A perigosa cultura narrativa do "Como Mudar o Mundo e Sua Vida"

14327861786_dbba6451e8_b (1)

Mês passado, o Gustavo Gitti publicou no Papo de Homem um texto criticando os excessos do que poderíamos chamar de “cultura do aprimoramento”. Disse ele:

“Estamos na era do aprimoramento pessoal. ‘Como’ e ‘melhorar’ são os novos mantras: como melhorar a alimentação, como melhorar o trabalho, como melhorar o relacionamento… Quando aparece a palavra ‘rim’, é porque o rim não está funcionando bem. Quando se fala muito em paz, é porque não há paz. Se cada vez mais ouvimos sobre desenvolvimento humano, felicidade e transformação, talvez seja por que nunca estivemos tão confusos em relação ao que isso realmente significa.”

O post envereda por questões internas ao ser humano sobre o que de fato significa transformação, buscando falar do que vai além das aparências externas. Sem entrar em questões semânticas absolutas, ele estabelece, para efeito de diálogo, uma distinção entre mudança e transformação:

“O processo da mudança funciona como uma constante busca por novas experiências. Quando alguém diz ‘Mudei’ na maioria das vezes quer dizer: ‘Troquei de experiência’. O processo de transformação trabalha com toda e qualquer experiência, com cada vez menos necessidade de buscar por novas experiências ou de alterá-las externamente.”

Mudança seria, então, uma “revolução” mais aparente e também mais superficial. A transformação, por outro lado, exigiria um auto-entendimento mais refinado e menos dependente de manifestações externas. Mudança se anuncia, transformação se empreende. Mudança rende poemas, canções, videocases. Transformações rendem seu próprio resultado, que muitas vezes vem de um processo longo, demorado e pouco cinematográfico. Às vezes, inclusive, rende apenas seu próprio processo. Mas o fato de, hoje, a mudança ser muito mais popular do que a transformação não deve ser debitado unicamente na conta da dificuldade inerente das transformações. A cultura contemporânea tem celebrado e estimulado intensamente a ideia de mudança – rápida, formulaica e vibrante, já que a transformação não rende boas histórias se contada honestamente, pois demora demais pra acontecer e nem sempre gera fogos de artifício.

Segue Gitti:

“Não é fácil detectar o limite do processo de mudança em uma cultura que promove tantas soluções desse tipo. O site do TED é uma boa amostra desse zeitgeist atual. As palestras, se vistas em conjunto, parecem comunicar uma mensagem assim: Você quer se transformar? Basta saber disso, estudar aquela pesquisa, ler tal livro, não esquecer daquilo, começar a dormir mais, usar esse novo modelo de pensamento, se exercitar assim, comer isso, fazer tal coisa, implementar tal hábito…”

14929399639_67013a4742_b

Os vídeos das conferências TED Talks, que condensam ideias complexas e impactantes de cientistas, intelectuais, artistas e empreendedores em no máximo 18 minutos, são um dos vetores culturais mais poderosos da última década na internet. O site do TED tem cerca de 1500 vídeos que já foram assistidos mais de um bilhão de vezes. A estética TED Talks de apresentar ideias influenciou o mundo corporativo, o universo acadêmico e toda uma geração de jovens empreendedores (bem como os Muppets). Graças ao TED, para milhões de pessoas, um projeto de “mudar” ou de “mudar o mundo” é algo que precisa caber em 18 minutos além de ser necessariamente contado de maneira empolgante. Que medo.

Embora eu tenha assistido com gosto muitos vídeos do TED e reconheça o poder e as virtudes da síntese e do storytelling na vida prática, quando se fala de transformação real e profunda, penso que é temeroso acostumar-se unicamente com um paradigma baseado em “eficiência de plateia”. E é visível, ao menos nos meios que frequento e que acompanho, a confusão gerada pela estética TED Talks nesse sentido. Há os que acham que o resultado da transformação deve caber numa palestra ou num vídeo; há os que acham que a palestra/vídeo É o resultado da transformação; e há, o mais perigoso, os que não reconhecem o valor das pessoas que transformam e que geram transformação mas cuja fala não se alinha com a estética TED Talks. Que medo, de novo…

