O Círculo: talvez o livro mais importante de 2014

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O ano já se encaminha para o final, mas ainda dá tempo: O Círculo, romance de Dave Eggers que narra a ascensão de uma funcionária exemplar na empresa de tecnologia mais criativa do mundo, pode ser lido sem pressa em poucos dias, digamos, entre o Natal e o Ano Novo. Não que sua atualidade tenha data de validade tão curta ( o livro é de 2013!), mas defendo que este livro, mesmo com seus pequenos defeitos literários, talvez seja um importante marco na cultura contemporânea. O que Eggers fez não é pouco – ele escreveu a fábula definitiva que encerra um período de ingenuidade sobre o que o universo simbólico do Vale do Silício tem a oferecer para o mundo. Quanto antes passarmos isso a limpo, melhor.

A história de Mae Holland, personagem principal do romance, é facilmente reconhecível mesmo por quem não acompanha o noticiário especializado de tecnologia. Recém formada e enfiada em uma repartição pública do interior da Califórnia, Mae é resgatada de sua vidinha ordinária por uma ex-colega de faculdade que lhe devia alguma fidelidade. A dívida é paga com juros. Annie, a amiga socialmente bem posicionada de Mae, faz parte da elite do Círculo, o Google do universo criado por Eggers, que revolucionou a vida online unificando todos os perfis e identidades virtuais no TruYou, “uma conta, uma identidade, uma senha, um sistema de pagamento por pessoa” no qual se usa “seu nome verdadeiro, que está vinculado a seus cartões de crédito, seu banco”, ou seja, “um botão para o resto da sua vida online”. A sede do Círculo, situado em uma cidade fictícia próxima a San Francisco, é tudo aquilo que Mae – e boa parte dos jovens hoje – quer de um ambiente de trabalho: uma Shangri-la moderna, com calçadas pavimentadas com pedras contendo mensagens inspiradoras, comida orgânica gratuita, shows e espetáculos diários com grandes artistas no refeitório, festas temáticas semanais, um hotel interno para quem não quer dirigir de volta pra casa depois do serão, medicina preventiva baseada em sensores intracorporais e big data, além de uma demografia clara no recrutamento (só jovens bacanas e interessantes entram para O Círculo). É nessa empresa, que Eggers parece ter construído a partir de uma pesquisa sobre “onde as pessoas de 2014 gostariam de trabalhar”, que Annie arruma uma vaga para sua ex-colega da graduação.

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[o autor]

Mae começa por baixo, na área de atendimento ao cliente, e primeiro estranha a intensidade social dos funcionários do Círculo, que vivem o campus como se fosse o único lugar do mundo onde vale a pena estar. Mas, rapidamente, ela não só é seduzida pela vida no Círculo como engata uma trajetória de protagonismo pagando alguns preços que Eggers – mas não Mae – considera caros. Sua privacidade, sua relação com os pais, com a amiga Annie e com qualquer coisa que não seja a filosofa essencial dos Três Sábios, o board que preside O Círculo, tudo vai sendo deixado para trás em nome de um avanço radical em busca da transparência digital definitiva. O livro se desenrola na sua dupla função, de sátira e thriller. A meio caminho do final, um forte suspense tempera a divertidíssima crônica de costumes que cobre praticamente todos os exageros que viemos cometendo nos últimos 15 anos no uso indiscriminado e experimental do que quer que a indústria da tecnologia sacuda na nossa cara. Os ruídos de comunicação gerados pelo contato virtual, a carência emocional convertida dados de audiência pessoal, a autoexposição que busca soterrar angústias profundas, o reality show que pulou da TV pras nossas timelines – O Círculo de Eggers parece mais um catálogo das pequenas insanidades cotidianas da hipermodernidade.

