Tem um tibetano pichando/grafitando Porto Alegre?

ume2

Desde o ano passado, diversas paredes em Porto Alegre tem amanhecido com esses incríveis caracteres…

ume1

… que lembram muito a escrita tibetana, em especial o traço chamado “ume”, olha só:

image14

Não sei quem é o autor, mas certamente é o mesmo cara (ou menina) que há mais tempo vem marcando a cidade com esse símbolo bacana:

ume3

Alguém sabe quem é?

***

A imagem da caligrafia tibetana em ume veio daqui.

 

 

Diários de Bicicleta: a cidade ainda mais cidade.

06-11-07_1411

Novos hábitos culturais costumam progredir à base de imaginários exagerados. Assim como o vegetarianismo, a espiritualidade new age e a sustentabilidade, a bicicleta como meio de transporte urbano costuma levar na garupa uma carga de ideias progressistas disformes que são úteis para inspirar as pessoas mas que também são reféns de associações distorcidas. Uma conexão comum que se faz é entre a pedalada na cidade e uma suposta experiência mais natural e humana, uma coisa assim, “trocar o carro pela bicicleta de vez em quando me coloca mais em contato com as pessoas e com o meio ambiente”. Mas o que ocorre, muitas vezes, é exatamente o contrário: de bicicleta, a cidade se torna radicalmente cidade, intensamente metropolitana. Humana, sim, mas de um jeito um pouco enviesado.

Tudo aquilo que hoje usamos para caracterizar uma metrópole – engarrafamento, expansão imobiliária desfigurante, poluição do ar e da água, decadência de equipamentos públicos, impaciência crônica, insegurança pública – em cima de uma bicicleta é experimentado de maneira amplificada. Embora o pedestre convicto e o usuário do transporte público também enfrentem essas dificuldades, quando estamos em estado de ciclista elas se tornam mais proeminentes pela peculiaridade dos trajetos e da velocidade do deslocamento, como já comentei em outro post dessa série.

Semana passada, peguei a ciclovia da Avenida Ipiranga numa sexta-feira às sete da noite. Era um final de dia agradável do ponto de vista dos elementos. O céu estava claro, sem nuvens e a temperatura estava amena. Essa avenida, uma das mais importantes de Porto Alegre, margeia um arroio que corta uma dúzia de bairros no sentido nascente-poente. Portanto, eu pedalava sem suar em direção a um aprazível pôr-do-sol, ladeado aqui e ali por algumas árvores respeitáveis, cruzando com outros ciclistas e com pedestres que faziam seu exerciciozinho vespertino. O cenário descrito beira o bucólico, mas a faixa de prazer dessa configuração era estreita. À minha direita, o trânsito conflagrado da Ipiranga rugia furiosamente à base de motores, buzinas, marcha lenta e freadas bruscas. À minha esquerda, o arroio Dilúvio corria entediado, levando para o Guaíba a água marrom, malcheirosa e cheia de lixo flutuante. Embaixo das pontes, os sem teto conversavam, fumavam, faziam seus arranjos. Nas guardas do arroio, as pixações convocavam a revolução. A cidade se manifestava em sua totalidade transbordante, com cheiros, sons e visuais eminentemente urbanos, cinzentos, rudes.

Ali, a bicicleta me colocou, sim, em contato com a natureza. Mas com a natureza humana na sua forma mais inteira, com a poesia e o concreto, com o pacote completo. Mais especificamente, respirei um pouco mais de perto o resultado desajeitado da nossa busca por conforto e proteção, uma ação que sempre produz efeitos contraditórios em relação ao objetivo inicial, seja na escala mais íntima do indivíduo, seja no projeto hiper-coletivo da cidade.

***

Leia todos os posts da série Diários de Bicicleta aqui.

Documentário sobre o jornal Boca de Rua

O Boca de Rua, aqui de Porto Alegre, é o único jornal do Brasil escrito e fotografado inteiramente por moradores de rua. Ultimamente não tenho esbarrado nos vendedores, mas costumava comprar com frequência – mesmo quando eu suspeitava da procedência de um exemplar específico – e não só por filantropia: o conteúdo é bem feito e assustadoramente revelador de uma realidade invisível, como eles mesmos dizem.

