Fantasmas

Até alguns anos atrás, os fantasmas eram figura freqüentes no imaginário popular. As histórias sobre fantasmas e aparições eram parte de conversas entre amigos e familiares. Hoje, as histórias de fantasma contadas em primeira pessoa estão sendo substituídas por algumas poucas reportagens de televisão ou vídeos na internet, geralmente seguidas de investigações pretensamente científicas. Uma pena, porque bem ou mal, antigamente as pessoas conviviam com as aparições enquanto que hoje a nossa cultura procura fazer algo não muito saudável: manter nossos fantasmas distantes de nós.

Como se isso fosse possível.

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Post inspirado num dos programas Minimalismo que eu fiz pra Oi FM.
Pra ver outros textos relacionados ao programa, vá por aqui.

Foto daqui.

The Zen Dude

Olha só que pérola: a revista Tricycle promoveu um bate papo de 40 minutos, dividido em duas partes, entre Jeff Bridges e Bernie Glassman. Bridges, você conhece. Provavelmente pelo sua icônica atuação em O Grande Lebowski, obra dos Irmãos Coen que passou de cult movie a culto de fato. Ou então de aparições recentes em filmes de diferentes intenções como Homem de Ferro, Homens que Encaravam Cabras e Coração Louco, que deu o Oscar ao já famoso “Dude”.

Bernie Glassman, por sua vez, é um personagem, digamos assim, mais de nicho. Aluno de um dos mais importantes mestres zen budistas do Ocidente, Maezumi Roshi, Glassman é considerado uma figura importante na construção do conceito de budismo socialmente engajado nos Estados Unidos. Sua organização, o ZenPeacemakers, desenvolveu modalidades de prática totalmente integradas à vida urbana contemporânea, o que incluiu a criação de negócios socialmente engajados e os inusitados retiros de rua (onde os praticantes passam alguns dias vivendo como e entre moradores de rua).

A conversa, em um tom de descontração que lembra muito o climão Lebowski, começa com a história de como os dois se conheceram, passa pelos projetos sociais de cada um e envereda por interessantes reflexões sobre a semelhança entre práticas meditativas e o processo de atuação. Bridges comenta, inclusive, seus sentimentos ambíguos em relação ao trabalho do ator em filmes que são construídos em sua maior parte na pós-produção, como é o caso de Tron Legacy. Se isso, por um lado, tira o romantismo de vestir a roupa do personagem, substituída por vestes especiais que marcam os pontos da computação gráfica posterior, por outro ele declara calmamente: “é como voltar à infância, quando você brinca e tem que inventar tudo na sua cabeça”. E ainda compara a situação com uma expressão clássica de outro grande mestre zen, Suzuki Roshi: “É a mente de principiante.”

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Uma nota curiosa: interessado em trazer mais substância para a história de Tron Legacy, Bridges convidou Glassman pra participar de algumas reuniões de produção e discutir alguns temas existenciais do ponto de vista do zen budismo. Mas a influência é em duas mãos. Segundo uma outra matéria da Trycicle, do ano passado, Glassman tem na sala dele os três pilares espirituais do ZenPeacemakers com uma tradução em Lebowkês abaixo de cada um:

“Not Knowing, thereby giving up fixed ideas about myself and the universe.
(The Dude is not in)
Bearing Witness to the joy and suffering in the world
(The Dude abides. . .)
Loving Action
Healing myself and others
(Enjoyin’ my coffee)”

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Outra coisa: vale um passeio no site do centro zen budista gaúcho Via Zen. Ali tem o relato de um monge zen gaúcho que está vivendo na Suíça e que participou de um retiro de rua. Também há uma sessão dedicada a uma série de textos e entrevistas em português sobre a conexão Porto Alegre/Brasil-Zenpeacemakers pilotada pelo psiquiatra José Ovídio Waldermar, coordenador do Instituto da Família.