Apesar de algumas forçadas de barra narrativas (bem sublinhadas por essa resenha do NYT) e da tradução para o português que não tem como dar conta da mania dos personagens de falarem discursando como se estivessem no TED Talks (algo que flui melhor em inglês), O Círculo tem o gigantesco mérito de expandir para uma audiência mais mainstream linhas de discussão que até então viviam restritas aos textos de especialistas como Jaron Lanier, Evgene Morozov e Douglas Rushkoff. O poder de influência das empresas de tecnologia sobre a sociedade via ferramentas e códigos culturais, sua tendência monopolista disfarçada de simpatia é quase amor, sua relação ambígua com Governos e políticas públicas, seu impulso de pedir transparência aos usuários enquanto trabalham sob uma redoma frequentemente opaca, nada disso interessa ao público médio na forma de ensaios político-culturais. Nesse sentido, O Círculo funciona como um cavalo de tróia – você está lá, se divertindo com as patuscadas de Mae Holland na prosa quase televisiva de Eggers e, quando percebe, sua mente foi inoculada com uma série de questionamentos absolutamente sérios e relevantes sobre onde fica o limite entre a disrupção tecnológica útil e a demência capitalista-digital que mascara emoções destrutivas com design minimalista e responsivo.

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Antes de escrever esse post, me perguntei se ele seria relevante no contexto brasileiro, uma vez que a história de O Círculo depende em parte de conhecermos um pouco do funcionamento do Vale do Silício. Mas então lembrei que há pouco tivemos uma novela das sete com a mesma temática; que revistas mainstream como Época Negócios, Exame PME e Veja tem destilado essa filosofia em suas páginas há anos; que a morte de Steve Jobs comoveu Luciana Gimenez; e que mesmo aqui, em Porto Alegre, empresários de todos os portes e idades parecem querer emular o jeito de fazer negócios (e de se exibir) de San Francisco. Onde houver uma empresa que pensou em colocar (ou colocou) um videogame na área do cafezinho pra se sentir mais moderna, a leitura de O Círculo se faz necessária.

Conforme escrevi nos posts Softer, Worser, Slower, Weaker e A Perigosa Cultura do Como Mudar o Mundo e Sua Vida, estamos passando por um momento de deslumbramento com práticas empresariais supostamente modernas mas que, muitas vezes, tem por trás as mesmas intenções e valores de sempre – crescer e conquistar território. O fato de que essas intenções hoje são mais facilmente disfarçadas com propósitos “sociais” e slogans “inspiradores” é algo que deveria nos incentivar a ter sempre um pé atrás e uma sobrancelha levantada com empreendedores hiperbólicos. Só assim descobrimos, por exemplo, que a narrativa da startup que nasce em uma garagem no Vale do Silício é, em geral, mais mito do que de verdade. E que muitos empresários da era digital podem ser considerados, como escreveu Fernand Alphen, “robber Barons modernos”, alcunha historicamente reservada a latifundiários inescrupulosos na Europa medieval ou a industriais vorazes nos Estados Unidos do século XIX. Só assim mantemos uma atitude saudável de nos perguntarmos, como fez a Bia Granja, se não devemos deixar de usar um app super popular e útil (e com uma aura suuuper moderna) devido aos valores questionáveis de seus criadores.

O Círculo é o livro que faltava pra condensar todas essas suspeitas em uma obra de apelop pop e que você pode levar embaixo do braço lembrando que uma empresa mercantilista e messiânica não deixa de ser mercantilista e messiânica só porque sua sede parece um café do Brooklyn e seu discurso corporativo soa como um vídeo de autoajuda. Tudo bem se você quer conquistar o mundo com suas ideias, seu dinheiro e sua energia. Mas, como bem resume um ditado popular, não vem me contar que eu não sou dinheiro.

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Outra coisa: de certa forma, achei que O Círculo é a versão século XXI de Microservos, romance de 1995 escrito por Douglas Coupland (o mesmo de Geração X). Microservos conta a história de um grupo de nerds hardcore com imensos talentos (e dificuldades de relacionamento do mesmo tamanho) que deixam a Microsoft para embarcar em um projeto semi-autoral. É bem mais emocional e poético do que O Círculo (ao estilo de Coupland), mas vale comparar os dois pra sentir o papel da tecnologia e seus personagens no meio da década de 90 (ainda marginais e desajeitados) e quase 20 anos depois (no centrão da cultura pop).

