Imma Be a Marketing Star

O Matias falou do Telephone da Lady Gaga e do Born Free da M.I.A., mas eu acho que esqueceu (propositalmente, uma vez que o radar do cara é onipresente…) de citar uma outra pérola recente da história dos clips: Imma Be Rock That Body do Black Eyed Peas. Lançado há mais de dois meses, o clip não tem a exuberância artê do trabalho da Lady Gaga e nem a pungência poplítica (esse termo eu roubei do Bruno) do vídeo da M.I.A., mas, vamos combinar, não perde pra nenhum dos dois em termos de importância pra quem gosta de explorar as camadas mais profundas do pop contemporâneo.

A meu ver, a coisa é mais ou menos assim: se os clips da Lady Gaga e da M.I.A. querem provar algum ponto intensamente, a junção de duas faixas em um vídeo do Black Eyed Peas se foca nos dois aspectos mais fundamentais do pop (e da carreira do Black Eyed Peas): divertir e gerar divisas.

Por diversão, entenda-se a impressionante mão do produtor e líder dos Peas, Will.I.Am ao empilhar referências de praticamente tudo que se fez em música desde que o Kraftwerk foi preso dentro daquele elevador com o George Clinton. O mix das duas faixas, com suas diferenças de andamento e produção, parece mais um mini-set dos 2Many DJs: em cerca de oito minutos tem claras referências a rock, rap old school, rap contemporâneo, electro minimalista, big beat, maximal, enfim, não há tempo nem espaço a perder quando se trata de Will.I.Am. É como se ele promovesse um festival com Afrika Bambaata, 2Many Djs, Chemical Brothers, Daft Punk, Outkast, Justice, Moby e dissesse: “bom, vocês tem aí oito minutos pra tocar e divertir essa galera que não lê blog de música. Se virem.”

Em termos visuais, o clip segue exatamente a mesma lógica, saturando cenários e situações com boa parte da ficção científica dos últimos 40 anos. Ali estão: as armas de onda de impacto utilizadas pela equipe do Tom Cruise em Minority Report; os figurinos d’O Quinto Elemento a la Gaultier (incluindo o sutiã de cone desenhado pelo designer pra turnê Blond Ambition da Madonna); também figurinos inspirados nos antigos seriados do Flash Gordon; o comercial da Citroen com o carro-robô dançando break; logo, Transformers também; paisagens que misturam o ar de District 9, Tatooine e o primeiro Mad Max… enfim.. eu poderia ficar o dia inteiro listando as referências. Mas parte da graça de assistir o clip é justamente você fazer sua própria lista.

O tipo de inteligência que constrói esse Lego audiovisual não se baseia só em ambições artísticas. Will.I.Am é considerado, hoje, mais do que um produtor/frontman do pop. Ele é um übermarqueteiro de mão cheia e as ações de product placement nos clips dos Black Eyed Peas (que incluem motos, carros, celulares e computadores) são apenas a ponta do iceberg.

Uma matéria recente no Wall Street Journal lista as marcas que já trabalharam JUNTO com a banda (Apple, BlackBerry, Pepsi, Honda, Verizon…) e revela a eloquência do vocalista quando ele está longe dos palcos de estádios. É em salas lotadas de executivos que Will.I.Am tem dado seus maiores shows, respondendo com incrível competência a empresas ávidas por colar a imagem de suas marcas a um grupo que consegue atravessar nichos e agradar fãs de diferentes idades, estratos sociais e nacionalidades.

Pra completar, o cara ainda tira a maior onda em Imma Be, comparando sua trajetória de popstar com a falência do Lehman Brothers, banco que liderou o crash financeiro de 2008 nos Estados Unidos:

Loanin out a billion, I get back a trillion
Imma be a brother, but my name ain’t Lehman
Imma be ya banker loading out semen

Pois é, amigo… e você achando que aquele flashmob na Oprah era impressionante…

O valor da nossa atenção

O economista e prêmio Nobel Herbert Simon escreveu em 1971 que um mundo com riqueza de informação provoca naturalmente a escassez daquilo que a informação consome: atenção. Resumindo, riqueza de informação produz pobreza de atenção. É um fenômeno que estamos claramente vivendo hoje, quando não temos atenção suficiente pra dar a tudo que aparece ao nosso redor.

Quando uma marca faz uma campanha publicitária, ela está justamente querendo comprar a nossa atenção, seja com a repetição de uma mensagem sem graça, seja sendo apelativa pra impactar ou usando uma moeda mais digna, a criatividade.

Sim, é isso mesmo. Os investimentos milionários em televisão, rádio, jornal, internet e celular servem só pra chamar a sua atenção. Na verdade, o poder de prestar ou não prestar atenção na campanha é seu.

Quem é dono da sua atenção, é mais poderoso do que qualquer uma dessas grandes empresas.

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Post inspirado num texto que gravei para o Minimalismo na Oi FM.