Black Mirror e o clima de raiva no Facebook das eleições

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O clima emocional que vem se tornando cada vez mais tenso no Facebook por causa das eleições está me lembrando muito os episódios mais políticos da série inglesa Black Mirror. Criada em 2011 pelo produtor e roteirista Charlie Brooker, a série tem duas temporadas de três episódios cada e trata do comportamento humano infuenciado pela tecnologia num futuro próximo. Já escrevi sobre a primeira temporada no post Black Mirror, a série do agora e a quem está intrigado ou incomodado com a alta temperatura do clima eleitoral, eu sugiro fortemente assistir dois episódios específicos da segunda temporada.

O episódio 3, The Waldo Moment, conta a história de um personagem de computação gráfica que é usado pra sacanear políticos e autoridades em um programa de entrevistas de final de noite. Os entrevistados, alienados dos gostos do público, são enganados pela emissora de TV pra pensar que estão participando de um programa infantil quando na verdade estão sendo massacrados sarcasticamente pelo personagem. Waldo é controlado e dublado remotamente por um humorista talentoso que entra em parafuso quando a produção resolve lançá-lo (Waldo, não o humorista) como candidato para enfrentar um oponente conservador. A disputa sai dos estúdios de TV e vai para as ruas, onde uma van equipada com uma tela gigante segue o conservador para que Waldo possa espinafrá-lo em praça pública.

Não vou dar spoilers, mas os desdobramentos de uma disputa entre um personagem de computação gráfica e um candidato humano são conduzidos de maneira a subverter totalmente  o que seria o clichê dessa temática – comparar a artificialidade dos políticos com as do personagem. O que acontece é justamente o contrário. Emergem, por trás da iniciativa inovadora e bem intencionada, os sentimentos humanos mais confusos e negros de todos os envolvidos. “The Waldo Moment” me lembra muito o que vejo todos os dias no Facebook: as críticas à baixa qualidade e às incoerências dos políticos muitas vezes vem de pessoas que não parecem aplicar a si mesmas o filtro que querem aplicar a eles.

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O episódio 2, The White Bear, é simplesmente perturbador quanto ao ponto que podemos chegar coletivamente se deixarmos que o ódio social e político tome conta da nossa cultura. Começa com uma mulher, Victoria, acordando em um quarto sem lembrar do que aconteceu e como foi parar ali. Constantemente cercada pela foto de uma menina e de um homem, que parecem ser seu marido e sua filha, ela é perseguida por homens mascarados e armados enquanto dezenas de pessoas a filmam e fotografam com celulares sem oferecer qualquer tipo de ajuda. Caçada sem descanso, ela acaba encontrando o que parece ser algum tipo de milícia de resistência, mas pouca coisa faz sentido na sucessão veloz dos acontecimentos.

Uma virada no meio do episódio contextualiza o que Victoria está passando, mas não posso dar qualquer tipo de pista pra não estragar a surpresa. Apenas digo que o desfecho é mais um toque importante a respeito do perigo que corremos de nos desumanizarmos quando incentivamos atitudes violentas num contexto de onipresença das mídias eletrônicas e digitais. Outro ponto que tem me lembrado as reações impulsivas e exageradas no Facebook nessas eleições onde toda declaração e todo candidato é alvo de reações em altíssima amperagem.

Black Mirror não saiu no Brasil e está disponível apenas nos torrents. Dê um jeito de assisti-lo antes do final das eleições pois, como eu disse no meu primeiro post, ela é um dos melhores comentários sobre o agora disfarçado de ficção científica.

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Nada a ver com as eleições, mas ainda digno de nota: o primeiro episódio da segunda temporada de Black Mirror é tão bom e instigante quanto os outros. Conta a história de uma viúva que resgata o convívio com o ex-marido através de um avatar físico, meio clone, que se comunica com ela a partir de todas as memórias digitais que ele acumulou na vida. Mais uma vez parece loucura ou ficção científica. Mas já tem uma startup planejando oferecer um serviço semelhante. Segundo a Proxxima, o Eterni.me usa acesso aos dados digitais do falecido para “criar uma ‘consciência’ no computador que permitirá a interação com outros usuários.” O site do Eterni.me já oferece cadastro para interessados e faz uma promessa grandiosa que parece mesmo saída de um roteiro pra TV: “Simply become immortal”.

Dica: o episódio é muito mais profundo e interessante do que a proposta da startup.

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Black Mirror – a série do agora

Esses tempos, li uma entrevista do psicanalista Contardo Calligaris comentando que os filmes vem substituindo os romances como espelho da psiquê coletiva nas últimas décadas  – alguma coisa assim. Espelho não no sentido de colocar na tela o que somos, mas sim de servir como um instrumento de auto-reflexão mesmo: olhar para a expressão cultural da nossa época e encontrar coisas sobre nós que não víamos conscientemente. Bom, acho que todo mundo vai concordar que o próprio cinema está sendo ultrapassado pelos seriados nesse papel e é a partir desse nível que eu queria falar de Black Mirror.