Microservos saiu no Brasil na época pela Nova Fronteira com uma capa idêntica à versão original (aí de cima) e é super difícil de achar, mesmo em sebos. Eu ainda tenho o meu. 🙂

Imagens: Be Nourished e Busty Teacher.

Por que o Facebook é a internet das eleições 2014

 

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E quem diria: a rede social que passou boa parte do ano tendo sua decadência prevista por pesquisas e especialistas se tornou a grande estrela digital das eleições de 2014, mesmo antes do segundo turno terminar. Com cerca de 90 milhões de usuários ativos, dos quais 59 milhões acessando-o diariamente (dados de agosto), o Facebook vem combinando grandes números de audiência na internet com a aderência de todas as correntes políticas e classes sociais, além de permitir a discussão política em diferentes níveis de profundidade. Muita gente ama, muita gente o odeia o Facebook, mas todo mundo declara seu amor e ódio eleitoral postando no próprio.

Em 2010,  nas últimas eleições presidenciais, éramos menos de 9 milhões de brasileiros no Facebook e 9 milhões no Twitter. O Orkut era o terceiro site mais acessado do país e contava com 30 milhões de usuários, mas seu formato mais tosquinho e a população menos conectada e menos móvel impediam um fluxo tão orgânico e pulsante de conteúdos como temos hoje. Além do mais, os Protestos de Junho de 2013 ainda não tinham acontecido e política não era uma pauta tão quente como é agora (embora eu tenha a impressão que no Facebook TODAS as pautas tem pegado fogo). Na verdade, vivemos em um país tão diferente de 2010 em termos de cultura digital que é quase impossível fazer comparações.

Por um lado, o Facebook foi beneficiado pelo contexto de 2014: nos últimos dois anos, pudemos começar a usar a palavra “popular” para falar de smartphones, internet móvel e vídeo na internet. Nos últimos 15 meses, tivemos dois grandes eventos nos quais testamos intensamente nossas redes pessoais no que diz respeito a discussões nacionais – os já citados Protestos de Junho e, ligado a isso, a Copa do Mundo. Mas também há os predicados do próprio Facebook, sendo que o mais importante de todos é que ele combina os principais formatos de postagens e compartilhamentos em uma única plataforma: se você quer condensar sua opinião política em 140 caracteres, você pode; se você quer se estender, escrevendo um post de 2.000 caracteres manda; se você se contenta em compartilhar um card com um meme, tá valendo; vídeos oficiais do seu candidato são aceitos; vídeos não oficiais também são válidos;  selfie na urna? Tudo bem! O Facebook não tem preconceitos e aceita todo mundo que queira se expressar do jeito que bem entender – desde, claro, que esteja demograficamente dentro da população mininamente conectada do país.

Em termos de correntes política, também parece que ninguém teve muita escolha a não ser abraçar o Facebook para chegar ao eleitorado. Os sites oficiais dos candidatos, seus canais de YouTube, os blogs dos correligionários e os veículos à esquerda ou à direita, todos dependeram do Facebook para criar ou ampliar sua audiência. Mesmo as fanpages dos candidatos também não sobreviveriam de suas funções oficiais: um vez que a lei eleitoral proíbe a compra de mídia por parte de políticos e partidos em época de eleição, está sendo preciso contar com uma militância bem construída e versada na rede, o que significa ter capacidade de disseminação no Facebook. Partidos mais organizados e com militância conectada não garantem nada, mas levam vantagem ao menos ocupando o encanamento da internet com seus conteúdos.

E o Twitter? É claro que o Twitter retomou este ano sua importância, confirmando a vocação para segunda tela de eventos ao vivo pela TV e assim turbinando os debates nacionais. Eu, particularmente, gosto mais do poder de síntese e da qualidade do material que circula pelo Twitter. Mas é impossível negar: em se tratando de internet, a festa da democracia esse ano foi marcada, divulgada e confirmada via Facebook.

O tempo perdido do gerenciamento de mídias digitais

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Dizem, popularmente, que logo antes de morrermos passa na nossa cabeça um filmezinho que resume toda a nossa vida. Um amigo meu tinha uma teoria alternativa: nesse filme só tem os momentos mais constrangedores que passamos, como tropeçar pelado botando a calça apressadamente, cumprimentar alguém de longe e perceber que é um desconhecido, fazer um comentário desnecessário num jantar, essas coisas.