Vida Artificial

Você deve ter lido ou ouvido a gritaria semana retrasada: o geneticista americano Craig Venter “criou vida artificial” ao produzir em laboratório o genoma de uma bactéria e depois fazendo ele funcionar dentro de uma outra bactéria pela primeira vez na história. Com isso, ele estabeleceu as bases de um futuro repleto de possibilidades, não apenas para a biologia mas também para o cinema de ação e os protestos católicos.

Duas coisas me chamaram a atenção no auê todo que se criou em torno desse marco da genética. A primeira é até natural nos tempos em que vivemos: a chamada dos noticiários nos induzia a tomar o potencial do feito pelo feito. A mensagem que ficava, especialmente se você assistia às reportagens da TV, a era a de que um cientista havia de fato criado vida totalmente sintética em laboratório. Só que lá no meio de algumas reportagens de revistas, mas muuuuuito discretamente, vinha alguns esclarecimentos a respeito das limitações do “ato divino”.

Por exemplo, não é que Venter tenha criado os genes de um DNA. Ele na verdade usou genes produzidos por laboratórios especializados nisso, uma atividade que existe desde os anos 70. Em segundo lugar, ele não inventou a sequência do nada, mas replicou a codificação do DNA já existente de uma bactéria. O grande feito de Venter, na verdade, foi conseguir sintetizar essa sequência de forma perfeita e inseri-la em um outro organismo vivo pra que ela funcionasse como DNA, permitindo a replicação celular. Então… bem… não é que não tenha sido um grande movimento pra genética, mas daí pra tingir a história com cores bíblicas é um pouco demais. Vocês vão me desculpar, mas uma coisa é injetar DNA sintético numa bactéria e outra bem diferente é criar vida. E não sou eu que estou dizendo isso.

O segundo ponto que passou meio despercebido no meio do tumulto foi o conceito de vida que está sendo vendido com esse tipo de abordagem. É verdade que até hoje pouca gente veio com respostas práticas satisfatórias, mas pensa bem: desde quando “vida” se resume à organização de ácidos? Como assim um cientista criou vida artificial mexendo uns genominhas? Empresas burocratas vem criando vida artificial há muitas décadas e com muito sucesso!

Não é preciso acreditar em alma ou em Deus pra questionar o conceito utilitarista de “vida” que se passa adiante quando se divulga a sintetização de DNA dessa forma. O conceito de vida é algo muito mais amplo e complexo e se, não fosse assim, o mundo seria muito mais livre de complicações, bem como de poesia e arte. Todo mundo querendo fugir de vida sintética, vida copiada, e o cara se vangloria de criar vida sintética… vai entender…

Não sei quantas pessoas realmente param pra pensar no peso que tem a palavra “vida” quando vem agregada de tanto papo científico. Não que a vida não tenha seu lado científico, matemático, biológico e genético. Mas se a gente vai deixar essa visão dominar o conceito de vida, vamos arrumar ainda mais complicação no lado não genético, não biológico, não matemático dela. Entende?

Bom, eu sei que acabei levando a conversa pra outro lado. Mas é isso aí, genética. Bem vinda ao papo de boteco. Daqui pra frente é só ladeira abaixo. Mas não se assuste. Qualquer dúvida, converse com o futebol. Ele tem décadas de prática pra instruir você em como se portar nessa nova situação.

Telas fixas, telas móveis, telas coletivas, telas íntimas

Semana retrasada, recebi na agência uma pessoa que estava fazendo uma pesquisa para a Unisinos sobre TV Digital. Não é um assunto que eu domine de cima a baixo (como todos os outros, na verdade). Mas, durante a nossa conversa, aconteceu o que sempre acontece comigo em entrevistas e debates: eu começo a falar coisas que nem sabia que pensava. As sinapses vão acontecendo à minha revelia, as informações se juntam e eu fico morrendo de vontade de correr pra cá e escrever.

Aqui estou.

