fora de todo esse nosso sistema capitalista e seus construtos. E isso confunde muita gente. Não tem dinheiro nisso e ainda assim NÓS CONTINUAMOS ESCREVENDO O QUE HÁ DE ERRADO COM A GENTE??! A poesia morreu! Poesia não importa! Se não está rendendo dinheiro, qual é o objetivo? É claramente irrelevante!!!! Acordem, poetas, vocês estão vivendo uma mentira!!!”

O texto segue em uma série de anotações sobre o estado industrial da poesia e fecha com o seguinte:

“Como eu disse praquele estudante desapontado, não me entenda mal. Eu tenho ambição. Eu só não a exponho demais. A minha ambição é apenas uma porção da chama que mantém aceso o forno nas minhas entranhas. Claro que eu quero fazer algo que queime você. Sim, eu suponho que isso é trabalho. É trabalho porque é muito difícil de fazer. Tenha ou não um contracheque envolvido.”

Tendo vivido intensamente o meio independente brasileiro dos anos 90 (e seus estritos códigos culturais) é impossível não ser tocado por essa linha de pensamento. A pergunta que mais ouvi nessa época, por conta dos Walverdes, foi: “você vive da banda”? Essa era uma obsessão patológica da “cena” nos anos 90, uma cobrança constante que no fim dependia muito menos das bandas e mais da macroeconomia e de questões estruturantes da cultura no país. Ou seja, responder “eu não vivo da banda” parecia que dizia respeito às competências daquele grupo específico quando na verdade era algo que dizia respeito a todo um sistema tentando emular o funcionamento cultural dos Estados Unidos e da Inglaterra. O que não daria certo nem em um milhão de anos.

O mais curioso é que a pergunta “você vive da banda”, no fim das contas, tem sua própria poética – porque ela não fala diretamente em dinheiro. “Viver da banda”, assim como “viver de poesia”, é uma expressão que carrega uma das ambiguidades mais bacanas: o que significa “viver de algo?” Significa apenas que aquele algo paga suas contas? É algo que me pergunto com frequência.

Enfim, esse papo rende.

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O post completo está aqui: Do What You Do, Love What You Love.

Obrigado ao Guilherme Dable pela dica de leitura.

Já escrevi mais ou menos sobre esse assunto nos seguintes posts:

* A busca pelo sentido no trabalho e as videocassetadas

* Por uma vida mais ordinária

Imagem: New Old Stock.

Fita cassete: o design responsivo dos anos 80?

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Design responsivo é uma abordagem do webdesign que permite que um mesmo site seja acessado de maneira fácil, rápida e coerente por diversos tipo de dispositivos e browsers. Até alguns anos atrás, era precisava desenvolver um site específico pra ver no monitor do computador e uma versão diferente desse mesmo site pra acessar no celular. Hoje, quando se usa o design responsivo, é construído apenas um site e ele se adapta ao dispositivo que você estiver utilizando. O design responsivo é mais do que uma abordagem técnica, é praticamente um conceito cultural entre os designers de experiência.

Bom, isso tudo só pra introduzir a pergunta que a agência de design digital Needmore publicou em seu blog: “a arte das capas de fita cassete eram um início de tudo que fazemos hoje?”. Post completo e outros exemplos bacanas de responsividade em cassete aqui.

Pequenas Igrejas, Grandes Negócios

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O pesquisador Marcelo Del Debbio está com um projeto no Catarse para finalizar seu cardgame Pequenas Igrejas, Grande Negócios. O jogo, que vai ser publicado por uma editora de RPG, se passa em um “futuro fictício” no qual as Igrejas Evangélicas são usadas por pastores falcatruas para fins inescrupulosos – como lavagem de dinheiro e lobby político. O próprio Marcelo explica:

É impressionante, então, a imensa variedade de formatos de crítica social que a gente tem disponível hoje. Manipulação de imagens, memes, vídeos virais, blogs e até cardgames: tá valendo tudo pra se inserir no diálogo político nacional. Cada novo veículo de discussão política inclui um grupo novo que não se sente atraído pela discussão tradicional. Como diz o Claude Troisgros: que marravilha!

Another Earth: como seria ter uma segunda chance em uma segunda Terra?

