Eles não se entendem

Eu não tenho números aqui, mas acho que todo mundo vai concordar que não existiu outra época na trajetória da humanidade com tantas tecnologias surgindo num espaço tão curto de tempo. Ao menos não tecnologias que se espalhassem com tamanha rapidez pra mão dos grande público e não ficassem restritas a círculos científicos ou determinadas regiões do globo.

Em outras palavras: tá tudo uma loucura né?

Esse fenômeno criou um momento histórico de grandes inovações mas também de um sentimento de ansiedade coletiva por conta do grande número de linguagens tecnológicas que não simplesmente não se conversam. Sim, é a era da conectividade, a era da integração, mas também é a era dos cabos inúteis, dos drivers bipolares, dos técnicos que não resolvem, dos especialistas que tomam bola nas costas de hardware, do discurso dos empreendedores de tecnologia que dificilmente bate com a experiência cotidiana do usuário médio.

A batata quente do diálogo entre os aparelhos que temos em casa está sendo passada de mão em mão e sempre acaba queimando os dedos de quem menos entende do assunto. E dê-lhe cabo pra ligar o laptop na TV, que fica obsoleto quando você muda de laptop; e dê-lhe gaveta de cabos pra conectar o celular com o laptop porque o Bluetooth não funciona direito; e dê-lhe chamada de técnico doméstico pra fazer um simples roteador aceitar a conexão dos computadores da casa; e dê-lhe suor pra transferir dados pra um celular novo; e por aí vai. Isso não é justo com usuários cuja relação com a maior parte dos eletrodomésticos nos últimos 40 anos se resumiu a botões de liga e desliga e um cabo de força.

Às vezes, parece que vai chegar um dia em que todas as tecnologias vão fazer sentido juntas. É o que nos vendem por aí, mas geralmente essa idéia depende de vocês ter TODOS os aparelhos da sua casa da mesma marca (quá quá quá) e mesmo assim não sabemos se o diálogo vai acontecer de fato. Talvez a marca dos nossos tempos seja mesmo viver em um ecossistema tecnológico fragmentado que exige conhecimento específico e intervenção constante.

E não me venham com papinho Apple nos comentários, que o mundo não vai ficar indo atrás do Steve Jobs pra tudo e meu Macbook já me aprontou algumas bem feias.

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Foto: daqui.

Meus amigos do Club Penguin

No post anterior, se você não leu, eu estava comentando sobre um certo bug que deu no meu cérebro quando comecei a ter que classificar meus amigos no Facebook. Depois de escrito, segui pensando no assunto e me lembrei de um caso bem interessante que adiciona um pouco de complexidade ao cenário.

Você conhece o Club Penguin? É uma mistura de MMPORG e rede social da Disney onde você cria um avatar de pinguim e sai por ilhas geladas jogando e interagindo com outros pinguins. Tudo dentro do padrão de segurança Disney para os pais não se preocuparem com possíveis pedófilos ou outros malandros do tipo. Interagir com o Club Penguin depois dos, sei lá, 25 anos, é um case study em si. Uma vez lá dentro (e eu tenho meu próprio pinguim, Mr. Walverde, embora não o use com frequência), você passa a fazer parte de um universo de socialização, diversão e compras. Pra comprar, você precisa de moedas. Pra ganhar moedas, você precisa jogar. Pra jogar, você acaba se engajando com outros pinguins-avatares.

Bimestralmente sai um catálogo com novas roupinhas, acessórios ou móveis para iglu, que você compra com as moedas que ganha fazendo pizzas, deslizando montanha abaixo em corridas na neve ou vencendo o Desafio Ninja. Quanto mais você jogar, mais pode comprar. (Não vou entrar aqui na questão do consumismo. No início achei esquisito a história dos catálogos, depois achei um bom gancho pra educar uma criança a não ficar comprando coisa o tempo todo).

O interessante é como a Disney trata a mídia do Club Penguin. Outro dia, estava assistindo TV com a minha enteada de 9 anos e de repente passou (não lembro em que canal infantil) um comercial sobre uma festa que ia acontecer em uma ilha dentro do ambiente do jogo. E em outra ocasião, um sobre a chegada do novo catálogo do Club Penguin. A interação on/off é simples mas interessantíssima e faz todo o sentido do mundo. A maior parte das crianças pula de uma tela pra outra sem quebra-molas.