Nesse caso específico, a pesquisadora me perguntou sobre os formatos de publicidade em TV Digital e eu me lembrei do comentário de um engenheiro da Rede Globo em uma palestra 2 anos atrás (escrevi bastante sobre isso aqui e aqui), quando ele falou do maior receio da emissora a respeito de comerciais interativos. Em linhas gerais, ele disse que pra uma TV com as audiências do porte da Globo era preciso ter cuidado com os comerciais interativos, porque se o telespectador começa a interagir com o primeiro comercial do break, corre-se o risco dele não ver os comerciais seguintes e, ainda mais, que ele se perca por outros caminhos na navegação, esquecendo o programa que estava assistindo.

É, amigo…

Na época, embora eu não compartilhasse de tamanho medo já que não sou dono de nenhum conglomerado, achei até uma preocupação lógica. Mas, claro, é porque não dei o devido tempo pra pensar o assunto. Esse é bem o tipo de medo que não faz o MENOR sentido uma vez que ele se baseia na idéia de que os formatos de publicidade da TV digital (no que diz respeito à interatividade) vão ser idênticos aos formatos da TV analógica. Nesse caso, está se falando, AINDA, na chamada publicidade interruptiva (aquela que é esmagada entre pedaços do conteúdo que o consumidor quer efetivamente ver), um conceito estabelecido e ainda vencedor pra gerar faturamento mas bastante controverso no que diz respeito à interação com conteúdos digitais. Lembra do pop-up? Conhece as taxas de interação com banners? Pois é.

No caso colocado pelo engenheiro da Globo, ter medo de perder audiência por causa de comerciais interativos é desprezar todas as outras formas de interação com conteúdo que vão acontecer com as telas coletivas (TVs, monitores, displays públicos). Um programa de televisão digital, diferente de um programa de TV analógica, nunca vai morar dentro de um cercadinho. Ele naturalmente vai ter vias paralelas de acesso a outros conteúdos, sejam eles comerciais ou não. A era da coerção por “inércia do sofá” está com os dias contados. Veja bem, não estou falando do fim da inércia (conteúdo ruim e público zumbi sempre vai existir), mas sim do fim do cercadinho físico e técnico da TV analógica, que mantém sua audiência em frente à TV com uma mistura de conteúdo de massa (de boa qualidade em algumas ocasiões), limitações dessa tecnologia e indolência do seu público.

Terreno lodoso, não? A questão não envolve apenas as grandes redes de televisão nacionais e suas tecnologias, mas precisa incluir também toda e qualquer pequena mudança cultural provocada pela criação, distribuição e consumo de conteúdo digital. Não é possível falar de TV Digital como um aparelho ou como um sistema isolado de distribuição de conteúdo. É preciso olhar pra todo o conjunto de práticas sociais que está se modificando no país.

Por exemplo: a chegada das telas íntimas.

Durante décadas, nossa relação de intimidade com o aparelho TV foi relegada a situações de exceção. O aparelho de TV nasceu como um objeto eminentemente social. Primeiro, se assistia TV com os vizinhos. Depois, durante muitos anos, em família ou com os amigos. Assistir um grande número de horas de TV sozinho é um hábito muito recente, que em termos de consumo de massa talvez tenha dez ou quinze anos, no máximo vinte. Que é o período de tempo em que a economia brasileira permitiu a famílias de classe mais baixa ter mais do que uma TV em casa, ou seja, colocar TVs em espaços íntimos.

O fato é: nunca fomos íntimos das telas. Durante décadas, as crianças ouviam: “fique longe da tela, a radiação faz mal!” “Não bota a mão na tela, suja tudo”. Como é nossa vida agora? Vivemos a 40 cm da tela dos nosso computadores e notebooks, vivemos debruçados em telinhas de celular e estamos sendo convidados a meter o dedo em telas de todos os tamanhos pra interagir com os conteúdos. É o tipo de mudança de paradigma que bagunça totalmente a cultura de um país calcado na televisão de massa. É outra história. É outro bicho. É fascinante, não é?

