Algumas palavras sobre livros

 

É tempo de Feira do Livro em Porto Alegre: a melhor e a pior época para se escrever sobre ele, o livro, esse objeto tão cercado de dúvidas e alvo de tanto escrutínio intelectual devido ao avanço dos meios digitais de leitura. É a melhor época porque, enfim, o assunto está em pauta. Também é a pior porque, devido à tradição, a chegada da Feira traz junto consigo um sem número de clichês sentimentalóides talvez úteis para incentivar a leitura mas pouco válidos numa investigação mais crítica do assunto. Nem vamos entrar nessa seara.

Na verdade, o que considero mais curioso acerca da discussão sobre como vamos ler o que leremos no futuro (se é que vamos ler, diriam os mais fatalistas) é o quanto o foco recai sobre o objeto livro e quão pouco se discute sobre o entorno social, industrial e comercial. É claro que é muito mais fácil e rápido conversar animadamente sobre os predicados do papel sobre uma tela digital e vice-versa do que analisar toda a cadeia de produção de um livro e os efeitos dessa forma de publicação sobre o modo como nos relacionamos com o mundo, ou como o construímos. É comum que se associe os meios digitais de leitura com seus ecossistemas de funcionamento (lojas de e-books, lojas de aplicativos, os ebooks e os aplicativos, os diferentes dispositivos, a conectividade e assim por diante), mas é raro que alguém se lembre que os livros também costumam surgir e viver em um ambiente expandido bastante complexo e interessante.

Apesar do livro, por sua idade e maturidade, sobreviver melhor sozinho na vida lá fora (você não vê um ebook passeando por aí na rua), ele nunca é totalmente independente. Em “A Questão dos Livros – Passado, Presente e Futuro”, o historiador Robert Darnton ilustra o ecossistema dos livros impressos da seguinte forma (para fins de análise histórica):

Bem, não me cabe aqui explorar esse diagrama em profundidade (nem que eu queira), mas é bacana dar um passo atrás e olhar o panorama no qual o livro está inserido. Aí você vê que a comparação entre os meios digitais de leitura e o livro impresso não faz sentido quando feita objeto-com-objeto (até porque nunca ninguém sabe direito se compara o livro de papel com o dispositivo ou com o ebook), e sim ecossistema com ecossistema. E aí que o bicho pega, porque os ecossistemas do ebook e do livro de papel são sobrepostos, compartilham diversos círculos, retângulos e flechas do esquema. Os ebooks nasceram com os dois pés fincados no mundo editorial e na cultura literária prévia. Algo na linha “standing in the shoulder of giants”.

Olhando desse ponto de vista, faz mais sentido comparar a questão dos livros (digitais ou não) com a situação do mercado de varejo físico – as lojas presenciais onde compramos nossas roupas, eletrodomésticos, calçados e outros bens gerais de consumo. Em estudos e palestras do segmento, aponta-se frequentemente para a experiência como sendo o futuro do varejo. Resumindo e traduzindo rapidamente, a história é mais ou menos assim: o e-commerce, aliado à comoditização de produtos (tanto faz essa geladeira ou aquela, essa TV ou aquela, esse celular ou aquele) deixa nas mãos da experiência de compra a decisão de ir nessa ou naquela loja. O seu envolvimento com o tipo de produto, o ambiente mais aprazível, os vendedores mais atenciosos, a localização mais interessante, os serviços agregados mais úteis, o programa de fidelidade ou, mais profundamente, a curadoria e as crenças da loja, esses sim seriam os aspectos de diferenciação e não mais o produto em si.

