Pampa Drawings & New York Drawings

noticia47493

Nas últimas semanas, me debrucei sobre dois livros de ilustração tão bons quanto diferentes, dois universos opostos mas que convivem e se completam na minha cultura particular. Acredito que muitas outras pessoas tem essa combinação em sua formação: um pouco de metrópole, um pouco de campo (ou de praia ou de cidadezinha do interior). Primeiro vamos falar do campo, retratado no excelente Pago pra Ver, de um grande mestre nacional.

noticia47576

Se a essência de um desenho é a capacidade de observação (interna ou externa), sem dúvida Renato Canini é um Thundercat com visão além do alcance. Caso você não ligue o nome à pessoa: Renato Canini foi o responsável pela fase brasileira-chanchada-urbano-tropical-desbunde do Zé Carioca, aquela série de histórias que antecipou em duas décadas toda a onda de valorização da estética brasileira que se seguiu a Cidade de Deus. Entre tantas outras coisas.

REPUBLICACAO-2007-30dom_pagopraver_escola

Em Pago Pra Ver, Canini se voltou pro universo visual e afetivo do pampa gaúcho (“os pagos”, como se diz também) com suas duas principais características: o traço rasgado e o humor sutil, injetado a partir do traço. Como em todos os seus trabalhos, o poder de observação do Canini cobre tanto o que é visível (formas, paisagens, objetos) quanto o que não se vê (a cultura e seus comentários). Frequentemente, ele torna o invisível visível e esconde no clima do desenho o que geralmente a gente procura com os olhos.

 

canini_Pago10

Como fazem poucos grandes artistas, o Canini consegue equilibrar observação, homenagem e crítica social. Na verdade ele mistura esses três elementos e você nunca sabe muito bem quando ele está simplesmente fotografando, homenageando ou tirando uma onda. Coisa de mestre mesmo, ainda mais levando-se em consideração o tradicionalismo gaúcho, sempre pronto pra puxar uma faca e discutir possíveis “faltas de respeito”.

Um detalhe importante: Pago Pra Ver saiu meio batalhado. Pelo que sei, foi difícil alguma editora se interessar pela obra. Quem acabou bancando a edição foi o Instituto Estadual do Livro, ligado à Secretaria de Cultura do Estado do RS. Pontíssimo pro IEL.

Se você quer dar uma olhada nos desenhos, vai no blog da associação gaúcha de cartunistas, a Grafar, que publicou uma série deles com o objetivo de incentivar o interesse pelo trabalho.

 

new-york-drawings-adrian-tomine-via-boing-boi-L-TqUgIZ

Agora vamos de New York Drawings, do quadrinista e ilustrador americano Adrian Tomine. Eu já conhecia o trabalho de Tomine nos quadrinhos – e confesso que não sou grande fã. Mas quando vi que as ilustrações dele relativas ao universo de Nova Iorque (muitas das quais saíram na revista The New Yorker) foram reunidas em livro, não tive dúvidas pra comprar – meus bodes com Tomine como autor não se sustentam com seu ótimo lado desenhista. O motivo fica bem claro em New York Drawings.

NYDrawings_pg125

Mais do que uma simples coletânea, o livro serve de tributo de um observador à atividade de observação. A gente nota isso porque os desenhos mais bacanas são justamente os que parecem recortados de uma cena maior, que sugerem mais o cantinho de uma fotografia do que o centro.

tomine2

Claro que há muitos outros desenhos, vinhetas e retratos que ilustram matérias das mais diversas naturezas e ângulos. Mas os que escolhi pra ilustrar esse post e os que considero que se destacam no livro tem essa qualidade colateral, de fazer foco no que geralmente não é foco.

***

Pampa e Nova Iorque, Tomine & Canini. Isso dá dupla sertaneja, dá um disco de vanguarda ou dá um poema, hein… no mínimo, uma letra do Engenheiros do Hawaii.

"A tentação de ser útil é forte demais"

DKR

Em entrevista para o informativo Gentle Voice, o professor budista e cineasta Dzongsar Khyentse Rinpoche (roteirista e diretor e A Copa e Viajantes e Mágicos) dá sua perspectiva sobre o papel do artista no mundo contemporâneo. Entre os conceitos defendidos por ele está a noção do artista como um fazedor de coisas inúteis, como o criador de harmonia, além da ideia de que seria bom ter mais artistas-políticos.

Papo completo, em inglês, aqui.