Mas eu acho que nos últimos tempos surgiu uma terceira versão disso. O filmezinho contemporâneo que passa na cabeça de quem vai morrer e viveu imerso na cultura digital é provavelmente um compacto só com cenas de todo o tempo perdeu organizando sua vida tecnológica – arrumando a agenda do celular, organizando as fotos no computador, limpando a caixa de emails, bloqueando pessoas ou jogos no Facebook, escolhendo avatar pro What’sApp, escolhendo filme no Netflix, procurando o torrent certo, e por aí vai. Toda vez que eu me pego fazendo uma dessas coisas, não consigo evitar de pensar que “um dia eu vou morrer e estou aqui perdendo tempo com os labels do Gmail”.

Esse é um dos golpes mais sacanas da cultura digital. A cada ano (ou mês, ou dia), somos apresentados a uma novidade que promete simplificar nossa vida e nos dar mais tempo livre. Mas o sistema no qual estamos inseridos e que produz todas essas novidades produz junto uma série de pequenas ações, conteúdos e compromissos que nos afogam ainda mais. O especialista em cultura de convergência Henry Jenkins já escreveu em Cultura da Convergência sobre o que chama de “A Falácia da Caixa Preta”, ou seja, o conceito periodicamente resgatado (e enganoso) de que “cedo ou tarde todo conteúdo de mídia vai fluir através de uma única caixinha”.  A certa altura, após algumas reflexões teóricas, ele destaca: “não sei quanto a vocês, mas eu estou vendo cada vez mais caixas pretas na minha casa”. E, completo, junto com as caixinhas vem as tarefinhas. Isso só vai acabar de fato quando estivermos dentro de outra caixa, embaixo da terra.

Pra quem trabalha inserido em contextos digitais, não há muito o que se fazer a não ser manter uma atenção constante e uma mentalidade minimalista caso não queira ser levado pela enxurrada de atualizações, notificações e providências burocráticas disfarçadas de design fofinho dentro de caixinhas. Uma vez, ouvi o Lama Padma Samtem dizer issonuma palestra: “onde se constrói piso, as folhas se acumulam”. Enquanto não encontramos uma saída definitiva, só nos resta varrer com certa graça.

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O app Humim quer revolucionar minha agenda? Não, obrigado.

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Foto: Raumrot

Black Mirror e o clima de raiva no Facebook das eleições

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O clima emocional que vem se tornando cada vez mais tenso no Facebook por causa das eleições está me lembrando muito os episódios mais políticos da série inglesa Black Mirror. Criada em 2011 pelo produtor e roteirista Charlie Brooker, a série tem duas temporadas de três episódios cada e trata do comportamento humano infuenciado pela tecnologia num futuro próximo. Já escrevi sobre a primeira temporada no post Black Mirror, a série do agora e a quem está intrigado ou incomodado com a alta temperatura do clima eleitoral, eu sugiro fortemente assistir dois episódios específicos da segunda temporada.

O episódio 3, The Waldo Moment, conta a história de um personagem de computação gráfica que é usado pra sacanear políticos e autoridades em um programa de entrevistas de final de noite. Os entrevistados, alienados dos gostos do público, são enganados pela emissora de TV pra pensar que estão participando de um programa infantil quando na verdade estão sendo massacrados sarcasticamente pelo personagem. Waldo é controlado e dublado remotamente por um humorista talentoso que entra em parafuso quando a produção resolve lançá-lo (Waldo, não o humorista) como candidato para enfrentar um oponente conservador. A disputa sai dos estúdios de TV e vai para as ruas, onde uma van equipada com uma tela gigante segue o conservador para que Waldo possa espinafrá-lo em praça pública.

