30 Ferramentas para Inovação Social

HelloDIY Apaixonados por esquemas e metodologias, chorai no cantinho. O Nesta, uma ONG britânica focada em incentivo à inovação (com forte atuação na área da economia criativa) lançou no início do ano um compêndio de 30 ferramentas para facilitar processos de inovação em ações sociais,  o Development Impact & You. Em bom português, Impacto de Desenvolvimento & Você. Apesar de ter participado de um evento do Nesta e já ter explorado o site deles, eu ainda não tinha travado contato com essa verdadeira maravilha. O DIY Toolkit mistura ferramentas bastante conhecidas (como a Matriz SWOT, o Business Model Canvas e o Thinking Hats) com outras menos usuais, todas elas já existentes e selecionadas, segundo os organizadores, a partir do estudo de centenas de alternativas testadas na prática. Cada uma delas está devidamente classificada de acordo com seu objetivo, tem seu uso explicado didaticamente em vídeo e, por serem ferramentas visuais, acompanhadas de pranchas em PDF para baixar, imprimir e usar na hora. Tudo gratuitamente. nestatoolkit Há ferramentas para desenvolver planos, para gerar ideias, para organizar informações, para captar informação, para conduzir entrevistas de pesquisa, para testar hipóteses e por aí vai. Além do mais, há uma sessão de background teórico pra quem quiser se aprofundar, e um blog com textos complementares e estudos de caso. Em resumo, são subsídios para incentivar não apenas ações sociais inovadoras, mas também ações sociais estratégicas, ou seja, precedidas por uma reflexão ampla que dê suporte a soluções novas, eficientes e de efeito mais profundo. Você pode visualizar, ler, aprender e baixar o Development Impact & You Kit no próprio site do projeto. A única nota triste disso tudo é que o DIY ainda não está disponível em português. Mas uma vez que o Nesta já esteve presente no Brasil com o treinamento para empreendedores criativos via British Council (e eu estive lá), quem sabe em breve não sai uma versão nacional do kit.

*** Leia também: Jam: uma ferramenta de processo criativo simples e visual.

O que eu aprendi no Treinamento Nesta/British Council para Empreendedores Criativos

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A palavra “criativo” é um grande problema. Em geral, as pessoas associam “criativo” a coisa “loucas”, “diferentes”, “irreverentes”, “fora da casinha”. Instalações de arte contemporânea, games bizarros, utensílios de cozinha inusitados, filmes experimentais, todos são considerados “criativos” enquanto que o planejamento dos produtores culturais, o fluxo de caixa da empresa de games, os relatórios do contador do estúdio de design e a planilha orçamentária da produtora de cinema são “uma encheção de saco”, “um mal necessário”, alienígenas incompreendidos em um planeta no qual todos praticam bullying com a burocracia.

Combinar na prática esses dois mundos, o pragmático com o imaginativo, foi a lição de fundo que eu aprendi no Treinamento Nesta para Empreendedores Criativos que freqüentei semana retrasada aqui em Porto Alegre. Durante 4 dias, eu e outras 19 almas perdidas fomos recebidos gratuitamente na Escola de Design da Unisinos para um excelente workshop promovido pela Secretaria da Cultura do Governo do RS numa parceria com o British Council e o NESTA, este último o responsável pela metodologia e pelo conteúdo do evento.

Assim como eu, todos os outros integrantes do treinamento estão trabalhando em projetos profissionais ligados à economia criativa. Entre as ideias sendo gestadas ou aperfeiçoadas estavam uma iniciativa de microcrédito para artesãos, uma ocupação cultural de um prédio histórico semi-abandonado, uma produtora de vídeos comerciais com abordagem documental, estúdios de animação, um app para o universo da cerveja artesanal, uma marca de moda, uma entidade associativa para marcas de moda, enfim, empreendimentos que são baseados muito mais em capital intelectual do que financeiro ou físico.

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Criado na Inglaterra como parte de um vasto programa de inovação com foco na economia criativa, o objetivo do Treinamento Nesta é submeter os projetos (ou ideias seminais) a uma bateria de exercícios e dinâmicas que permitem construir, revelar ou refinar seus pilares conceituais e operacionais com a ajuda dos companheiros de workshop. Essa metodologia não é novidade para os empreendedores seriais, para os que já vivem imersos na roda viva das aceleradoras, da busca por investidores, dos livros de negócio. Mas se eu fosse me basear na pequena amostragem desse Treinamento, daria pra dizer que 80% dos empreendedores criativos não tem seus projetos totalmente estruturados de maneira que sobrevivam a suas próprias contradições e lacunas – que dirá a fatores externos. A verdade é que mesmo com a disseminação da cultura e do vocabulário médio das startups no Brasil, a noção de modelar um negócio criativo de maneira formal ainda causa calafrios em muitas pessoas que gostam simplesmente de sentar e criar o que quer que seja. Aliás, eu sou uma dessas pessoas.

O que pra mim fez a diferença no caso do Treinamento Nesta foi o Creative Enterprise Tookit, um apanhado de ferramentas para modelagem de negócios que mistura elementos clássicos (como a matriz de análise SWOT) com contemporâneos (como alguns frameworks do criador do Business Model Generation, Alexander Osterwalder) de uma maneira que que não afugenta que não tem grande apreço por planos de negócios tradicionais. O Tookit é disponibilizado gratuitamente para download (em inglês no site do Nesta ou em português diretamente no meu Dropbox) e ele próprio é um passo-a-passo par ser utilizado independente do workshop. Mas trabalhar com o Tookit em grupo, com um orientador treinado, num ambiente sincero de troca e colaboração como foi o treinamento que participei, não tem preço: a interação com o grupo, bem conduzida, forma um caldo grosso de dúvidas e insights que enriquecem todos os projetos, por mais diferentes que sejam seus objetivos ou seus segmentos. Parabéns à treinadora Phily Page, que conseguiu manter a coesão e a energia do grupo em uma curva ascendente ao longo dos 4 cansativos dias de trabalho.

Fica, então, a esperança (e a reivindicação) que a Secretaria da Cultura dê proseguimento a seu programa RS Mais Criativo e promova mais workshops como esse. Dinheiro para projetos não é a única forma de incentivar empreendimentos criativos. Eu arriscaria a dizer que a maior parte deles se beneficiaria mais de um treinamento assim, seguido de um sistema de apoio de gestão, do que exclusivamente de dinheiro. Embora a grana seja sempre bem-vinda (e ajuda financeira é fundamental para a cultura de um país ainda emergente) um processo de  treinamento contínuo desse calibre é mais estruturante – além de estimulante e viral: aqui estou eu falando da metodologia para minha audiência e tenho certeza que meus colegas também se tornaram mutiplicadores dos saberes que adquiriram.

Aliás, antropologicamente falando, não é assim que as culturas evoluem?

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Em abril, o Treinamento Nesta vai acontecer em Recife. As inscrições já estão encerradas.

De qualquer forma, vale explorar o site do Transform, o programa do British Council que trouxe o Treinamento para o Brasil e que está envolvido em uma série de outros projetos de intercâmbio cultural UK-BR.

O site do próprio Nesta é uma fonte de consulta bastante interessante. Eles tem, por exemplo, dezenas de relatórios e pesquisas nas áreas de inovação e economia criativa. Tudo pra download gratuito. Em inglês.