O vídeo acima é um documentário de 10 minutos escrito e dirigido pelo caxiense Marcelo Andrighetti que dá um gostinho da vida por trás do Boca. A história é mais rica do que 10 minutos podem conter, mas já vale pelo registro e por dar mais um pouco de voz a um grupo que vem lutando com uma arma tão bacana para ser ouvido.

Quem for de São Paulo e quiser conferir em tela grande, o documentário vai passar no Mostra Rumos Cinema e Vídeo neste sábado.

Diários de Bicicleta: Ramilongando

46c355b6eaaaf824c8a0c69bfb70176b2ea61423_m

Num domingo de manhã, calor ameno em Porto Alegre, acordei e fui dar uma volta de bicicleta. Por ser fevereiro e muito, muito cedo, me dei ao direito de fazer algo não muito recomendável, que é enfiar fones nos ouvidos e transformar o passeio em um vídeo do YouTube ao vivo, gravado em primeira pessoa. Com as ruas praticamente desertas, mais parecendo locação de filme de zumbis, não houve grandes problemas, pelo contrário. Os zumbis de domingo de manhã em geral são inofensivos, ou estão paramentados para correr muitos quilômetros atrás de suas próprias metas ou estão bêbados demais para se mover.

Logo que saí do prédio, botei pra tocar o álbum “Ramilonga“, do Vitor Ramil. Nada menos esportivo, nada mais constrastante. O verão forte já se insinuando pelas frestas da manhã, eu descendo a Nilópolis acelerado e Vítor mandando ver sobre um violão gaudério e uma cama de cítara:

Chove na tarde fria de Porto Alegre
Trago sozinho o verde do chimarrão
Olho o cotidiano, sei que vou embora
Nunca mais, nunca mais

No embalo, desaguo na Protásio Alves, tão deserta quanto as entranhas de Petrópolis. A paisagem, como sempre, muda. Os prédios residenciais dão lugar à sequência de estabelecimentos comerciais e ao corredor de ônibus. As cortinas de ferro se enfileiram, um ou outro pedestre caminha em direção ao Parque da Redenção, o sol ainda não deu as caras em definitivo. E segue a milonga de Ramil.


Chega em ondas a música da cidade
Também eu me transformo numa canção
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

O viaduto da Silva Só me sobrevoa e a partir daí, ladeado pelo Hospital de Clínicas, já vislumbro as árvores a Redenção. Com o fluxo de trânsito ainda pingando, é possível cruzar a Osvaldo Aranha em qualquer ponto, não preciso dar satisfações a sinaleiras ou canteiros.

Sobrevôo os telhados da Bela Vista
Na Chácara das Pedras vou me perder
Noites no Rio Branco, tardes no Bom Fim
Nunca mais, nunca mais

Ouvindo o conselho de Vitor, Bom Fim nunca mais, deixo a Redenção de lado e invisto na Venâncio Aires rumando para o Gasômetro. Pelo menos 15 anos antes, nessa mesma avenida, eu costumava caminhar seis ou sete quarteirões pra pegar o ônibus até um dos meus primeiros empregos. Ia na direção contrária, literalmente, na época com um walkman e uma fita tocando Crooked Rain, Crooked Rain do Pavement. Quantas vezes não peguei o sol saindo por trás dos prédios da Cidade Baixa ouvindo Silent Kit? Era uma pequena benção.

O trânsito em transe intenso antecipa a noite
Riscando estrelas no bronze do temporal
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Trânsito nenhum me hipnotiza na Perimetral. Em velocidade, passo por Copacabana, o restaurante, e pedalo ritmadamente num asfalto colaborativo para com os ciclistas, excelente para pedalar, não tão bom para o escoamento das chuvas, que preferem a permeabilidade dos paralelepípedos. Certas estão elas, me identifico com essa necessidade e acelero para cruzar logo o prédio do Instituto da Previdência do Estado, que financiou minhas idas ao médico desde pequeno. Para filho de funcionário público do Estado, o IPE é uma instituição com um certo tom de divindade – conceitos que uma criança cultiva…

O tango dos guarda-chuvas na Praça XV
Confere elegância ao passo da multidão
Triste lambe-lambe, aquém e além do tempo
Nunca mais, nunca mais

Finalmente chego à beira do Guaíba, com mais movimento que o resto da cidade. A Beira-Rio, fechada para carros, está povoada de idades extremas: a essa hora, ela é dos velhos e das crianças. Claro, os paramentados para corrida também estão lá, mas, ei, não vamos estragar a poesia com o Nike Plus.