Não vou dar spoilers, mas os desdobramentos de uma disputa entre um personagem de computação gráfica e um candidato humano são conduzidos de maneira a subverter totalmente  o que seria o clichê dessa temática – comparar a artificialidade dos políticos com as do personagem. O que acontece é justamente o contrário. Emergem, por trás da iniciativa inovadora e bem intencionada, os sentimentos humanos mais confusos e negros de todos os envolvidos. “The Waldo Moment” me lembra muito o que vejo todos os dias no Facebook: as críticas à baixa qualidade e às incoerências dos políticos muitas vezes vem de pessoas que não parecem aplicar a si mesmas o filtro que querem aplicar a eles.

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O episódio 2, The White Bear, é simplesmente perturbador quanto ao ponto que podemos chegar coletivamente se deixarmos que o ódio social e político tome conta da nossa cultura. Começa com uma mulher, Victoria, acordando em um quarto sem lembrar do que aconteceu e como foi parar ali. Constantemente cercada pela foto de uma menina e de um homem, que parecem ser seu marido e sua filha, ela é perseguida por homens mascarados e armados enquanto dezenas de pessoas a filmam e fotografam com celulares sem oferecer qualquer tipo de ajuda. Caçada sem descanso, ela acaba encontrando o que parece ser algum tipo de milícia de resistência, mas pouca coisa faz sentido na sucessão veloz dos acontecimentos.

Uma virada no meio do episódio contextualiza o que Victoria está passando, mas não posso dar qualquer tipo de pista pra não estragar a surpresa. Apenas digo que o desfecho é mais um toque importante a respeito do perigo que corremos de nos desumanizarmos quando incentivamos atitudes violentas num contexto de onipresença das mídias eletrônicas e digitais. Outro ponto que tem me lembrado as reações impulsivas e exageradas no Facebook nessas eleições onde toda declaração e todo candidato é alvo de reações em altíssima amperagem.

Black Mirror não saiu no Brasil e está disponível apenas nos torrents. Dê um jeito de assisti-lo antes do final das eleições pois, como eu disse no meu primeiro post, ela é um dos melhores comentários sobre o agora disfarçado de ficção científica.

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Nada a ver com as eleições, mas ainda digno de nota: o primeiro episódio da segunda temporada de Black Mirror é tão bom e instigante quanto os outros. Conta a história de uma viúva que resgata o convívio com o ex-marido através de um avatar físico, meio clone, que se comunica com ela a partir de todas as memórias digitais que ele acumulou na vida. Mais uma vez parece loucura ou ficção científica. Mas já tem uma startup planejando oferecer um serviço semelhante. Segundo a Proxxima, o Eterni.me usa acesso aos dados digitais do falecido para “criar uma ‘consciência’ no computador que permitirá a interação com outros usuários.” O site do Eterni.me já oferece cadastro para interessados e faz uma promessa grandiosa que parece mesmo saída de um roteiro pra TV: “Simply become immortal”.

Dica: o episódio é muito mais profundo e interessante do que a proposta da startup.

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Brands as publishers: como estruturar a publicação de conteúdo digital para marcas

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Se, por um lado, a internet bagunçou o mundo do marketing e da publicidade com a multiplicação dos canais para os quais se precisa criar conteúdo (sem o mesmo tempo e a mesma grana de antigamente), por outro quem trabalha com isso não pode reclamar da quantidade de estudos, relatórios, sistemas, frameworks e pitacos sobre como fazer um bom projeto dessa natureza no ambiente digital.

Um ótimo exemplo é o relatório gratuito Brands as Publisher da agência digital Huge, que traz um apanhado organizadíssimo dos principais desafios de criadores de conteúdo digital para marcas bem como uma série de linhas de ação práticas para o desenvolvimento e o, mais importante, a manutenção no dia-a-dia de um projeto de qualidade.

Dentre todos os achados, o que eu considero fundamental é a noção de que, nas palavras do relatório, “projetos de conteúdo eficientes requerem múltiplos fluxos de trabalhos com staff dedicado com sistemas e tecnologias dando suporte a cada um dos fluxos. Essa abordagem permite às organizações produzir diversos tipos de conteúdo que sustentam diferentes objetivos, como informações fresquinhas sobre produtos, ofertas promocionais e tópicos em tempo real sem precisar gerenciar conflitos de prioridade o tempo todo.”