É nesse ponto que reside uma das forças do livro impresso – não em sua corporificação mais imediata, nas suas páginas e capa, mas em seu entorno expandido, que por enquanto ainda oferece uma experiência mais interessante do que os ebooks. Uma Amazon atachada a um Kindle é inquestionavelmente prática pra quem adora ler. Mas, a menos que você circule num meio bastante restrito de pessoas ligadas em tecnologia, esse conjunto oferece uma experiência ainda bem menos exuberante se comparada à experiência de circular no ecossistema dos livros impressos – não apenas a livraria, mas as feiras de livros (populares e comerciais), os sebos, as livrarias (grandes e pequenas), bibliotecas, as oficinas literárias, as bienais e as jornadas. O livro digital está tentando comprar seu passe nessa festa – às vezes com o status de novidade, às vezes com a incontestável moeda da relevância cultural e, futuramente, econômica. É essa relevância que vai dar as cartas e pesar na balança da experiência expandida. Quando todo esse sistema tiver o livro digital em seu centro (sozinho ou dividindo as atenções com o livro impresso), aí sim é que teremos um cenário realmente diferente. Será? Não sei. Sei lá. Veremos.

De certo, por enquanto, só uma coisa: tentar encaixar essa relação complexa, cheia de tentáculos e implicações, em uma manchete sensacionalista do tipo “livro impresso vs. ebook” – bem, isso é coisa de quem não está a fim de pensar e discutir muito, de quem não suporta a situação de ambiguidade e espera na qual a maior parte dos setores hoje está mergulhada. Boa sorte aos impacientes, pois tudo indica que essa situação ainda deve se estender por muito tempo.

Habitante Irreal de Paulo Scott

Não escrevo sobre esse livro pra resenhá-lo, localizá-lo no cenário cultural, comentá-lo. Escrevo expliciamente pra promovê-lo – especificamente aos que não foram impactados pelas resenhas e comentários elogiosos do ano passado. Ao que me consta, Habitante Irreal foi considerado um dos lançamentos mais importantes e consistentes de 2011 e é um romance que teve sobre mim esse efeito de engajamento. Não me bastou ler e curtir – quero passar adiante, aspiro que outras pessoas vivam uma experiência tão interessante quanto a que vivi lendo suas 264 páginas.

E que experiência é essa? É acompanhar, pelo lado de dentro, uma trajetória que começa com o desencanto de um jovem estagiário de advocacia e militante do PT, passa por uma temporada na Londres do início dos anos 90 e termina com um coquetel de arte performática e legado indígena. E, o mais impressionante tecnicamente, Scott faz a ligação entre esses cenários através das lentes de dois indivíduos que são testemunhas e eventuais protagonistas de ondas históricas – essa é a revisão, a cobertura, o “passar a limpo” da virada dos anos 80 para os 90 e a entrada nos anos 00 do ponto de vista da política e da cultura tão comentados em resenhas literárias. Pode ser, claro, que eu estivesse sensível na semana que me lancei nessa leitura, pode ser que eu esteja exagerando. Mas suspeito fortemente que Paulo Scott conseguiu gerar um daqueles livros interativos – você vai lendo e a história vai apertando botões em locais ermos do inconsciente coletivo.

 

Como naqueles desenhos animados em que cavando no Ocidente você chega, por um túnel, ao Oriente, o Paulo do romance cava tão fundo (às vezes intencionalmente, às vezes por necessidade visceral) que alcança uma outra superfície, que não é sua, mas de todos que compartilharam os anos de sua juventude. A conexão entre os terremotos particulares e as mudanças tectônicas de momentos culturais é matéria prima comum e aceita da literatura, do cinema, da música e das artes em geral. O que destaca certas obras nesse tipo de empreendimento (me veio à cabeça Hanif Kureishi e Stephen Frears) é justamente a capacidade de ligar pontos entre camadas veladas dos personagens e do processo histórico sem precisar desvelá-las. Em Habitante Irreal eu sei que isso acontece, o processo é visível, mas não consigo mapear tais pontos (sem escrever uma monografia) tamanho é o mergulho interno que Scott promoveu.

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E, claro, também tem a matemática, os cálculos.

Os habitantes de uma época costumam achar que são definidos coletivamente pela soma de feitos de sua geração. Porém, mais provavelmente, o que destaca um turma da outra é a última demão de verniz, uma revisão tardia (na literatura, na história, no jornalismo) que condena compulsoriamente certas formas de ação à aposentadoria por invalidez.

Olhando para trás esses habitantes se enxergam como irreais. Mas eles talvez estejam apenas pegando pesado demais com eles mesmos.

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Desenho: Eduardo Nasi

Picaretagem ou novo formato?