Do alto da torre a água do rio é limpa
Guaíba deserto, barcos que não estão
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Desço da bicleta para olhar o rio. Botam a culpa no muro da Mauá e no poder público, dizem que eles nos fazem dar as costas para o Rio. Mas não é verdade. As costas são nossas, nós damos pra quem quisermos. Temos a liberdade de dar as costas pra cidade, mas somo tão apegados à bagunça que preferimos dar as costas pra serenidade do Guaíba. O desprezo é tanto que nos apaixonamos coletivamente pelo Pôr-do-Sol e esquecemos da água. Por não ser azul, por ser barrenta, a desconsideramos: preconceito de cor.

Ruas molhadas, ruas da flor lilás
Ruas de um anarquista noturno
Ruas do Armando, ruas do Quintana
Nunca mais, nunca mais

Penso isso tudo sentado num banco com a bicicleta deitada à minha frente, preguiçosa, olhando o Rio. Senta-se ao meu lado uma senhora, cerca de 60 anos, talvez um pouco mais. Pergunta se pode me contar algo valioso, digo que sim. Diz, então, que o filho de vinte e poucos vagou muitos anos depois do fim do colégio. Viajou por aí, solto. Retornou, começou faculdade, trancou e viajou de novo. Dá pra sentir na voz dela a aflição de mãe ao ver o filho sem eixo, ao menos um que ela não consiga perceber. Mas, como tudo tem conserto, diz ela, uma hora o menino se ajeitou, voltou pra faculdade e ano passado concluiu o curso. O que daria uma grande alegria a ela: a formatura! Ela havia juntado dinheiro em segredo durante anos pra formatura!

Do Alto da Bronze eu vou pra Cidade Baixa
Depois as estradas, praias e morros
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Quando é a formatura, ela perguntou pra ele. Depois de amanhã, mãe. Mas como assim? Assim, mãe, formatura de gabinete. Ela ficou arrasada, frustrada. O que ia fazer com o dinheiro? Comprar uma TV? E com o sonho de ver o filho equipado, filmado, fotografado, diplomado no palco? Enfim, de qualquer forma, lá foi ela para o gabinete, se arrastando, aceitando as migalhas de glamour. Mas, durante a curta cerimônia, percebeu uma luz diferente no gabinete. Eram os olhos dos formandos. Ela viu ali a alegria genuína da conclusão de uma etapa. Meu filho estava feliz e isso era a única coisa que interessava. Aquilo foi o suficiente, aquilo preencheu o mundo. Isso é o que uma mãe mais quer, ver o filho feliz. Ele estava feliz, então pronto! Ela contou isso com brilho nos olhos também, como se ela tivesse se formado. E queria me contar mais coisas. E começou a falar da rotina da casa e da relação dela com o Facebook, ainda estava aprendendo, autodidata de Face. Uma solitária em família. E não parava mais e eu não conseguia ir embora.

Vaga visão viajo e antevejo a inveja
De quem descobrir a forma com que me fui
Ares de milonga sobre Porto Alegre
Nada mais, nada mais

Uma hora tive que cortar ela, pegar a bicicleta e sair. Tenho filho pequeno em casa me esperando, disse. Café da manhã em família. Tenho que ir. Subi e saí pedalando de volta. Havia muito o que pensar, tantas coisas edificantes, aquele pequeno pedaço de filme dos Irmãos Coen na minha manhã de domingo! Mas eu só consegui pensar uma coisa bem prosaica: essa gente toda, como eu, que tem blog e Facebook, onde nós colocaríamos tudo isso se não pudéssemos escoar aqui? Nós certamente sentaríamos na beira do rio e puxaríamos papo com o primeiro que chegasse. Me senti um pouco pobre de ideias e de empatia. Tanta coisa que eu podia desejar à essa senhora e eu só consegui desejar um blog.