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Em outras palavras: quem trabalha com conteúdo de marca para ambiente digital não pode viver se virando nos 30, como ainda é a regra em muitas empresas e agências digitais. O aspecto mais lúdico, horizontal e caótico da internet faz parecer que as operações relacionadas a ela também podem ou devem ser informais e soltas, quando é justamente o contrário. O único jeito de navegar de maneira mais tranquila pelas águas turbulentas da interatividade entre marcas e consumidores é sendo metódico, sistematizado e hierárquico.

Além disso, o relatório ainda responde a cinco questões cruciais para quem opera no ramo:

– Por que as marcas deveriam gerar conteúdo?
– O que significa isso?
– Quais são os drivers fundamentais de sucesso dos projetos de conteúdo?
– Como uma marca pode gerenciar bem operações de conteúdo?
– Quais são os investimentos chave necessários para a empreitada?

Está tudo lá explicadinho, tim-tim por tim-tim, inclusive com fluxogramas. É só ler e aplicar. Depois, não vem reclamar.

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Aproveitando o assunto, vale a pena ler também o post de Tom Goodwin no Digigay onde ele lista os 5 grandes mitos da publicidade moderna. Em relação ao tema acima, Goodwin defende que os consumidores NÃO querem conversar com as marcas e que marcas NÃO precisam gerar conteúdo. A argumentação é curta e rápida, mas o contraponto é interessante e super válido.

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Bits & Kids – liberdade perante a tecnologia digital

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Em outubro de 2011, o especialista em tecnologia Jean-Louis Constanza publicou no YouTube um vídeo de sua filha de 1 ano mexendo em um iPad e depois em uma revista. Nas cenas que duram apenas 1 minuto e 25 segundos, a menina passa as telas do iPad para o lado com os dedos e toca nos aplicativos querendo abri-los. O tablet, claro, responde a seus comandos desajeitados. Em seguida, ela tenta usar outros gestos para interagir com a revista, mas não obtém resultado algum: as fotos não passam, os elementos não abrem, enfim, nada de interativo acontece nas páginas impressas. O título do vídeo expõe a visão de seu autor – “uma revista é um iPad que não funciona”.

Na época da postagem original, o vídeo se espalhou pela internet e até hoje continua angariando visualizações. Mais de 4 milhões e 300 mil pessoas já o assistiram no YouTube e a audiência crescente é seguida de comentários que se dividem entre os deslumbrados pela familiaridade das novas gerações com a tecnologia digital e os críticos do que seria uma exposição precoce de um bebê a uma tela interativa. No livro As Teorias da Cibercultura, o mestre, doutor e professor de comunicação da UFRGS e da PUC-RS Francisco Rüdiger classifica essas duas reações à tecnologia como “fáusticas” e “prometéicas”. Fáusticos são os que, num paralelo com a antiga lenda germânica do Dr. Fausto, consideram a tecnologia uma criação humana que pode se emancipar e nos levar à destruição. Os prometéicos, como no mito grego de Prometeu, acham que a tecnologia é a grande solução para todos nossos males e por isso qualquer sacrifício para obtê-la e mantê-la é válido. Fáusticos e prometéicos, segundo Rüdiger, concordam num ponto: enxergam a tecnologia como dona de “um poder autônomo, com uma dinâmica própria.”

Não é pra menos que nós (junto com a maioria dos estudiosos) pensemos assim. Nos últimos dez ou quinze anos, fomos soterrados pela comunicação da indústria da tecnologia nos dizendo “agora você pode fazer o que quiser, na hora e lugar que escolher”. A própria estrutura da tecnologia digital se baseia na ideia de uma conectividade ininterrupta e onipresente. Isso acabou estabelecendo que “é assim mesmo” que se usa um celular ou um computador: atendendo a todos os estímulos que eles lançam – a qualquer hora e em qualquer lugar que escolherem. Mesmo aqueles usuários que se opõe ao uso exagerado das novas tecnologias aceitam essa noção, colocando-se como bravos resistentes em um cenário dramático. Em alguns meios mais conectados, desconectar-se ganhou ares de heroísmo, o que acaba por confirmar a tese de que a conexão total é inevitável.

Bill Fecych and Don Johnson in control room in 1959.