Mas o mais legal que eu ia contar aqui é do dia que ajudei minha enteada a fazer o pinguim dela. Logo que você cria o seu avatar, o sistema gera um nome automático alfanumérico, que no caso da Stella foi PSTH1. A primeira coisa que eu lembrei quando vi PSTH1 foi o THX1138 do George Lucas e achei bacana. Mas pensei: “ela não vai querer isso, ela vai querer um nome fofo”. Aí, falei: “bom, depois a gente troca esse nome pra Tobi, Fifi ou Picolino”. E ela retrucou na hora: “Não, não, eu quero assim. Todo mundo na aula tem nome assim”.

Fiquei lá, com cara de bobo depois de tropeçar no generation gap. Nomes alfanuméricos só são frios e lembram filmes esquisitos de ficção científica pra quem tem essas referências. Pra quem mora no Club Penguin, PSTH1 é tão querido e fofinho quando Picolino.

Como diz o Frank Jorge: TÓIM.

Meus amigos do Facebook

No momento em que escrevo esse post, eu tenho exatos mil cento e catorze amigos no Facebook. No meio dessa turma, tem de tudo: gente realmente próxima, gente que eu conheço de vista, gente que eu conheço de email, gente que eu nunca vi na vida e que nunca me viu, gente que me viu (com os Walverdes, em alguma palestra), me leu (no Conector ou em outros sites) ou ouviu (na Oi FM), mas que eu nunca vi, ouvi ou li. Pra quem mexe com música, cultura digital, mídia, essas coisas, é o tipo de configuração normal. Mas acontece que eu ainda não tinha parado pra pensar e olhar com calma o assunto em termos de Facebook, que é onde mantenho alguns canais de comunicação pessoal. Perfil de ferreiro, espeto de pau.

O que pegou pra mim é algo que já é no máximo tangenciado em análises críticas de redes sociais: a nomenclatura de “amigo”. O conceito de amigo é bem debatido, mas a nomenclatura nem tanto. Quem chama essas pessoas de amigo não sou eu, nunca fui eu: é o Facebook, que não me deixa mudar essa configuração (ou eu não achei o botão certo??). Se fosse eu, chamava tudo de contato e deixara a palavra “amigo” pra algumas pessoas especiais.

Uma certa consertada na situação pode rolar com a criação das listas. Pra poder acompanhar o newsfeed dos meus amigos de fato, sentei como quem escolhe feijão e comecei a separar os amigos dos “amigos”. E é aí que a coisa começou a ficar curiosa.

Listar os amigos não é difícil. Ao contrário do Facebook, que chama todo mundo de amigo, eu tenho bem noção de quem são meus amigos. Mas, saindo desse grupo seleto, tive que começar a inventar categorias. Os conhecidos. Os contatos do rock. Os conhecidões (aquelas pessoas de quem você não é amigo, mas seguido encontra e troca uma idéia). Os mais ou menos conhecidos. O pessoal da publicidade. Os totais desconhecidos. Os nadaver. E por aí vai.

Não é que essas classificações não aconteçam, de alguma forma, na minha mente. Sim, elas ocorrem. Mas quando eu preciso criar nomes tão específicos de grupos numa rede social que possa refletir em termos objetivos e quase matemáticos o que sinto por essas pessoas, tudo fica um pouco engraçado. Uma coisa é você entrar numa nova empresa ou fazer parte de uma nova turma e ao longo do tempo ir encontrando seu espaço, suas afinidades, colocando as pessoas em flutuantes prateleiras mentais. Outra, bem diferente, é fazer isso sentado na frente de uma tela, teclando, classificando, encontrando lugares objetivos para cenários totalmente subjetivos em um curto espaço de tempo.

E o mais interessante: não tem saída a curto prazo. Provavelmente vamos fazer isso cada vez mais nos próximos anos, não apenas nas redes sociais, mas em qualquer meio que exija a entrada de nossos dados particulares que tenhamos gerenciar. A lógica de classificação digital ainda é toda baseada em formulários, listas, caixas de diálogos, colunas, tabelas. E esse raciocínio está migrando para nossas interações pessoais. É uma necessidade de protocolos comuns para o bom diálogo entre sistemas que contamina um pouquinho a busca do bom diálogo pelos humanos.

Nada disso é motivo pra coisas como suicídio coletivo. Escrevo mais como um lembrete, uma nota, um post-it, uma passada de marca texto em uma questão que acaba despercebida muitas vezes (a da nomenclatura!). Em outras palavras, é só uma paradinha de dois minutos pra lembrar que é na tentativa de classificar as pessoas que mora a maior parte dos nossos problemas.

