O problema do excesso de auto-mensuração

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Os dispositivos digitais de auto-mensuração individual, como o conhecidíssimo Nike Plus, que mostram em gráficos bacanas os quilômetros que a gente corre, as calorias que a gente gasta, os minutos que a gente dorme e coisas do tipo, trouxeram um aspecto científico e lúdico pras atividades cotidianas. Hoje, já existe aplicativos e dispositivos pra quase tudo. Embora a maior parte deles lidem com estatísticas de atividades físicas, também há espaço para coisas como medir sua felicidade, sua capacidade de atingir metas e seu estado cognitivo. Claro: em se tratando de negócios e cultura digital, não há limites para o que possa surgir.

Eu mesmo já usei o Strava por alguns meses e ele foi bastante útil pra descobrir que as minhas voltas de bicicleta estavam dando conta da atividade física que eu precisava semanalmente. Também, claro, me diverti olhando meus trajetos no mapa e conferindo os tempos de outras pessoas em determinadas áreas da cidade. Mas chegou um ponto que eu já tinha a informação que precisava e resolvi deixar o app de lado pra simplesmente andar de bicicleta.

Não há dúvida que esses apps e dispositivos carregam, além de um forte poder de sedução, uma mistura de utilidade com diversão. Mas também é razoável pensar que eles podem deseducar uma pessoa que tem boa consciência corporal ou impedir alguém de aprendê-la. A consciência corporal seria a capacidade de monitoramento próprio, sem a ajuda de dispositivos: saber ouvir o corpo, ler as sensações, calcular não-matematicamente a resposta que precisamos dar a situações físicas que aparecem, como fadiga ou uma reserva extra de energia que ressurge. Estamos falando de uma capacidade que atrofia se não for utilizada constantemente, se for relegada ao segundo plano, colocada atrás da telinha com os gráficos coloridos. Além do mais, quando afiada, ela transcende visualizações matemáticas.

Esse é um dos aspectos complicados da cultura digital, que costuma ser muito comentado pelo americano Douglas Rushkoff: o contato constante com interfaces digitais reduz nossas expressões a formulários e dados. Queiramos ou não, acabamos tendo que espremer o nosso jeito de ser e de viver em campos pré-formatados e em resultados contados numericamente. Nesse sentido, a linha entre a praticidade e o simples materialismo é quase transparente. Claro que tudo pode ser quantificado e calculado, inclusive o afeto que hoje vem na forma de likes e visualizações – mas o que perdemos com isso?

Não chegamos a perder uns aos outros, o que seria drástico e irreal de se declarar. Antes, podemos perder algo mais sutil, perder uma capacidade interna de avaliação que não é visual, numérica ou mesmo exata. Antes, podemos perder a confiança no que não é visual, numérico ou exato. Ou seja, em boa parte do que consideramos ser a experiência humana de primeira mão.

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Foto: Little Visuals.

Diários de Bicicleta: a cidade ainda mais cidade.

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Novos hábitos culturais costumam progredir à base de imaginários exagerados. Assim como o vegetarianismo, a espiritualidade new age e a sustentabilidade, a bicicleta como meio de transporte urbano costuma levar na garupa uma carga de ideias progressistas disformes que são úteis para inspirar as pessoas mas que também são reféns de associações distorcidas. Uma conexão comum que se faz é entre a pedalada na cidade e uma suposta experiência mais natural e humana, uma coisa assim, “trocar o carro pela bicicleta de vez em quando me coloca mais em contato com as pessoas e com o meio ambiente”. Mas o que ocorre, muitas vezes, é exatamente o contrário: de bicicleta, a cidade se torna radicalmente cidade, intensamente metropolitana. Humana, sim, mas de um jeito um pouco enviesado.

Tudo aquilo que hoje usamos para caracterizar uma metrópole – engarrafamento, expansão imobiliária desfigurante, poluição do ar e da água, decadência de equipamentos públicos, impaciência crônica, insegurança pública – em cima de uma bicicleta é experimentado de maneira amplificada. Embora o pedestre convicto e o usuário do transporte público também enfrentem essas dificuldades, quando estamos em estado de ciclista elas se tornam mais proeminentes pela peculiaridade dos trajetos e da velocidade do deslocamento, como já comentei em outro post dessa série.

Semana passada, peguei a ciclovia da Avenida Ipiranga numa sexta-feira às sete da noite. Era um final de dia agradável do ponto de vista dos elementos. O céu estava claro, sem nuvens e a temperatura estava amena. Essa avenida, uma das mais importantes de Porto Alegre, margeia um arroio que corta uma dúzia de bairros no sentido nascente-poente. Portanto, eu pedalava sem suar em direção a um aprazível pôr-do-sol, ladeado aqui e ali por algumas árvores respeitáveis, cruzando com outros ciclistas e com pedestres que faziam seu exerciciozinho vespertino. O cenário descrito beira o bucólico, mas a faixa de prazer dessa configuração era estreita. À minha direita, o trânsito conflagrado da Ipiranga rugia furiosamente à base de motores, buzinas, marcha lenta e freadas bruscas. À minha esquerda, o arroio Dilúvio corria entediado, levando para o Guaíba a água marrom, malcheirosa e cheia de lixo flutuante. Embaixo das pontes, os sem teto conversavam, fumavam, faziam seus arranjos. Nas guardas do arroio, as pixações convocavam a revolução. A cidade se manifestava em sua totalidade transbordante, com cheiros, sons e visuais eminentemente urbanos, cinzentos, rudes.