A intimidade com a tela é pressuposto básico do consumo de conteúdos digitais. A estabilização da economia colocou TVs em város cômodos, computadores em 35% dos domicílios (números de 2009) e um celular na mão de praticamente todo mundo. O conteúdo que absorvemos e com o qual interagimos passa, em maior ou menos escala de eficiência, por todas essas categorias de telas. O paredão do BBB da terça vira trending topic no Twitter e é motivo de intensa comunicação via SMS e MSN ao longo da madrugada e no dia seguinte. O conteúdo hoje é como as novas gerações: neutro de formato. Ele não quer saber por onde vai caminhar. Ele VAI caminhar. E a gente vai acompanhar essa caminhada via o mosaico de telas com o quais convivemos. Veja você, que coisa mais anos 80: nossa vida virou um grande videowall…

Nesse contexto, não podemos mais classificar a forma de interação com o conteúdo falando de TV, computador e celular, uma vez que os papéis desses aparelhos estão sendo inegavelmente borrados. Talvez faça mais sentido falar no seguinte: telas fixas, telas móveis, telas íntimas e telas coletivas.

Classificando essa coisarada toda do ponto de vista de mobilidade, temos:

Telas fixas: o aparelho de televisão que fica lá na estante de casa; o monitor do computador; o monitores em locais públicos (para publicidade e informação em prédios, lojas, restaurantes, aeroportos e outros locais de serviço).

Telas móveis: o celular, o notebook, os tablets e e-readers, os mp3/4 players, os games portáveis, as telas digitais em ônibus, etc.

Do ponto de vista de proximidade de uso:

Telas íntimas: o celular, os tablets e e-readers, o notebook (de vez em quando), os mp3/4 players, os games portáteis, etc.

Telas coletivas: os monitores em locais públicos (aeroportos, lojas, etc), o aparelho de televisão da sala de casa, telas de computadores de família, telas de computadores de lan houses e escolas, etc.

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Essa classificação (como todas classificações) não é perfeita. É preciso levar em consideração o lugar dos aparelhos e o tipo de usuário. Um aparelho de televisão no quarto de um apaixonado por games é uma tela íntima. Um celular em uma periferia de um país africano pode ser uma tela coletiva. Um tablet usado para um jogo entre amigos pode transformar uma tela íntima em coletiva durante algumas horas. Não é possível classificar definitivamente os aparelhos do ponto de vista dos aparelhos. Mas dá pra tentar por aproximação e pela maior frequência de tipo de uso.

Então, voltando ao início. Se quisermos compreender os futuros formatos de TV digital, vamos ter que esquecer uma boa parte do que aprendemos com a TV e lembrar que ela não é mais UMA tela com UM tipo de comportamento em frente a ela. Em alguns casos, a TV vai se comportar no âmbito da tela móvel, sendo acessada de telefones celulares ou notebooks. Em outros, ela vai se comportar como uma tela coletiva, caso esteja sendo consumida em um aparelho de grande porte pra uso em grupo. No caso do uso em tela coletiva, a comunicação one-to-one vendida em muitas interações digitais vai pro saco. Quem quer ligar a TV da sala com suas preferências registradas em algum tipo de cookie se tem o hábito de assistir programas pornográficos?

Provavelmente, viveremos um bom tempo de transição tosca, como a que estamos vivendo nos sites de compartilhamento de vídeo. Os velhos formatos interruptivos (links dentro do vídeo, banner transparente sobre o vídeo) ou coercivos (comerciais que precisam ser assistidos pra liberar o conteúdo) vão conviver com as frequentes tentativas de branded content (atrações com conteúdo patrocinado e ligados a marcas). Também certamente veremos a escalada do product placement (aqui chamado de merchandising) e, no caso de vingar o video-on-demand na TV aberta digital brasileira, algum tipo de patrocínio de marca pra conteúdo sob demanda. Publicidade é publicidade. E sempre vai ser publicidade, não importa os disfarces que ela use.