A história é a seguinte: estava eu procurando esse livro de fotos do Chris McCandless (o carionha do Na Natureza Selvagem) na Amazon, quando me deparei com o livro acima. Interessado no tema, fui dar uma vasculhada no conteúdo, na autora e na editora e encontrei o seguinte:

As passagens grifadas dizem o seguinte.

“Por favor atente para o fato de que o conteúdo deste livro consiste primordialmente de artigos disponíveis na Wikipedia e em outras fontes online. (…) (A editora) Project Webster representa um novo paradigma de edição, permitindo que fontes de conteúdo espalhadas sejam consolidadas em livros coerentes, relevantes e informativos.”

É isso mesmo! O livro acima não é nada mais do que uma compilação de artigos pescados na internet que estavam com os direitos liberados em algum nível. E o Chris McCandless não é o único assunto coberto pela autora Dakota Stevens e o Project Websters. Na própria Amazon você encontra DEZENAS de livros no mesmíssimo formato, com o mesmo layout de capa, sobre todo tipo de assunto, desde Ayrton Senna, passando pela cozinha de Porto Rico, tribos nativas dos Estados Unidos, a história do hip hop e Cameron Diaz. E não é só na Amazon, se encontra material similar no Google Books e na Barnes & Nobles. Deve ter em mais lugares, mas eu parei por aí.

Bom, fique curioso com essa história e comecei a procurar algum site ou alguma referência a Dakota Stevens e ao Project Websters, mas não encontrei NADA, nem site da autora, nem da editora, nem mesmo matérias criticando a idéia. O nome de Dakota Stevens, na verdade, aparece mais frequentemente como o personagem dos livros de mistério do escritor Chris Orcutt. Esse Dakota Stevens, apesar de fictício, tem até site do seu escritório de investigação.

Enfim, se alguém encontrar mais alguma coisa sobre Dakota Stevens/Project Websters, por favor avise. Mas o fato é que estamos diante de uma ideia muito interessante. Nos reviews de leitores da Amazon, algumas pessoas avisam o leitor incauto que aquele livro é, de certa forma, uma picaretagem, uma reunião de artigos que qualquer um pode sentar, procurar e reunir pra ler na internet. Mas o que retira um pouco do ar de picaretagem dessa história (descontando qualquer questão de direitos autorais) é que hoje o trabalho de garimpar, fazer curadoria e reunir material de forma que faça sentido é absolutamente valioso.

 

Esses dias, eu pensava justamente sobre isso: é possível aprender sobre tudo na internet, mas um dos grandes problemas é sentar, garimpar e juntar num formato que tenha portabilidade, que seja simples de colocar em algum dispositivo ou imprimir. Esse trabalho – apesar de alguns conhecidos meus gritarem o contrário – é um saco de fazer e são poucas as pessoas que 1) estão dispostas 2) tem as habilidades de garimpagem,  de consolidação e de edição gráfica necessárias pra tanto.

Veja bem: não estou falando de edição online, de portais de conteúdo, de RSS feeders, de blogueiros que curam conteúdo. Estou falando de um conteúdo que em um certo ponto precisa se tornar estático pra ser consumido. Que chega um ponto em que ele pára de ser alimentado, que você corta o fluxo, e ele se torna um objeto (digital ou físico) com início, meio e fim. Um livro ou uma revistas feitos por você com o que você acha na internet. A princípio, é um conceito que soa anacrônico, mas eu diria que ele é mais fundamental hoje do que em qualquer outra época da história da humanidade – porque é um saco você precisando absorver informação sobre um determinado tema e não parar de entrar coisa nova.

Pra dar um exemplo mais prático: eu uso o Flipboard como interface do meu Google Reader (ainda não testei o Currents e nem o Zite). Ou seja, quando eu quero me informar, eu abro o Flipboard no iPad e seleciono a aba que me interessa. O problema é que a informação não só não pára de entrar um segundo como tem um rabicho em direção ao passado. Essa é a grande vantagem de livros e revistas impressos: chega uma hora que a leitura acaba. Esse lado estático e limitado também tem valor de leitura. Eu gostaria de poder “cortar” a alimentação do meu Flipboard de vez em quando. Como o aplicativo não faz isso, eu preciso fazer isso com a minha mente.