Semana passada, o site Motherboard aproveitou o buzz em torno da nova rede social Ello para destrinchar a história meteórica da Diaspora. Assim como o Ello, a Diaspora surgiu como uma alternativa ao Facebook, mais livre, mais privada e supostamente embebida em ideais mais nobres. Não sabemos o que será da Ello, mas a Diaspora naufragou devido a uma mistura de obstáculos internos e de contexto econômico-cultural. Isso não impediu que seus criadores fossem assediados pela mídia e erguidos em pedestais cedo demais, muito antes que suas ideias pudessem se provar eficientes e realmente transformadoras. A narrativa de ascensão e queda da Diaspora, dramática porque envolve até mesmo um suicídio, é fruto, em parte, da cultura TED Talks – era esperado por todos os lados que eles condensassem um amadurecimento de ideia aceleradamente. Live fast, die young. O ditado cinquentão ainda faz sentido na era digital.

Narrativas de transformação dificilmente cabem em videocases ou posts, mas podem dar livros interessantes. Procure a trilogia de Fernando Gabeira, por exemplo. Em O que é isso, Companheiro?,  O Crepúsculo do Macho e Entradas e Bandeiras o ex-guerrilheiro conta a longa, batalhada e dolorosa transformação pela qual passou antes, durante e depois da ditadura. Só não espere lições de vida ou listas de atitudes positivas. Outra boa dica é Jovens de um novo tempo, despertai onde o Nobel de Literatura Kenzaburo Oe tenta “explicar todas as coisas do mundo” a seu filho deficiente e se perde nos próprios devaneios e dificuldades tentando triangular a relação com o menino, seu projeto literário e seu amor pela poesia de William Blake. Impossível condensar essa história de transformação em um post de Facebook. Se ainda não estiver convencido, leia Depois do Êxtase, Lave a Roupa Suja, coletânea de centenas de entrevistas do professor de meditação americano Jack Kornfield com monges, lamas, padres, freiras e outros mestres espirituais sobre o lado B da vida espiritual. Acho que nenhum deles ali palestrou no TED.

Em resumo, é bacana e bem vindo que exista no ar essa energia que tende à mudança, à busca de novas perspectivas, de alargamento de horizontes. Mas ela é melhor acompanhada por uma dose certa de ceticismo, daquele tipo que não desestimula a busca por transformação mas que também não aceita tratar de um assunto tão importante com uma abordagem de programa de auditório hipster. O padre jesuíta John Culkin disse no século passado que “Moldamos nossas ferramentas e nossas ferramentas nos moldam”. Neste século, quando a comunicação e a linguagem são forças dominantes mais do que o trabalho, poderíamos dizer: “Moldamos nossas narrativas e nossas narrativas nos moldam”. É algo no qual vale a pena prestar muita atenção.

***

Na verdade, se formos um pouquinho mais fundo, vamos encontrar essa narrativa incorporada fortemente à cultura americana, que continua sendo uma das grandes influências da cultura global, não importa o que falem sobre a Ásia ou a América Latina. No dia 11 de setembro, ironicamente,  o The New York Times publicou em sua revista de varieadades um longo ensaio chamado “A Morte da Idade Adulta na Cultura Americana”. Nele, o crítico de cinema A.O.  Scott traça uma linha que começa na literatura do século XIX do seu país e chega até os seriados e as sagas literárias atuais ressaltando, entre outras coisas, sua ode ao escapismo. E cita Love and Death in The American Novel, escrito na década de 60 pela crítica literária Leslie Fiedler, que diz: “Um dos fatores que determina o tema e forma de nossos maiores livros é a estratégia de evasão, essa retirada para a natureza e para a infância que faz nossa literatura (e nossa vida!) tão encantadoramente e irritantemente masculina (boyish).” Não é difícil associar esse tipo de mentalidade com a cultura TED Talks / Vale do Silício.

***

Se você gostou desse texto, talvez curta meus próprios relatos de mudança:

– A busca pelo sentido no trabalho e as videocassetadas.

– Por uma vida mais ordinária.

***

Fotos: Raumrot

Gabeira, política e corpo

4

São muitos os serviços que Fernando Gabeira já prestou e ainda presta ao país, mas talvez o mais valioso esteja embebido na mensagem deste livro, que a meu ver diz mais ou menos o seguinte: é preciso entender e exercer a política como um atividade viva, que abarque todos os aspectos do indivíduo, especialmente suas inclinações particulares e suas contradições ao invés de usar idelogias e teorias para aplainar o espírito humano – ou, claro, para ganhar poder e dinheiro. “Onde está tudo aquilo agora?” pergunta Gabeira em suas memórias políticas, lançadas em livro no fim do ano passado. A pergunta induz a uma visão superficial, e acho que é meio sacanagem do Gabeira. “Aquilo tudo” não diz respeito apenas a questionar antigas crenças (um belo gancho pra capturar leitores de outras vibrações…), mas mais sobre olhar com uma outra perspectiva tudo aquilo que compõe uma história pessoal – esteja dentro ou fora da pessoa, seja público ou privado.