Nada mais, nada mais

***

Imagens: daqui, daqui e daqui.

Carol Bensimon: vida e morte das cidades brasileiras

2013-03-24 13.19.07

Atenção povo que se preocupa com os rumos da sua cidade: a escritora Carol Bensimon produziu recentemente uma pequena pérola que serve de manifesto pra quem acha que a especulação imobiliária está deixando nossas ruas menos humanas, menos agradáveis e menos interessante. Na verdade, são dois textos que saíram no Caderno de Cultura da Zero Hora (parabéns ao editor) mas que deveriam estar nas primeiras páginas do jornal – de preferência antes dos anúncios de construtoras.

Em “Crescimento desordenado de Porto Alegre acabou criando sensação de desconforto” e em Pelas ruas da cidade, a Carol reuniu alguns dos principais argumentos de urbanistas e filósofos para contrapôr a lógica da atual expansão imobiliária, que na verdade não tem realmente uma lógica. Ao menos uma lógica aceitável. Na esteira de um plano diretor aparentemente comprometido mais com o negócio das construtoras do que com quem quer viver bem, centenas de terrenos arborizados e pontuados com casas antigas em Porto Alegre vem dando lugar a condomínios anódinos de prédios altíssimos que transformam bairros inteiros em zonas exclusivamente residenciais. Com pouco comércio de rua, com os moradores empoleirados em apartamentos de janelas minúsculas, totalmente distantes de qualquer atividade na calçada, esses bairros acabam parecendo mais perspectivas em 3D do que lugares realmente confortáveis pra se viver – é o que levantam os artigos.

Nesse cenário, uma das ironias mais tristes sublinhadas pela Carol é o nome desses condomínios. Geralmente eles são inspirados em bairros charmosos e interessantes da Europa, locais de arquitetura clássica preservada, de edificações mais baixas, de jardins mais convidativos e de intensa movimentação na rua. Importa-se apenas o nome e, talvez a programação visual para o logotipo e para o folder de vendas. Raramente o estilo de vida.

São complexas as causas desse fenômeno e dificilmente dá pra apontar um único responsável. Tem as construtoras, tem a Prefeitura, tem o momento econômico, tem o momento cultural. Mas essa teia de relações não nos exime de pensar e questionar. Frequentemente flutua a ideia de que certos caminhos são inevitáveis, mas isso não é verdade. Se é possível pensar diferente e escrever diferente, como a Carol fez, tenho certeza que é possível fazer diferente. Não é fácil, não é rápido, mas é possível e começa bem assim, por proclamar e passar adiante uma outra mentalidade que não a dos vetores acelerados do imediatismo.

***

A foto lá em cima é da quadra em frente ao meu apartamento, cheia de casas. Metade dela (talvez mais) será botada abaixo pra receber um condomínio novo. Além de um pouco de vista, vamos perder todas essas árvores dos quintais e os cachorros que latiam quando a gente passava em frente.

Shoot The Shit na insistência

1_900

O vídeo abaixo (que fala sobre a imagem acima) é um microdocumentário de cinco minutinhos sobre uma das iniciativas do pessoal aqui de Porto Alegre que largou a publicidade pra se dedicar ao empreendedorismo social.

O Shoot The Shit vem fazendo um trabalho interessante de questionar e dialogar com a cidade de Porto Alegre com um método bastante prático e interessante: mesmo que os seus projetos não sejam totalmente abraçados ou implantados, a mera movimentação já cutuca gestores públicos, jornalistas e a população em geral.

Por exemplo: achei bacana que o projeto escolhido pra aparecer no Imagina na Copa foi esse do Que Ônibus Passa Aqui. O projeto não vingou totalmente nos moldes em que foi criado, mas ainda assim os caras divulgam, insistem e batem numa tecla muito interessante.

De minha parte, o projeto que me pegou como “público” e que eu mais gosto são os stencils indicando lixeiras próximas, co-criados com alunos de uma escola local. Uma ideia simples, eficiente e facilmente repicável.