Aí está uma ideia pra quem quiser produzir: um aplicativo de uso popular, fácil e intuitivo, que busque conteúdo na internet sobre um determinado assunto e consolide em um documento em formato e layout também popular. Tá picando essa história. Se existe isso, me avisem por favor.

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Update 1: o Rodrigo Azevedo avisa que dentro da própria Wikipedia existe o Criador de Livros, que cria arquivos em PDF e ODF com artigos dali mesmo. Vou testar e em seguida dou meu veredicto.

#será?

Uma das grandes contribuições da série Harry Potter (que acompanhei nos filmes) à cultura pop é justamente um certo compromisso com a realidade, com o cotidiano, com os problemas mundanos. Sim, você leu direito: a série que botou a magia na pauta mundial também retorceu o próprio conceito de magia, associado, por anos, ao universo Disney, a um certo escapismo americano clássico. No universo Potter, a magia não é escapista, mas quase um catalisador para se lidar com questões de base: amor, amizade, abandono, traição, paternidade & maternidade, educação, valores humanos e, claro, a morte, o fim, a impermanência, sublinhados no slogan de encerramento. Faz todo sentido do mundo que a série TERMINE, porque, enfim, como somos lembrados repetidamente ao longo de toda a saga… tudo é uma fase, tudo termina.

A única coisa que talvez seja questionável no slogan “tudo termina” é o futuro da série como produto cultural. Pensando em quanto a indústria do entretenimento espreme suas franquias ao máximo, pensando na paixão dos fãs, pensando no atual estado (avançado) de produção de conteúdo por aficionados (e sua participação no hoje célebre conceito de transmedia storytelling), lembrando que o George Lucas abriu precedentes perigosos com a retomada do Star Wars alguns anos atrás… é de se perguntar se tudo vai terminar mesmo…. se alguém tem realmente controle pra dizer quando Harry Potter vai ou se vai mesmo “terminar”.

Veremos.

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Aproveito a oportunidade pra ser oportunista e resgatar os posts Harry Potter Vai Chutar a Sua Bunda e Harry Potter Não Vai Chutar a Sua Bunda. Obrigado.

Ginsberg

Assim como comentei sobre Gay Talese, não sou leitor da obra do Allen Ginsberg. Tenho lá em casa dois volumes de poesia das antigas edições da L&PM (Uivo e A Queda da América), ambos fruto dos apetitosos balaios da Feira do Livro do final da década de 80. Mas eles foram apenas semi-lidos, ou lidos mais no folhear descompromissado. O que realmente li, com gosto, nessa mesma época, foi o Cartas do Yage, a desbocada e interessantíssima troca de missivas entre Ginsberg e William Burroughs contando das experiências deste último com ayahuasca e garotos latinos na Amazônia colombiana e peruana.

De forma que: não sou exatamente um especialista. Não tenho muito contexto literário para oferecer ao comentar I Celebrate Myself, o obeso compêndio do arquivista e bibliógrafo particular de Ginsberg, Bill Morgan, que acabei de ler. Mas posso – e quero – dividir impressões bem particulares sobre o empreendimento de passar 700 páginas acompanhado as anotações e lembranças pessoais do homem que deu liga à geração beat.

Na verdade, o grande barato de qualquer biografia do Ginsberg (e há várias por aí) é que a história dele se mistura com uma série de conceitos recentes da história americana – e, claro, mundial. A saber: o surgimento e consolidação da contracultura, o nascer da juventude como segmento social (e comercial…), a luta pelos direitos civis, o encontro da cultura oriental com a ocidental e, finalmente, a idéia do indivíduo como um ser cosmopolita, em permanente trânsito físico e conceitual.

Para usar um termo bem contemporâneo, dá pra dizer que Ginsberg era o “conector” descrito no Tipping Point do Malcom Gladwell: o sujeito realmente móvel, que tem como superpoder a capacidade de viajar por diferentes estratos da sociedade e assim ir polinizando pensamentos avançados, que ainda não contam não com as condições ideais de se estabelecerem no comportamento médio. Essa ausência de CNTP para a disseminação de causas nunca foi problema para ele. Em cicunstâncias adversas, sua melhor ferramenta era simplesmente atravessar – cantando mantras, destilando poesia inovadora e tocando pratinhos hare krishna – fronteiras políticas, culturais e sociais.