Os predicados de Gabeira para empreender essa reflexão e proclamar uma política viva e pulsante, conectada com a essência da sociedade e do ser humano, são conhecidos mesmo por quem não acompanha de perto sua trajetória. A saber: nascido em Minas Gerais, Gabeira se apaixonou cedo pelo jornalismo e a partir da investigação e narração do mundo é que saltou para a vida política. Diferente de muitas figuras históricas na área, não teve uma atuação militante durante a primeira parte da juventude. Sua paixão era mesmo o jornalismo e foi a convivência com os colegas e os assuntos das matérias que o inclinaram em direção ao existencialismo e, em seguida, ao socialismo.

A opção pela luta armada e os excessos das ideologias à esquerda no combate à ditadura já foram exaustivamente processados por Gabeira em alguns de seus outros livros, mas ao que parece reflexão nunca é demais. Mais uma vez, ele repassa aqui as contradições da própria militância, em especial as dúvidas existenciais que o acompanharam o tempo todo, surgidas mesmo antes de abandonar alguns conceitos e práticas. Entre todas as questões, a que mais me tocou foi uma pouco discutida, sempre obliterada pela discussão polarizada do tipo capitalismo x socialismo. Falo da noção de alienação do corpo no envolvimento com a política.

saitica fernando gabeira foto daniel de andrade

A certa altura, Gabeia conta, do exílio na Suécia:

“Olhando-me no espelho, vi que eu parecia um viúvo que tinha perdido a esposa de muitos anos e, inconscientemente, parara no tempo. Usava cabelo comprido, bigodes, fumava cigarros de fumo negro, Gauloises, e ainda vestia roupas que ganhara de presente pelo caminho A decisão de correr diariamente e parar de fumar foi o primeiro grande passo. Comia melhor, respirava melhor, e ao contrário do que previam alguns, não engordei. Não bastaria correr e deixar de fumar. Um movimento por alimentos saudáveis brotava com força na Suécia e em outras partes do mundo, tocadas pelas primeiras denúncias sobre o papel dos agrotóxicos no meio ambiente e em nossos corpos.”

Isso era meados dos ano 70 e, embora Gabeira admita que não é possível demarcar com exatidão suas mudanças de rumo, é mais ou menos por aqui que se inicia uma nova fase de sua vida, a que iria definir sua identidade pública pelas décadas seguintes. Assim como a ligação com a luta armada partiu de inclinações pessoais, o contato com o então nascente movimento ecológico brasileiro aconteceu devido a uma necessidade particular de dar uma sacudida na poeira, mexer e trabalhar o corpo, enrijecido e abandonado em anos de dedicação à militância.

No retorno do exílio, a questão se manifestou no âmbito público nacional com as peculiaridades do nosso país:

“A primeira polêmica que enfrentei foi por ter ido de sunga à praia. Não tinha a mínima intenção de provocá-la. Já usara a sunga na Suécia e, em algumas praias da Grécia, andava nu. Se a polêmica precisar de um rótulo, eu diria que ela girou em torno da política do corpo, um tema vasto que, no fundo, preunciava uma nova época, eficazmente aproveitada pelo capitalismo, que multiplicou academias, artigos de beleza, cirurgias plásticas, produtos dietéticos. Enfim, o capitalismo achou um novo modo de se aprofundar.”

trip214-morte-testosterona-01

O corpo é objeto pouco discutido mas muito utilizado em todos os campos políticos. Em uma análise rápida, é o corpo que faz a mediação entre o mundo e a mente do indivíduo. Portanto, é natural que ele seja objeto de violência e regulação em ambientes conturbados. E também de protesto (o que obstruiu a passagem daquele tanque chinês? Uma ideia ou um corpo?). Em contextos democráticos, diz-se que que o encontro entre candidatos e eleitores se chama “corpo a corpo.” Em ambas as situações, o corpo acaba no arcabouço da alienação, esquecido, como se não fosse conectado à mente do indivíduo mas sim apenas uma peça de um sistema maior. Mesmo numa sociedade de mercado, supostamente livre, o corpo é submetido a todo tipo de regras comerciais e sociais, em geral disfarçadas de costumes ou de escolhas estéticas.