Sobre passar mais tempo

Não sei quanto a vocês, mas quando o assunto é cultura, nos últimos anos eu venho me portando como um solteirão festeiro. Meus dias tem sido repletos de rapidinhas de quinze minutos, de namoros furtivos em lugares públicos, de envolvimento superficial pelo celular, enfim, de uma infidelidade crônica que por um lado tem me enriquecido mas por outro tem me prescindido das benesses da intimidade. Eu poderia, de forma canalha, dizer que a culpa são dos tempos, do zeitgeist, das demandas profissionais. E apesar de, sim, haver sérias circunstâncias atenuantes, a verdade é que às vezes sinto que me desacostumei a lidar com conteúdos que precisem de períodos mais longos (ou mais profundos) de atenção, contínua ou não.

Se eu não tomo cuidado, não tem jeito: acabo sendo arrastado pelas demandas cotidianas de uma agenda habitualmente preenchida com fatias finas de conteúdo para absorver, digerir e produzir. E assim como um solteiro convicto enfrenta dificuldades de convivência ao casar, também tenho estranhado quando me vejo envolvido com um livro, um filme ou um artista por um tempo maior do que o habitual. Mas não serei dramático ou catastrófico como a maior parte das reportagens sobre isso, pois sei que nem tudo está perdido. Algumas oportunidades tem me proporcionado o prazer da convivência extensa, da descoberta paulatina, do longo noivado que precede alguns casamentos culturais de sucesso.

Um bom exemplo é a Fundação Iberê Camargo, aqui em Porto Alegre. Instalado em um prédio projetado pelo português Álvaro Siza, o museu da Fundação tem revestido suas entranhas com fortes exposições temporárias de artistas como De Chirico, Mira Schendel e Joaquim Torres-Garcia. Mas a grande atração, levando-se em consideração o assunto que estamos tratando, é o terceiro andar do museu, dedicado permanentemente à obra do próprio Iberê Camargo. Pra quem mora na cidade, é a primeira vez que se tem a oportunidade de passar vários anos visitando e revisitando o acervo de um artista com facilidade e regularidade, conhecendo seus óleos, suas gravuras e seus desenhos aos poucos, com uma constância que o contato com os artistas das temporárias naturalmente não permite. O acervo, mesmo com uma certa rotatividade, está sempre lá e pode-se explorar o trabalho do artista numa velocidade mais parecida com a que ele produziu.

Conteúdos expostos de forma mais extensa, sejam as fases de um artista, um longo romance ou um filme de duração não-holywoodiana, tem então esse predicado: eles nos convidam a compartilhar o tempo da criação. E uma coisa fica clara: esse tempo quase nunca é o tempo dos mercados e dos calendários. Convertido em contemplação, livre do ritmo frenético da hipermodernidade, o tempo da criação cumpre com sua finalidade mais elevada, que talvez seja a difícil e nobre tarefa de arrancar o público do andar ordinário dos dias.

***

Coluna publicada na revista Soma número 27.
Desenho em download de linha telefônica: Guilherme Dable

El empleo

O que me chamou a atenção nesse premiadíssimo curta não foi nem a estética e nem o conteúdo, mas o ritmo. Qualquer obra que dê uma freada nesse mundo acelerado e hiperativo é sempre digno de nota.

Laerte

Não sei se vocês notaram, mas o Laerte vem prestando um serviço de valor inestimável pro nosso país. Não, eu não estou falando dele assumir publicamente o fato de usar/desfrutar/curtir roupas femininas. O que eu acho mais fundamental é a FORMA como ele vem fazendo isso na mídia, com uma mistura de clareza, firmeza e ternura que raramente se vê em quem está tentando alargar um pouco os horizontes dos costumes sociais.

Às vezes sinto que falta no ativismo social um pouco desse jogo de cintura, dessa paciência em explicar, dessa tolerância para com a dificuldade do outro em compreender novos paradigmas. Em certos momentos, quem quer defender a justiça social parece que vira ditador: tome porrada em quem deu porrada em sem teto, dê-lhe linchamento em quem maltratou cachorro, corte-se a cabeça dos políticos corruptos! É muito sangue nos olhos e daí não dá pra enxergar direito.

Por isso, vejo em Laerte um exemplo a ser seguido nesse sentido bem específico. Empurrar os limites com menos belicismo é mais uma das artes que ele está executando tão bem.

***

Mistura finíssima: Laerte + Pereio no Sem Frescura.