Preserve a antítese

social_poster_13

O Rio Grande do Sul é um estado que se declara solene e repetidamente polarizado. Qualquer um que passe mais do que dois ou três dias por aqui vai se deparar com alguma discussão ou alguma acusação de “grenalismo”, uma rivalidade de paixão comparável à do futebol, mas que permeia todos os âmbitos da vida gaúcha – política, econômica, cultural e social.

A lenga-lenga do oposicionismo congênito do gaúcho descende supostamente das diferenças entre chimangos e maragatos na controvertida Revolução Federalista de 1893 que, segundo dizem, nem revolução era. De um lado, estavam os maragatos, insatisfeitos com a política governamental da recém proclamada república. De outro, chimangos, que defendiam a unidade federativa e as medidas vigentes. Não existe uma única discussão sobre a polarização no Rio Grande do Sul que não traga essa historinha a reboque e isso é tão repetido que nem sabemos mais se tem a ver ou não tem a ver com o que acontece hoje.

No fundo não interessa mais saber a origem ou o DNA da polarização gaúcha, nem mesmo se ela existe de fato. Nas conversas, nas ideias, na cultura, no ar, ela existe. Foi adotada com gosto, especialmente por dois motivos em geral obscurecidos: a polarização é útil para justificar 1) a incompetência e 2) a falta de ideias alternativas. Todo empreendimento que não acontece ganha automaticamente a desculpa do radicalismo gaúcho pra encobrir qualquer falha que possa ter sido parte do projeto original. E em seguida, na pressa de discutir a tal polarização, morre a discussão sobre caminhos alternativos. Tem-se a impressão, sempre, que um projeto parado é sempre parado por algum radicalismo e não por algum problema do projeto em si.

Nessas, quem sempre acaba apanhando verbalmente são esses “radicais”. Grupo heterogêneo, subjetivo e, na prática, inexistente, os “radicais” são figuras mitológicas responsáveis por atrasar o Estado. Por exemplo, se não fossem os “radicais”, Porto Alegre seria uma cidade mais moderna, a indústria gaúcha mais pujante, a cultura regional mais expressiva e o nosso litoral bem melhor estruturado. Mas “radical”, a meu ver, talvez seja simplesmente um outro nome para a incompetência de muitos empreendedores, artistas e gestores públicos – por vezes incompetência técnica, por vezes política, por vezes comercial.

Por exemplo, será que a revitalização do Cais do Porto ainda não saiu porque “forças radicais” ou “chatos” querem discutir ou porque nenhuma força política ou comercial foi capaz de construir um projeto suficientemente bom que abarque todas as peças do jogo que precisam ser contempladas?

Eu já disse em outra ocasião: se existem radicais hoje, eles são muito pouco radicais. Ou pouco eficientes no seu radicalismo. Se fossem realmente radicais ou chatos, como também os chamam, eles perderam completamente a mão. Porto Alegre, que conheço mais pois é onde moro, está sendo coalhada de prédios gigantes com arquitetura sem graça, imóveis comerciais de aluguel também sem graça, empreendimentos comerciais com pouquíssimo retorno pra comunidade e não tenho notícias de planos para uma urbanização alternativa, que não privilegie espigões e a mobilidade individual em automóveis. Com radicais que deixam isso acontecer, quem precisa de moderados?

O Rio Grande do Sul não precisa extinguir sua cultura polarizada. Pelo contrário, precisa sim é consertar sua polarização manca e esquizofrênica. Na prática, isso significa parar de reclamar da polarização e do radicalismo, parar de colocar nisso a culpa das incompetências. O novo não acontece em situações isentas de fricção, pelo contrário. É histórico e conhecido que toda síntese nasce do embate de uma tese e de uma antítese. Por isso, bato de novo nessa tecla: pra evoluir, o Rio Grande do Sul precisa qualificar suas teses antes de aspirar eliminar supostas antíteses.