A série de três episódios foi ao ar no final do ano passado na Inglaterra e é fruto da mente criativa do roteirista, jornalista, produtor e apresentador de TV Charlie Brooker (também responsável pela série de horror Dead Set, que não vi). Fortemente temperados com a peculiar acidez inglesa (que também é uma marca da trajetória de mídia de Brooker), o conjunto de Black Mirror cobre boa parte dos assuntos que antes eram do mundo da tecnologia e que hoje se tornaram vetores da cultura geral: telas onipresentes, gente que vive conectada, superexposição particular, ansiedade crônica, rolos amorosos causados por novas tecnologias, itens virtuais como combustível para a ambição e por aí vai. A lista é bem grandinha, mas cada episódio tem um vetor como o mais proeminente.

Por exemplo, em “The National Anthem”, o tema é a hiperexposição de um fato público e todos seus desdobramentos nas redes sociais, tanto do ponto de vista pessoal quanto na visão da imprensa e do poder público. Através da interação de cidadãos, políticos, jornalistas e policiais com a mídia digital, vamos acompanhando o sequestro da princesa da Inglaterra por um terrorista. As camadas interessantes de Black Mirror começam a se mostrar quando descobrimos que o resgate não é em dinheiro: pra liberar a princesa numa boa, o sequestrador exige como pagamento a humilhação pública do Primeiro Ministro em rede nacional.

Humilhação pública é um eufemismo, mas não vou entregar o jogo demais pra não estragar a surpresa, que é grande. Se você resolver assistir, também não deixe de prestar atenção também na ferramenta que o governo inglês escolhe pra resolver a questão da exposição do Ministro no fim da história: é, talvez, o melhor comentário crítico do episódio e ele tende a ficar enterrado quando comparado com o eixo central da história, a tal da humilhação pública.

Já “15 Million Merits” é uma sátira ambientada em um futuro próximo onde aparentemente todo mundo vive preso em um complexo claustrofóbico. São quartos individuais  minúsculos com paredes revestidas de telas (imagem acima), corredores estreitos e cinzas que levam a refeitórios padronizados e salas onde acontece a única atividade física permitida, que é andar em bicicletas ergométricas pra gerar energia elétrica em troca de créditos. O problema é que esses créditos só podem ser usados de duas formas: dentro do próprio complexo, na compra de comida e entretenimento digital ou então, caso você pedale bastante e gaste pouco, comprando seu golden ticket pra sair dali através de uma espécie de American Idol (onde o Rupert Everett faz uma impagável versão do americano inglês Simon Cowell).

Em relação ao primeiro episódio (que já é bom), aqui temos um salto. Onde “The National Anthem” pressiona e faz pensar abusando de um certo sensacionalismo explícito, “15 Million Merits” quase deprime o espectador ao deixar bem claro que nenhuma metáfora, visão de futuro ou traquitana digital esconde o quanto esta é uma narrativa sobre o presente.  Geralmente, na ficção científica tradicional, isso é um pouco mais bem disfarçado. Nesse caso, a fantasia é propositalmente translúcida.

Mas o melhor, Charlie Brooker deixou pro final. O último segmento, “The Entire History of You”, acompanha, como tantos outros dramas televisivos, a história de degradação de um jovem casal. Só que no epicentro do processo está um dispositivo digital implantado na base do crânio, atrás do ouvido. Esse popular aparelhinho chamado “Grão” registra todas as imagens e sons percebidos pelo usuário 24 horas por dia ao longo de toda sua vida. Mais interessante, as “cenas” da vida podem ser facilmente reprisadas de duas maneiras: no modo “particular”, somente nos olhos do usuário, ou então enviadas para uma tela próxima, um computador ou televisão.

A partir dessa premissa, o episódio (e o protagonista) descem em espiral. Ao questionar a fidelidade da esposa pega em um deslize, o marido empilha replays de cenas casuais do passado procurando o famoso cabelo em ovo que alimenta tantas discussões de relacionamento. A diferença é que hoje em dia as DRs contam com a memória de cada um – sempre cheia de lacunas e fértil em distorções, ou no máximo uma miríade de registros digitais externos. No futuro visualizado por Black Mirror, as cenas gravadas com detalhes no Grão ficam “dentro da cabeça” e servem de apoio para a potencialização de cada mínima picuinha. Aí não tem quem não enlouqueça.

Diz-se (não me lembro quem) que toda análise do amor é autópsia. O último segmento de Black Mirror mostra o perigo da biópsia baseada em todos os registros que a tecnologia nos provê. Mais uma vez, a ficção aqui é científica não por conta de colocar um elemento tecnológico avançadíssimo no coração da narrativa, mas sim por usar códigos da cultura digital para enunciar com clareza uma equação universal dos relacionamentos.

Em resumo: o grande perigo ao assistir Black Mirror é achar que está se falando da acepção popular de ficção científica, que seria “histórias sobre o futuro”. Como eu sublinhei no título e em diversas passagens do post, esta na verdade é muito mais uma série que fala sobre como as coisas são – ou inclusive sobre como elas sempre foram.

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Black Mirror não saiu em DVD aqui e nem nos EUA, pelo que me consta. Mas tem pra vender na Amazon UK. Também pra encontrar nos torrents da vida, mas aí você é que se entende com o FBI depois.