Tapumes

Não sei se vocês notaram, mas os tapumes de obra mudaram de categoria nas nossas vistas. Eles não são mais efêmeros. Eles não vão mais embora. Um vai, aparece três. Eles se transformaram, praticamente, em parte do acervo permanente da cidade.

Intermediários

Meus sogros moram numa fazenda no interior do interior do Rio Grande do Sul. E de todas as ricas experiências que já vivi lá, a que mais me marcou foi assistir (e sentir) uma tempestade chegando, se instalando e indo embora.

Em Porto Alegre, enfurnado no trabalho ou mesmo em casa, a passagem de uma tempestade se manifesta mediada pela estrutura da cidade: alguém liga dizendo que vai se atrasar por causa de um alagamento numa avenida, a luz fluorescente dos escritórios parece se tornar mais clara, as buzinas se acumulam, motoboys chegam ensopados e participantes de reuniões se atrasam mais do que o normal. Mesmo os sinais diretos da tempestade são alterados. O vento é encanado por entre os prédios e assobia diferente. A água se acumula sobre o concreto e faz caminhos inesperados. As descargas de eletricidade, como não conseguem alcançar o chão, chegam pelos pára-raios.

Eu obviamente já tinha vivido a experiência de tempestades na praia ou na montanha (e já uni os dois fazendo rappel sob uma chuva torrencial no Morro da Guarita em Torres). Mas na fazenda é outro papo. O vento não tem onde encanar e são poucas árvores, reunidas em capões distantes, que ele pode balançar. O destino da eletricidade é o solo ou alguma árvore (ou algum incauto…). A noite fora de hora não se anuncia através das luzes da rua que se acendem repentinamente, ela se impõe de uma hora pra outra cobrindo o céu. E em vez da sinfonia urbana de buzinas, vento encanado e água transbordando dos bueiros, o som resultante é bem mais minimalista.

É a água surrando a terra – sem intermediários.