Quando nos deslumbramos ou nos apavoramos com uma criança que mexe com desenvoltura em um iPad, perdemos uma perspectiva de liberdade e conferimos uma certa aura mágica e misteriosa à tecnologia digital. Não há dúvidas de que essas cenas sejam cativantes, mas a verdade é que precisamos mostrar para as crianças de uma vez por todas quem é que manda – não quem é que manda nelas, e sim nos aparelhos, sites e aplicativos que usamos diariamente. A maior parte deles é bem mais carente do que nossos filhos pois foram desenvolvidos de forma que precisamos lhes dar uma atenção tão constante que nem o mais indefeso dos bebês consegue rivalizar. É muito fácil nos deixarmos levar pelo mar de notificações e conteúdos que chegam sem parar via email, mensagens de texto, chats e feeds de redes sociais porque esses sistemas são construídos assim, para gerar fluxos e engajar nossa atenção 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano até o fim dos tempos. Mas, apesar de parecer, eles não tem vida própria e é uma decisão particular de cada um de nós aprender a regular a entrada de notificações e conteúdos em nosso campo de interesse. Está literalmente nas nossas mãos decidir quando vamos ler ou assistir o que está chegando.

Essa automomia perante os estímulos é a habilidade crucial que precisamos desenvolver e ensinar a nossos filhos, porque o rio de informações digitais é ininterrupto e virtualmente infinito. Sempre haverá o que ler ou assistir e se você não coloca os limites, não espere que o Facebook canse de lhe avisar das fotos novas do seu amigo ou que o YouTube encerre as transmissões na madrugada como faziam as antigas emissoras de TV. Como diz o teórico de mídia americano Douglas Rushkoff, “programe ou seja programado”. Quando seus filhos vêem você pular para pegar o celular a cada 30 segundos, não tenha dúvida de que eles vão crescer achando que isso é o que se faz com um celular. Portanto assuma o controle do seu uso digital, estabeleça seus próprios horários e métodos. Não seja escravo do fluxo de informações e você será um exemplo vivo de como lidar com os excessos induzidos pela tecnologia digital.

No livro “Como viver na era digital”, o escritor inglês Tom Chatfield oferece uma dica mais prática e equilibrada: devemos aprender a tirar o melhor dos momentos conectados e dos momentos desconectados. Quando estamos conectados, é hora de pesquisar, coletar informações, obter diferentes visões, mergulhar na produção digital coletiva da humanidade. Quando estamos desconectados, é hora de analisar, filtrar e costurar o que absorvemos quando estávamos conectados. A alternância coordenada entre essas duas modalidades complementares é outra ferramenta valiosa que precisa ser incorporada à educação das crianças. Diz Chatfield: “Simplesmente depreciar um dos dois não serve para nada pois cada um representa um conjunto diferente de possibilidades para o pensamento e a ação. Em vez disso, devemos aprender a nos perguntar – e ensinar nossos filhos a se perguntarem – quais aspectos de uma tarefa, e do viver, são melhores servidos por cada um.”

Esse é o detalhe que passa despercebido no vídeo de 4 milhões e 300 mil visualizações no qual um bebê confunde uma revista com um iPad. Encantador e desconcertante, ele é o retrato da nossa relação com a tecnologia digital. Estamos todos na primeira infância de um novo momento histórico, metendo os pés pelas mãos, perdidos com a função e o conteúdo de cada uma das ferramentas que estão à nossa disposição. A tecnologia digital nos oferece um tipo de autonomia às custas de outra. Pagamos pela magia com nossa atenção irrestrita e assim o “faça o que quiser na hora e lugar que escolher” acaba se tornando “faça o que estamos estimulando você a fazer o tempo todo em todo lugar”. Existem muitas facetas – econômicas, políticas, artísticas e filosóficas – nessa questão, mas por hora basta lembrar que a chave para um uso produtivo das tecnologias digitais é não cedermos à ideia de que elas tem uma vida autônoma mas nós assumirmos nossa autonomia – ensinando às crianças e adolescentes a também serem autônomos e, em última instância, verdadeiramente livres.