Mas, como eu disse pra moça da Unisinos, vocês não deviam confiar em mim. Deviam perguntar ao William que estudou isso na Inglaterra, país onde essa discussão está bem mais avançada.

Crooked Cucumber

Shunryu Suzuki foi um mestre budista da tradição Soto Zen enviado de uma área rural do Japão pra San Francisco, nos EUA, em 1959. Sua missão: ministrar alguns poucos rituais semanais e tomar conta dos funerais e casamentos de uma congregação de imigrantes japoneses . Ou seja, o cardápio básico da atividade na maior parte dos templos e congregações da época.

Mas, veja bem, estamos falando de 1959 e da cidade de San Francisco. Nessa época, o budismo começava a extrapolar as tradições imigrantes nos Estados Unidos, especialmente através de intelectuais universitários e escritores beat. Um ano antes, Jack Kerouac publicou seu segundo romance, Os Vagabundos do Dharma, no qual o poeta (e em seguida mestre zen budista) Gary Snyder aparecia como figura central da história, com uma retórica marcada pela filosofia oriental. O também poeta beat Allen Ginsberg aproximava seu texto e sua vida do budismo tibetano. E isso era apenas a ponta do tal do iceberg. Ali, a cidade já cozinhava a mudança cultural que viria marcar sua história, efetivando a transição da geração beat, acelerada, urbana, insone e ácida, para os hippies e sua batida lisérgica, mágica e transcedental.

A busca pela quebra de hierarquias conceituais e sociais, bem como a luta pelas liberdades civis, davam o tom da juventude daquela era. Pra uma audiência esfomeada por ideais, os ensinamentos do Buda sobre liberdade formavam um exótico e atraente banquete. Mas a congregação de imigrantes que Suzuki Roshi deveria liderar não compartilhava dessa efusividade. Sendo assim, um ponto de tensão instalou-se rapidamente no Soko-ji. Até então o único templo zen budista da região, o Soko-ji também mostrou-se pequeno demais pra acomodar a) uma comunidade sinceramente mais interessada em tradições do que na luta contra elas b) uma turma de jovens americanos de classe média buscando liberdade de padrões.

Essa tensão é o ponto central de Crooked Cucumber (47 moedas na Cultura!), biografia de Suzuki Roshi escrita com um bom humor e uma riqueza de relatos impressionantes pelo seu aluno David Chadwick. Nem de perto essa tensão é o único atrativo do livro, muito embora eu, garoto ingênuo, achasse que sim. Confesso, como vou mentir sobre isso?, que abri o livro em busca da história rocambolesca de um velhinho oriental e sua trajetória em meio à efervescência da cena beat. Mas encontrei muito, muito mais. A vida de Suzuki Roshi, como a dos grandes mestres e praticantes espirituais, desafia o conceito hollywoodiano de aventura que está encrustrado na minha mente.

Na verdade, pelo menos metade do livro explora a infância, a adolescência e parte da vida adulta do Suzuki Roshi no Japão, contando seu treinamento monástico, seu histórico familar e as imensas dificuldades de ser um líder religioso em um país conturbado. O mito do mestre zen que vive isolado em um cotidiano tranquilo e sem sobressaltos é sumariamente desfeito, página após página. Pra deixar mais claro: o cara comeu o pão que o diabo amassou, enfrentando a burocracia e o conservadorismo do sistema religioso da época no Japão, as dificuldades inerentes de um país em guerra, os desafios de ser chefe de família e líder religioso simultaneamente e, o mais impressionante, encarou uma série de eventos trágicos na sua família ou entre seus alunos alunos que transformaria a maior parte de nós em pessoas amargas e desesperançosas, duas palavras que não passam nem perto de refletir o espírito de Crooked Cucumber.