A relação com o corpo, aparentemente, foi a base particular sobre a qual Gabeira construiu suas andanças no movimento ecológico. Estudou dança, pegou a estrada de jipe pra conhecer comunidades alternativas no Brasil inteiro. Para ganhar a vida, escreveu livros também sobre isso tudo. Chegou num ponto, nos anos 80, em que essas opções se esgotaram e o ciclo se fechou sobre si mesmo: Gabeira voltou ao jornalismo e, em seguida, à vida pública. Mas nunca deixou de incluir o corpo – o seu e o do outro – na sua visão de política. Durante o caso de uso indevido de cotas de passagem do Congresso Nacional, no qual Gabeira estava envolvido, conta:

“Confesso que apanhei muito. Crônicas, reportagens, comentários, piadas. Olhando pra trás, creio ter aprendido uma lição na crise. Quando tive a impressão de que todos estava contra mim, percebi que eu mesmo tinha que estar ao meu lado. Música, meditação, silêncio, tudo isso ajudou. Tenho a natação como hábito diário. Ela já tinha me ensinado alguma coisa. Sempre que havia um aborrecimento, alguma insinuação nos jornais, eu notava que nadar me ajudava a superar ressentimentos. Nos primeiros cem metros, você começa a achar que os críticos não são tão agressivos como parecem. Nos quatrocentos, mesmo achando que eles não tem razão, você começa a procurar algo na crítica que possa te ajudar. E no final termina quase agradecido. Talvez a produção de endorfina nos trone mais tolerantes.”

gabeira4

A política centrada no corpo, ainda que não diretamente, foi sempre um tema para Gabeira após sua volta ao Brasil. Ao fundar o PV e entrar na vida pública, passou a abraçar, além da ecologia (antigo nome da sustentabilidade) causas como a profissionalização da prostituição, o casamento homossexual e a descriminalização da maconha. São temas próximos ao que Gabeira viveu, pois sentiu na carne a violência e os pré-julgamentos não apenas na época da ditadura, mas também no retorno do exílio. É coerente, portanto, que tenha abandonado um tipo de radicalismo para abraçar uma visão mais ampla, mais centrada nas possibilidades do indivíduo do que em grandes ideologias.

E aí chegamos no que de mais bonito o livro tem – além de uma linda escrita: capítulo após capítulo, Gabeira deixa claro que suas opções e ações nasceram entrelaçadas com questões absolutamente pessoais. Salvar o mundo? Claro. Mas baseado no quê? Na vontade de ser pleno e feliz. Parece ser assim: Gabeira se torna respeitoso e combatente pela necessidade do outro devido à batalha pessoal do reconhecimento das próprias necessidades. Na construção do respeito ao outro, não tem estrada mais firme. Melhor a honestidade de admitir essas necessidades do que mergulhar numa vazia retórica altruísta, pois é essa que liga a fisiologia política da velha guarda com a grandiloquência perigosa de novos setores do ativismo.

Em resumo, é mais ou menos como diz uma frase que volta e meia circula por aí: todo mundo quer mudar o mundo, ninguém quer lavar a louça. A história de Gabeira é a história de alguém que lavou muita louça, começando pela pia de casa, passando por cozinhas da Europa, da África, do Chile e terminando décadas depois no Congresso Nacional. Há de se respeitar as memórias políticas de alguém com tamanha experiência doméstica.

***

Um último adendo.

É curioso também como a trajetória de Gabeira serve de exemplo para a política do futuro. Lá atrás ele já enxergou o que vivemos hoje e o que temos pela frente. Muito antes da informalidade e da conectividade do ativismo atual, ele já vivia conectado ao mundo e exercendo sua política de forma pessal e em rede. Muito antes de todos sermos mídia, ele sempre foi um pequeno conglomerado de mídia ambulante. Muito antes de se falar em marketing de guerrilha, ele usou táticas inovadoras e inusitadas para promover suas candidaturas. Muito antes de se falar em meme, ele criou um bordão auditivo viciante pra fazer render os poucos segundos da propaganda gratuita na eleição de 89. Olhe pra trás e veja quão poucos fizeram algo parecido tanto tempo atrás.