Técnicos

Existe uma antiga expressão no futebol que diz que o Brasil é um país com 190 milhões de técnicos de tanto que brasileiro gosta de palpitar. Com a internet, essa expressão extrapolou o âmbito do futebol e o próprio Brasil.

Hoje, como todo mundo pode dar sua opinião na rede sobre qualquer assunto e ainda virar uma autoridade em pequenas comunidades, podemos dizer que a Terra virou um planeta com bilhões de técnicos de futebol, críticos de cinema, entendidos em vinho, comentarista de gastronomia, mestres em segurança público e por aí vai.

A democracia da internet transformou o mundo numa grande mesa de bar. E, como toda mesa de bar, ela está lotada de especialistas.

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Post inspirado num dos programas Minimalismo que eu fiz pra Oi FM.
Pra ver outros textos relacionados ao programa, vá por aqui.

Conteúdo

Os debates em torno do futuro do consumo de conteúdo têm tomado páginas e mais páginas de blogs, portais, jornais e revistas. Todo mundo tá querendo saber se o livro vai terminar, como vamos ler e qual será o formato vencedor. Mas pouca gente está pensando no outro lado da questão: qual vai ser a cara do conteúdo que vai dentro desses dispositivos? O que a gente ler e com que tipo de histórias e informações a gente vai interagir nos novos tablets e e-readers? Quando a poeira da confusão sobre formatos e aparelhos baixar, talvez o que surja é um aparelho vencedor com a tela vazia.

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Post inspirado num dos programas Minimalismo que eu fiz pra Oi FM.
Pra ver outros textos relacionados ao programa, vá por aqui.

Execuções

Meu texto sobre a profusão de pessoas querendo só ter idéias (em contraponto às pessoas a fim de executar idéias dos outros) rendeu algumas discussões interessantes. O post foi replicado no Update or Die e no blog da escola de atividades criativas Perestroika. Nessa última, o Marco Loco, criativo brasileiro morando em Berlim e um dos responsáveis pelo Impossible Goalkeeper da Adidas, questionou vários pontos no meu texto. O Leo, da W3Haus e o Israel da Aquiris entraram na discussão e acaba que tive que estender e revisar algumas das minhas reflexões.

Mas meu ponto continua o mesmo: tem muito preguiçoso a fim de sentar em torno de uma mesa de reuniões e jogar idéias a esmo, sem grandes compromissos com a sua produção. Quando, em torno dessas mesas, se reúnem pessoas sem o pacto da realização (ou com esse pacto balizado por agendas individuais em vez de uma única, coletiva), o sistema todo dá pau.

É chover no molhado dizer o quanto é difícil construir o equilíbrio entre motivações individuais e coletivas no desenvolvimento de um projeto criativo. O que advoguei no texto é que a participação/condução de líderes e empreendedores criativos (não que tenham vindo da área da criação, mas que tenham apreço pelos processos criativos) é fundamental pra criar um ambiente (econômico, físico e psicológico) onde esse tipo de atitude prevaleça.

Existe um outro tipo de atitude necessária no momento atual da publicidade, que é uma certa condescendência com a bagunça. O fail da Chuva de Twix no fim de semana passado e sua repercussão negativa são um exemplo excelente. O primeiro impulso que me veio ao saber do fracasso foi pensar “iiiihhh, os caras não sabem fazer a coisa, meteram os pés pelas mãos”. O segundo pensamento foi: “peraê, olha primeiro pro seu telhado. De que material ele é?” A bagunça do Twix é extremamente saudável porque coloca alguns pingos nos is. Mostra o quanto é difícil realizar ações diferentes e também como as idéias, o dinheiro ou a posição de empresas estabelecidas não necessariamente as protege de fails consideráveis. Estamos todos no mesmo barco.

Agora, depois do fail ocorrido, todo mundo vai ter mil e uma teorias sobre o que deu errado e como deveria ter sido conduzido o trabalho. Certamente a Chuva de Twix vai virar Fail Case em palestras sobre marketing de guerrilha. Mas, diferente de outras vezes onde fui mais ácido em meus pensamentos, eu me solidarizo com quem quer que tenha produzido essa ação. Por mais elementares que tenham sido alguns erros de produção e por mais que eles sejam claros a milhares de manés munidos de muitas “idéias legais” e um teclado de computador, alguém levou adiante essa ação e tentou colocar ela no mundo real, fora das mesas de reuniões. Isso, por si só, já tem mérito.

Quem já produziu uma Chuva de Twix que atire a primeira pedra.

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Leitura complementar: o making of do Impossible Goalkeeper escrito pelo Marco. Foi de onde roubei a imagem do post.