A partir da chegada nos Estados Unidos, o livro fica mais familiar – surge o contexto cultural americano e californiano da época – mas não menos surpreendente. No início, são poucos alunos ocidentais dividindo espaço com a congregação de imigrantes. As diferenças culturais são claras, mas as atividades não são tão intensas a ponto de causar uma cisão. Com o passar de algum tempo, entretanto, a disposição crescente de alguns dedicados jovens americanos para sentar e meditar contrasta de forma desconfortável com os rituais mais tradicionais dos imigrantes. Assim, as diferenças se acirram, Suzuki Roshi é chamado a fazer uma escolha e a preferência pela meditação como caminho escolhe por ele: sua nova casa é um grupo de jovens praticantes ocidentais leigos dispostos a entregar-se a uma exigente prática que no Japão era exclusiva de monges.

A partir daí, é tudo como um recomeço. Um eterno recomeço. Uma nova comunidade em uma nova cultura com novos desafios. O fato de ter encontrado alunos dedicados à sua visão de prática espiritual não quer dizer que o caminho tenha sido menos pedregoso para Suzuki Roshi.

O mais incrível, nessa biografia cheia de histórias curiosas e pitorescas, não é o que nos faz diferentes do seu protagonista, mas tudo aquilo que nos liga a ele, que nos faz parecido com ele. E isso é uma coisa bonita, porque justamente uma das crenças básicas do budismo é que todos – todos mesmo, budistas ou não budistas, amáveis ou violentos- temos a capacidade inata de despertar, de alcançar a liberdade de identidades e visões estreitas. Como nós, Suzuki Roshi veio, nasceu, cresceu, passou por dores comuns à raça humana, errou e acertou, foi criticado, foi elogiado, enfrentou obstáculos que vão de guerras a problemas domésticos. Por isso, o livro é rico. É uma biografia, mas também são ensinamentos vivos. Mostra o lado misterioso e insondável do mestre bem como seus aspectos mais humanos – os detalhes em dourado e as rachaduras.

Como é comum na tradição do zen budismo, Crooked Cucumber traz mais de 400 páginas que poderiam tranquilamente ser traduzidas em uma frase:

“Nem sempre assim”.

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Alguns toques finais ao post.

A tradição Soto Zen, de Suzuki Roshi, tem centros de prática, templos e professores reconhecidos no Brasi. Mesmo não-budistas devem ser familiares com a figura da Monja Coen. O site da comunidade Soto Zen no Brasil é o Zendo Brasil.

Aqui na região de Porto Alegre, conheço bem o trabalho do Via Zen e um pouco do Zen Vale dos Sinos.

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Ano passado, publiquei meia dúzia de posts sobre biografias de praticantes budistas, um tipo de leitura que tem me feito muito bem no sentido de aprender com o exemplo, com a sabedoria viva de quem confronta os ensinamentos do Buda com questões eminentemente práticas e cotidianas. Já escrevi aqui sobre os relatos de vida de Issan Dorsey (ordenado na linhagem de Suzuki Roshi), sobre as idéias do Fleet Maull, sobre o livro do Jack Kornfeld que conta o lado b da espiritualidade, sobre as histórias de um ex-monge na India, de um chef-mestre-zen (outro da linhagem de Roshi) e também comentei a biografia e o documentário sobre a monja Tenzin Palmo.

Postos

Os postos de gasolina são lugares marcantes na cultura contemporânea. Primeiro, nos reunimos em torno deles pra abastecer e fazer a manutenção dos nossos veículos. Depois, começamos a passar por lá também pra ouvir música alto, tomar cerveja, comer porcaria, comprar remédios ou alugar filmes.

É irônico, interessante e talvez meio triste que tudo que encontremos nos postos de gasolina hoje possa ser classificado de combustível. E como tudo está mudando com rapidez, fica aí uma questão interessante: o que será considerado combustível pra nós nos próximos dez, vinte ou cinqüenta anos? Respostas no posto de gasolina mais próximo.