Como foi Thurston Moore em Porto Alegre

Está provado & comprovado: Thurston Moore é um fanfarrão! O guitar-anti-hero mais célebre do rock contemporâneo abriu ontem sua tour pelo Brasil sacaneando os namorados & namoradas de fãs do Sonic Youth que levaram seus pares ao bar Opinião com a promessa de que “o disco solo dele é bem calminho, quase tudo no violão.” Bom, de fato, durante 80% do show o ovacionado TÃRSTON empunhou seu violão acompanhado de parceiros com outro violão, um violino e uma bateria que estava mais pra percussão do que tum-tum-dá de rock. Mas não demorou muito pra que os desavisados do local fossem apresentados ao que TÃRSTON sabe fazer melhor: barulho fino, bem estruturado, caos que consegue ser cerebral e visceral, ruído branco alternado com dedilhados elegantes entremeados pelas cordas dos três instrumentos & carregados por um baterista tarimbado. E tudo sem largar o violão na maior parte do set.

Tãrston

O clima geral, claro, era de celebração. Aquele bom e velho encontro de gerações portoalegrenses interessadas em gente interessante. E que esperava há muito tempo pela presença de uma figura tão emblemática, tão fundamental na formação musical de toda uma geração de roqueiros “alternativos”. Claro que por baixo estava o desejo de ser o Sonic Youth naquele palco, mas rapidamente se dissipou qualquer traço de resmungo que pudesse surgir no ar: o ruivão supriu totalmente a carência sônica do público empreendendo longas jams de microfonia & distorção entre um sonzinho calmo e outro. Não havia o que duvidar: é o bom e velho talento do cara para escrever canções que sobrevivem em ambientes sonoros inóspitos e agressivos. Quase um ensinamento de vida.

Foi um golpe experiente atrás do outro: um show de abertura em clima de revival anos 90 (embora o tal de Kurt Ville me lembrou até Galaxie 500 uma hora); canções decentes que bebem na fonte da sua banda original mas que não soam como sobras; piadinhas sarcásticas e nonsense; uma banda com músicos de personalidade; jams milimetricamente afiadas; COVER DE IT’S ONLY ROCK’N’ROLL BUT I LIKE IT, e, pra fechar com chave de ouro: ELE NÃO TOCOU O HIT DO DISCO, Benediction.

Entendeu? O TÃRSTON veio, trouxe o violão, fez barulho, botou um Stones no meio e não tocou o hit.

É muita malandragem…

***

A foto que abre o post é do Fernando Halal. As outras são do meu celular.

Tapumes

Não sei se vocês notaram, mas os tapumes de obra mudaram de categoria nas nossas vistas. Eles não são mais efêmeros. Eles não vão mais embora. Um vai, aparece três. Eles se transformaram, praticamente, em parte do acervo permanente da cidade.

Paul em Poa

Histórico, lendário, imperdível, arrebatador, incendiário, encontro de gerações… os clichês abundam em tempos de Paul McCartney em Porto Alegre, mas tudo é desculpável porque, vamos combinar, ele foi um dos que inventou todos esses clichês. Não só os clichês que a gente usa até hoje pra descrever fenômenos pop, mas também clichês que nós usamos à exaustão (sem exauri-los) pra nos divertir, pra nos confortar, pra nos entender e até pra fazer negócios.

O impacto do show de Paul McCartney em Porto Alegre vai muito além dos corações acelerados dos fãs mais exaltados e também transcende as inúmeras expressões materiais de carinho e gratidão (tanto as pessoais quanto as institucionais) que o ex-Beatle (existe ex-Beatle??) recebeu. Na verdade, à medida em que o show vai ficando pra trás na memória, lentamente, tenho cada vez mais certeza: não nos é possível entender o impacto e todas suas ramificações que um show desses tem uma cidade como Porto Alegre.

Não se trata aqui de veneração cega ou de atribuição de deidade a uma pessoa tão especial. Na verdade, vamos contextualizar: até sexta-feira eu nem ia no show. Mongol que sou, achei que não seria uma perda tão grande, ninguém morre por não ir a um show. Mas, como os ingressos começaram a pipocar na internet nos últimos dias, intuitivamente acabei comprando o meu e evitei a tempo a falta grave.