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A divulgação, na semana passada, da descoberta de um exoplaneta com dimensões parecidas com as da Terra, atiçou a curiosidade mundial e deu corda à imaginativa audiência da internet. O que se sabe sobre o distante Kepler 186-F não é muito: ele tem o raio de tamanho muito próximo ao da Terra, orbita uma estrela “anã vermelha” e está no limite da chamada Zona Habitável, ou seja, a região do seu sistema solar que permitiria a existência de água em estado líquido, uma condição pra existir também vida como conhecemos. Nada disso significa que o Kepler 186-F seja uma réplica da Terra ou então habitada por algum tipo de extraterreste humanóide. Mas o que se descobriu bastou pra espalhar pela rede manchetes sugestivas falando, em geral, do “planeta mais habitável e mais parecido com a Terra já identificado até hoje”. Quando as manchetes tomaram conta do Facebook, automaticamente me lembrei de Another Earth, um filme meio indie, meio esquisitinho, sobre os desdobramentos da presença de uma segunda Terra na órbita da nossa Terra. Another Earth começa na noite em que a jovem Rodha Williams comemora sua entrada no curso de Astrofísica do MIT. Dirigindo pra casa, bêbada, ela ouve no rádio a notícia da descoberta da Terra 2, procura pela novidade no céu, se distrai e bate violentamente no carro de uma família qualquer, matando a mãe, o filho e deixando o pai em coma. Anos depois, após cumprir sua pena, Rodha tenta reconstruir a vida e acaba tomando dois caminhos excludentes: se aproxima do pai sobrevivente, já saído do coma, e se inscreve em um concurso que vai distribuir as primeiras viagens à ainda inexplorada e desconhecida Terra 2. Um dos grandes charmes do filme é a ausência de explicitações: não sabemos como é que a força gravitacional da Terra 2 não afeta a nossa Terra; não sabemos exatamente o que Rodha pretende ao procurar o pai-viúvo; não sabemos o que ela planeja fazer ao desembarcar no segundo planeta; e, o melhor de tudo, não sabemos muito bem que esforços os governos e empresas da Terra 1 estão empreendendo para saber mais sobre a Terra 2, o que significa que não há cena alguma do Salão Oval da Casa Branca, de laboratórios com cientistas heróicos e muito menos de hangares da Força Aérea se preparando para o combate. O único ponto mais ou menos óbvio em Another Earth é a temática da segunda chance e da estranha gravidade que atrai pessoas que estão, por algum motivo, fora de lugar. Nem mesmo a outra Terra está onde deveria estar, em termos narrativos clássicos de Hollywood: ela aparece o tempo todo no filme estampando o céu como um poderosíssimo coadjuvante e não no eixo principal do roteiro. Another Earth não é um filme do quilate de um 2001 ou (como escreveu Roger Ebert) de um Solaris. Mas tem uma trama e um clima totalmente conectados com a questão de fundo da cultura contemporânea: como lidar com a fluidez compulsória a que estamos todos submetidos, com essa necessidade nos reinventarmos periodicamente diante da enxurrada veloz de mudanças que parecem ter acelerado o curso da história. Em qualquer outra época, a mera possibilidade de exisitir um planeta similar à Terra produziria frenesi, mas dessa vez as reações parecem ter sido mais comedidas mesmo que numerosas. Claro: antigamente, essa era uma ideia de ficção científica, do fantástico, do inconcebível. Hoje, ela é estranhamente familiar, já que o conceito de segunda chance se tornou um item de uso diário, algo que se almeja e se exercita cotidianamente e não em condições de pressão insustentável como aconteceu com Rodha Williams em Another Earth.

Mais do mix de política e cultura pop

2014-04-09 08.09.06

Essa capa da semana passada do jornal Zero Hora é mais um item pra minha coleção de mashup de política e cultura pop (embora não seja política formal diretamente). Escrevi sobre isso no mês passado no post As Eleições Deste Ano Vão Ser Pura Cultura Pop.  E complementei em seguida com outro post sobre as versões de Happy do Pharrell falando de Porto Alegre e Rio de Janeiro.

Dias depois do meu primeiro post, me avisaram que tinha recém saído do forno o mapa da política brasileiro inspirado em Game of Thrones. Eu ia linkar o site original onde o mapa foi publicado, mas ele está fora do ar.

size_590_Versão_nacional_de_Game_of_Thrones_com_políticos_brasileiros

Aliás, não são apenas os nerds de fazem conexões entre cultura pop e vida cotidiana. O Jean Wyllys escreveu há poucas horas um post no seu Facebook fazendo uma análise da situação eleitoral e citando Game of Thrones. Segundo a Veja, tanto a Dilma como o  Vice-Presidente Michel Temer são fãs confessos do seriado mágico-medieval. Se bem que… a Dilma é meio nerd, né?

Mais adiante, vou sentar de novo pra continuar a escrever sobre a tendência. Stay tuned!