Peter Orlosvky e Ginsberg: amigos, amantes, co-dependentes até o fim.

Ainda assim, para quem tem – ou tinha, como eu – a idéia de um homem cônscio do seu lugar no mundo, certo de suas convicções e livre de quaisquer amarras, o livro é surpreendente. Das suas notas particulares, organizadas ano a ano por Morgan, brota uma pessoa cronicamente insegura e egocêntrica, muitas vezes atormentada a um nível que chega a provocar compaixão. Allen, com o perdão do trocadilho, passou metade da vida sentindo-se um alien e a outra metade tentando convencer o mundo – e a si mesmo – que talvez essa seja a condição humana. Um bando de aliens convivendo no mesmo planeta – que bela imagem.

A batalha por liberdade foi sempre em mão dupla. O vetor que emanava para fora de sua personalidade apontava para políticos, governantes, leis, regras sociais, figuras conservadoras.O vetor que apontava para dentro revolvia suas próprias barreiras internas e seus intermináveis dilemas, que o acompanharam até a morte. É curioso, além de instrutivo, que um dos grandes porta-vozes da liberdade tenha sido, durante toda sua existência, refém da vaidade, do sexo, da carência afetiva, enfim, da necessidade de afirmação que todo ser humano carrega consigo em alguma medida.

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Turminha que se meteu em tremendas confusões em Tangier, Africa, 1961: Peter Orlovsky, Burroughs, Ginsberg, Corso, Paul Bowles e outros serelepes.

Essa conturbada bagagem psíquica serviu também de combustível para realizar não só sua potencialidade criativa, mas também a dos amigos ou daqueles que ele considerava dignos de reconhecimento. Com frequência, Ginsberg abdicou de dinheiro, energia e tempo próprios pra financiar outros poetas e escritores que orbitavam em seu entorno. “Na verdade, todo o fenômeno da Geração Beat poderia ser visto como um grupo de escritores que tinham pouco em comum estilisticamente mas que eram unidos pela amizade com Allen Ginsberg.” diz o autor da biografia. Foi assim até o fim de uma vida marcada pela falta de recursos financeiros, geralmente consequência de inúmeros investimentos em subvenções culturais, aluguéis, drogas, comida e até mesmo propriedades imobiliárias utilizadas por artistas dos mais diversos calibres. Muitos foram os que viveram, mesmo que por um pequeno período, sustentados por Ginsberg.

Ao fim da longa leitura, fica clara a complexidade da história e da personalidade de uma das mais marcantes figuras do século XX. Ginsberg foi um humanista, mas tinha tendências misóginas. Foi ativista social de tons individualistas e dono de uma espiritualidade que andava de mãos dadas com o hedonismo. Abraçou as contradições do regime cubano e do governo sandinista na Nicarágua enquanto combatia o conservadorismo americano. Enfim, ele personificou com maestria todas as incoerências da sociedade do século passado.


Snyder & Ginsberg & 1 flecha vermelha (o antigo TAG) apontando pra alguém que não conheço

A melhor forma de passar a régua na história de Allen Ginsberg talvez seja um pensamento do companheiro Gary Snyder quando viajaram juntos pela India em 1962. Segundo Bill Morgan, “Gary foi esperto o suficiente pra perceber que o mais importante na India era o fato de que mesmo os falsos homens sagrados eram, de fato, sagrados, e havia algo a aprender de cada um deles.”

Corrida-dô

Do Que Estou Falo Quando Eu Falo de Corrida é aquela coletânea de elegantes ensaios em que o escritor japonês Haruki Murakami divaga sobre os meandros do hábito que mantém há mais de 25 anos: correr. O livro tem diversos predicados, mas talvez o mais impressionante seja criar um nexo popularmente acessível para a associação entre exercícios físicos e tarefas intelectuais.