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Texto inspirado num dos programetes “Minimalismo” que eu faço pra Oi FM.
Pra ver todos os textos, vá por aqui.

Quer se dar bem em publicidade? Então NÃO tenha idéias.

É isso mesmo. Ao longo das últimas décadas, venderam o negócio da publicidade pra estudantes e novos profissionais como um lugar onde é obrigatório e fundamental ter idéias, boas idéias, muitas idéias. Bem, amigos, acho que é hora de mudar essa diretriz.

Após tanto tempo batendo nessa tecla, o resultado é que agora, efetivamente, os corredores, mesas e salas de reuniões de agências e produtoras das diversas especialidades do marketing estão ABARROTADAS de gente com idéias. Muitas idéias. Inclusive muitas boas idéias.

(Ok, o pessoal sempre também traz a prima das idéias, a “opinião”, mas isso é assunto pra outro post).

Você aí, que trabalha nesse meio: já participou de alguma reunião em que faltassem idéias? Duvido muito. Em toda reunião com mais de dois seres humanos, sempre saltam idéias, especialmente de pessoas pouco envolvidas com a questão. As reuniões são o nascedouro de muitas idéias. Uma pessoa tem uma idéia. As outras ficam em polvorosa e também querem ter as suas. Uma a uma, as idéias vão sendo geradas e preenchem a sala até o teto. Se não há um braço forte, nenhuma delas vê a luz do dia. Porque não existe registro na história da humanidade de qualquer idéia, por mais genial que seja, que tenha sido colocada em prática durante uma reunião. É depois, em outras condições de temperatura e pressão, que as idéias de fato acontecem.

Não bastasse isso, a internet ainda mostrou pro mundo como é comum ter idéias. E boas idéias. É um catatau de gente que hoje escreve, fotografa, desenha, programa e filma suas idéias. E depois posta em algum lugar. E conta para os amigos, e os amigos dos amigos, e os amigos dos amigos dos amigos, que teve essas idéias. Algumas modestas. Outras bacaninhas. Mas umas quantas muito, muito legais. Em uma média que rivaliza com a maior parte das agências de publicidade, que investem milhões de dólares em profissionais e estruturas criados pra ter… idéias.

Ter idéias, queiramos ou não, já não é mais diferencial pra ninguém. É preciso ser muito cínico ou preso ao passado pra não aceitar essa nova realidade. E, como reza uma antiga regra econômica, a abundância de um elemento gera automaticamente a carência do seu oposto correspondente. No caso das idéias, qual seria o oposto correspondente? Não, não é o pensamento burocrático e clichê, mas a capacidade de botar idéias em prática. A abundância de gente tendo idéias está gerando uma grave carência de gente disposta a ouvir e ajudar a levar adiante a idéia de outras pessoas. Se não na área de software livre e nos coletivos artísticos, ao menos em publicidade, isso parece estar acontecendo.

Tudo bem. Eu sou o primeiro a defender o atual modelo de criador-produtor, do cara que tem idéia e coloca a mão na massa pra vê-la nascer. Mas também faço questão de levantar a voz contra o desequilíbrio ecológico que está acontecendo no famoso “campo das idéias”. Nada me tira da cabeça que, hoje, se dar bem no mundo da comunicação não quer mais dizer ser uma pessoa cheia de boas idéias, mas está mais relacionado a ser capaz de ajudar a botar de pé as idéias dos outros. Ou, para irmos mais longe na hierarquia, construir e gerir estruturas nas quais boas idéias sejam levadas adiante.

Eu não sou nenhum guru do markerting, nem ganho rios de dinheiro ou montei alguma hotshop super cotada de forma que possa comprovar na prática minha tese. Mas mesmo assim, tenho minhas experiências práticas e tambémacho que não custa nada perguntar: você acha mesmo que o Steve Jobs criou e desenhou o iPad?