Ali, a bicicleta me colocou, sim, em contato com a natureza. Mas com a natureza humana na sua forma mais inteira, com a poesia e o concreto, com o pacote completo. Mais especificamente, respirei um pouco mais de perto o resultado desajeitado da nossa busca por conforto e proteção, uma ação que sempre produz efeitos contraditórios em relação ao objetivo inicial, seja na escala mais íntima do indivíduo, seja no projeto hiper-coletivo da cidade.

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Leia todos os posts da série Diários de Bicicleta aqui.

Diários de Bicicleta: um outro jeito de fazer política

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Ano retrasado comprei uma bicicleta. E não vou mentir, em grande parte foi por esse hype gerado nos últimos anos. Mas, em minha defesa, digo que também foi pra revisitar um antigo amor e tomar vergonha na cara. Eu adoro andar de bicicleta e desde a faculdade não tinha uma. Fora essas idas pra aula, minhas últimas experiências sobre duas rodas tinham sido fora de Porto Alegre. No Rio, deve fazer uns 3 anos, eu e minha mulher alugamos umas pra dar a volta na Lagoa. No Canadá, dois anos atrás, usamos aquele sistema de aluguel pra pedalar numa megatour por Montreal (um dos melhores passeios que fizemos) e também pra ir num show (foi tão meia boca que me fugiu o nome da cantora, uma dessas de soul pop bem conhecida).

Mas dessa vez foi diferente. Comprei uma bicicleta não pra viver momentos hype especiais, que ficariam muito bem num comercial de banco ou numa foto do Instagram. Comprei pra tentar tornar esse hábito o mais banal possível no meu dia-a-dia. Na época da compra, eu ainda estava trabalhando fixo numa agência que ficava a dez minutos de carro de casa, meia hora a pé e vinte de bicileta. Fiz os cálculos dos compromisso da semana (ensaio com a banda, buscar a enteada no colégio, burocracias em bairros distantes) e resolvi que no mínimo ia pro trabalho uma vez por semana de bike. Mais do que isso, dependia de boas configurações astrais.

O primeiro dia que eu fui pro trabalho de bicicleta, confesso, me senti uma pessoa muito especial, parte de um movimento, da resistência. Enquanto pedalava, artigos, posts e documentários sobre a bicicleta como meio alternativo de transporte voltavam à minha lembrança. Me senti uma pessoa do bem, digna, incapaz de explorar pessoas, ferir o meio ambiente ou causar injustiça social. Se não me engano, ouvi trombetas e uma banda marcial tocando quando estacionei no prédio onde trabalhava. Cheguei a sentir que merecia uma comissão me esperando pra me entregar um medalha.

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Eu estou brincando um pouco, mas não muito. Quem bota a bicicleta na rua (entre outros tantos exemplos de comportamento) não necessariamente merece uma medalha, mas está ajudando a dar um recado, especialmente quem faz isso por escolha. Eu comprei uma bicicleta e retomei o hábito de andar porque vi outras pessoas fazendo isso, não apenas nos textos que li por aí, mas na rua, em Porto Alegre, gente das mais diversas idades e aparentando as mais diferentes intenções, desde crianças andando com os pais, um povo de roupa mais social indo para o escritório, alguns ativistas claramente identificados, hipster bêbados, até aqueles trabalhadores mais simples que nunca abandonaram a bicicleta simplesmente por falta de outra opção de deslocamento (a necessidade é a mãe da sustentabilidade). Eu fui influenciado por essas pessoas e é esse tipo de influência que tem sido mais marcante em mim.

Nem sempre é preciso ser ativista ou fazer proselitismo abertamente pra firmar uma posição ou para contribuir com uma causa. É um clichê, mas é verdade: o exemplo convence mais que discursos, mesmo que num primero momento o exemplo pareça menos brilhoso e chamativo do que um flood no Facebook ou uma sessão verborrágica numa mesa de bar. O exemplo, repetido, consistente, que atravessa um certo período de tempo com firmeza, é o que acaba depositando uma espécie de dinheiro novo no diálogo social corrente. Slogans, gritos de guerra, mobilizações são importantes para marcar momentos e dar certos impulsos, mas não são pra toda hora e não são pra todo mundo. Algumas pessoas se mobilizam muito mais com a convivência a longo prazo com conceitos interessantes do que com um tapa na cara.

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Tudo isso eu escrevo por me lembrar de um papo do qual participei em novembro do ano passado, num grupo de estudos formado pra discutir formas futuras de fazer política. Naquele dia, entendi um pouco melhor, graças a um expert que fazia parte do grupo, a ideia de que política não se resume à administração pública e à vida partidária. Política, disse ele evocando Hanna Arendt, é o ato intencional de dialogar o espaço público. Eu acredito, e sei que não sou o único, que a discussão política muitas vezes se dá assim como muitos que andam de bicicleta, silenciosamente, na forma de imagens, atitudes, comportamentos e textos que empreendemos com o coração e que expomos com um pouco de naturalidade e um pouco de intenção no palanque que estiver à mão no momento – uma avenida movimentada de Porto Alegre ou um canto particular numa comunidade de blogs.

Acho importante as figuras carismáticas, mas suspeito que esse grande partido, sem plataforma definida, sem lideranças fixas, mas com toda a intencionalidade política do mundo, esse partido formado por pessoas que gostam de protagonizar mesmo sem nome, sobrenome, slogan e palanque, é o que mais vai crescer em 2013. Suspeito não: espero. Espero não: vou trabalhar também por isso.