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Artigo publicado originalmente na edição 66 da revista Estilo.

Imagem 1: ilustração de Guilherme Dable para revista Estilo.
Imagem 2: New Old Stock
Imagem 3: tradução de lâmina de apresentação de Tom Chatfield para o projeto Sicredi Touch por DZ Estudio.

Quando a mente entra em Estado de Facebook

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Geralmente, eu me considero um cara equilibrado na relação com a tecnologia, ao menos levando-se em consideração as atividades que desenvolvo e o estilo de vida no qual estou imerso – a vida de um publicitário, músico, blogueiro, interessado em cultura digital e morador de área intensamente urbana. Dentro do possível, sempre procurei estabelecer alguns limites e parâmetros de uso e, acima de tudo, ficar atento ao jeito como a minha mente reage aos diferentes ambientes digitais e seus estímulos, nem que seja por um tipo de curiosidade científica. Ainda assim, por mais que eu cuide, não adianta: é muito fácil eu ser arrastado pelo balançar das ondas da rede social mais famosa do mundo.

“Estado de Facebook” é como eu chamo (pra mim mesmo) o jeito como a minha mente fica quando me conecto, claro, no Facebook. O primeiro sintoma desse Estado é a tendência de passar os olhos com mais rapidez pelos blocos complexos de informação formados por fotos, vídeos, dezenas e centenas de caracteres, escaneando a tela e precisando fazer um certo esforço, mínimo que seja, pra parar e olhar adequadamente para uma foto ou ler adequadamente um pequeno texto. O segundo sintoma é o dedinho rolando a tela pra cima, fazendo subir o feed de notícias pra saber o que tem embaixo. Combinados, o escaneamento rápido com os olhos e o dedinho rolando a tela pra cima me colocam num modo meio zumbi, no qual eu raramento paro de fato em algum conteúdo – creio que morreria de vergonha de ver como fica a minha cara fazendo isso.

O terceiro sintoma é o aculturamento da minha mente no assunto preponderante que brota do feed de notícias naquele momento. Eu sou muito permeável a algumas influências (termo científico: maria-vai-com-as-outras) e se um tema se repete no feed, eu me sinto um tanto quanto Zelig, pois passo a filtrar meus pensamentos e minha energia por aquele tema durante algum tempo. O quarto sintoma é derivado do terceiro (e indiretamente dos dois primeiros), pois eu passo a formular, na cabeça, opiniões, proposições e conteúdos relacionados ao tal tema preponderante, de maneira sistemática e repetitiva, como um cacoete de redator publicitário (nessa área, trabalha-se com geração de quantidade para chegar a alguma eventual qualidade). O quinto sintoma é postar uma ou mais dessas formulações e o sexto seria eu me engajar em discussões sem fim no Facebook. Mas, agradeço aos céus todos os dias, superei essa sexta tendência muitos anos atrás depois de larga experiência em listas de discussão por email.

A rigor, o Estado de Facebook não me causa grandes estragos, mas eu gosto de ficar de olho nisso. Há algum tempo, vi num post do Eduf o termo “mindless browsing”, que é a atitude de ficar clicando de site em site, seguindo os hyperlinks de maneira meio desmiolada, sem muito objetivo, vagando simplesmente. O que nos primórdios da internet era até interessante pra descobrir conteúdos novos mas, hoje, com a quantidade absurda de informação interligada, se torna uma viagem perigosa, sem fim, na qual você anda, anda e nunca pára pra desfrutar o que coletou a menos que tenha alguma disciplina. No caso do Facebook, voltando ao assunto, o “mindless browsing” se torna “mindless liking, sharing & commenting”. E, na minha experiência, raramente, muuuuuito raramente, se obtém dividendos na mesma proporção da energia e do tempo investidos.

O que, claro, é um problema meu e vocês não tem nada a ver com isso. Aliás, achar que você tem alguma coisa a ver com o problema dos outros ou que os outros tem alguma coisa a ver com os seus problemas seria o sétimo sintoma do Estado de Facebook. Curiosamente se manifestando agora, ao vivo, no formato de “post de blog”. Melhor parar por aqui.

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Foto: Superfamous