A surpresa começa assim: em pleno 2011, quando se discute largamente preconceitos de raça, vontades sexuais e opção religiosa, o clichê do escritor de vida insalubre reina sólido entre nós. Não sou eu que digo, é o próprio autor num dos ensaios, corroborado pelo fato do livro surgir como exceção, como objeto de curiosidade. Que autoridade tem um romancista para escrever sobre corrida?

Murakami dá suas credenciais: além de correr quase que diariamente, ele costuma participar de uma maratona por ano e ainda inclui alguns triatlos no currículo. Não é, certamente, daquele pelotão de elite e nem quer ser. Embora não despreze os companheiros de esporte nem os eventos de que participa, não é tanto a corrida que o interessa e sim o caminho. Típico de um japonês.

Aprendi com uma shiatsuterapeuta e monja zen que caminho em japonês é DÔ. Daí os termos Judô (caminho suave) e Aikidô (caminho da harmonização da energia), por exemplo. Vem da cultura oriental, acho, a noção de que toda e qualquer atividade pode ser tomada como “caminho”, como um meio de autoconhecimento, de consciência e domínio das sua própria capacidade. Desde tomar chá até jogar flechas em um alvo (e fica aqui a recomendação do excelente A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen), tudo pode ser utilizado como método de investigação da própria mente e da realidade que ela tricota. É aquela história: um caminho que tem por objetivo ser percorrido mais do que levar a algum lugar.

Mas o livro vai bem além da filosofia barata que estou engendrando aqui. Ele é, na verdade, o relato sóbrio e racional de um homem experiente que já escreveu mais de 12 romances (fora os contos, ensaios e traduções) e correu perto de 30 maratonas, uma lista de feitos que o colocaram tempo suficiente em contato consigo mesmo para conhecer seus limites e suas potencialidades, bem como reentrâncias da consciência que a maior parte de nós não costuma visitar.

É aqui que reside o argumento que abre o post: pouco se vê escrito por aí, ainda mais composto de forma tão poética, sobre a sutil conexão entre mente e corpo. O segredo da Murakami é o seguinte: estamos lendo sobre uma experiência de primeira mão cujo resultado é a investigação. A corrida é parte do seu processo de trabalho, uma forma, segundo ele, de lidar com as toxinas da mente que um romancista acessa quando se vale da introspecção profunda como ferramenta de mineração.

Esse, a meu ver, é o aspecto mais bonito do livro. Embora ele fale de mente e fale de corpo, à medida em que avançamos na leitura vai ficando mais difícil dissociar um do outro – assim como a linha de chegada se mescla ao percurso de quem transforma tudo em caminho.

Preguiça

O Gay Talese é um desses caras de quem eu já li várias entrevistas e nenhum livro. Sei da importância, mas não conheço o trabalho. O que talvez não seja um grande problema: tem vários artistas que eu gosto de ler as entrevistas mas não sou muito fã do trabalho.

Enfim, nem era disso que eu queria falar e sim justamente de uma ótima entrevista que ele deu para o site Sul21. Segundo Talese, os jornalistas estão muito preguiçosos porque não querem viver seus assuntos e sim pesquisar sobre eles, perguntar sobre eles. É fácil cair no clichê de botar a culpa na internet, mas é bacana porque ele justamente traça esse comportamento até o início do uso do GRAVADOR para entrevistas. Ou seja, ainda que ele jogue, sim, um pouco da responsabilidade em tecnologias, não chega a incorrer no lugar comum de botar toda a culpa no Google.

Mas se a gente cavocar um pouco mais a superfície da entrevista vai ver uma proposta quase espiritual ou artística para o ofício de jornalista – ou de qualquer pessoa envolvida em comunicação. Viver o assunto e não simplesmente pesquisar à distância sobre ele. O que, obviamente, contraria o ritmo, a velocidade em que vivemos atualmente. Nessa situação, é curioso, levar tempo pra fazer alguma coisa se transforma quase num ato de resistência. Se você por algum motivo não fizer algo pra ontem, está automaticamente militando.

Forma-se um paradoxo (eita palavrinha surrada!): diante do fluxo acelerado, não fazer nada dá trabalho e fazer tudo correndo é sinal de preguiça.