Não é preciso chover no molhado quanto aos predicados do show: o set list bem equilibrado, a banda incrível e o homem fazendo jus à lenda. Por isso,  vou me focar em escrever um pouco sobre outros aspectos que não estão sendo comentados com tanta intensidade. A começar pela desmistificação da lenda.

Não que Paul, como eu disse, não faça jus à aura mística que se cria em torno dele (lembrem-se que até morto ele esteve), mas é curioso ver que em três horas de show ele leva o público às alturas com os dois pés bem fincados no chão. O rock é um companheiro tinhoso: mexe com você, desestrutura, mas ao mesmo tempo pode colocar as pessoas num transe fantasioso de eterna adolescência, numa acomodação velada. O que se viu ontem, pelo contrário, foi um espetáculo que contém com todas as nuances dessa eterna contradição, o encontro da energia primal com a maturidade e seus resultados impressionantes.

Do domínio da energia primal, vimos um senhor de seus 68 anos tocar durante 3 horas sem pestanejar, sem tomar um gole d’água (até o bis, pelo menos, conforme prometido ao Zeca Camargo…), sem falhar a voz. Engana-se quem pensa que essa é uma característica dos deuses. Ela é dos homens, especialmente dos homens que encaram palcos há mais de 50 anos e que começaram a vida de trabalhador do pop batendo ponto em exaustivas jornadas de trabalho nos bares de Hamburgo.

Talvez dessa verve de operário do entretenimento também venha de uma profunda compreensão das suas responsabilidades e papéis. Paul não resmungou, não fez discurso político, não fingiu ser o messias nem se dobrou ao peso da sua majestade. Em cima do palco, mais uma vez, estava o  homem, ladeado por uma estrutura financeira e física de milhões de dólares e guarnecido por um repertório de inigualável apelo. Ele fez, então, o que mandava sua responsabilidade e não sua vontade (embora talvez as duas se mesclem): divertiu o público, fez todo mundo cantar junto, dançar e se emocionar, como os melhores entertainers de arena fazem, entregando o que há de melhor em si, o melhor que é possível de acordo com as condições. E as condições eram excelentes.

Não podemos esquecer que um show dessa magnitude tem outra capacidade de alcance com os recursos contemporâneos. Um som cristalino e perfeito (o operador de som deveria ser condecorado pela Rainha também), além de telões de alta definição possibilitaram a todos no estádio terem acesso aos olhares, os sussurros e os salamaleques não apenas de Paul, mas também de toda sua corte. Agora entendo o problema dos Beatles nos anos 60, quanto tentavam fazer shows em estádios e as músicas eram sobrepostas pela histeria das fãs. Com os recursos tecnológicos de hoje, não haveria esse problema e talvez a história da música fosse outra. Então, não vamos ser hipócritas: música é alma, é coração, é energia, mas uma boa fortuna em tecnologia e estrutura também tem seu papel na construção de um show tão envolvente pra tanta gente.

Eu fui em poucos megashows e esse do Paul foi sem dúvida o maior em todos os aspectos: o de mais público (a visão de cima do anel superior do Beira Rio era extasiante, ainda mais com o sol de pondo), o de melhor som, o de melhor repertório… Mas acima de todos os superlativos, pairou o tempo todo na minha mente uma única idéia, uma idéia simples. Eu me lembrava do Butch Vig, produtor do segundo disco do Nirvana, comentando do poder de fogo da banda. Não recordo bem os termos e as palavras, mas falava da simplicidade da formação em relação ao impacto. Guardadas as devidas proporções, esse era meu sentimento no coração ontem. A beleza de uma configuração tão simples – músicas de três minutos, em grande parte tocadas com duas guitarras, baixo, bateria e teclado  – conjurar momentos tão grandiosos.

Como diz outro produtor clássico dos anos 90, Conrad Uno: “You dont need too much. All you need is some mics and maybe some bad reverb.” E, claro, com um adicional que Paul não cantou mas deixou no ar: “All you need is love”.

***

Fotos: a primeira eu roubei da Zero Hora, é do Mauro Vieira. As outras duas são do meu celular.

***

Leiam nos comentários críticas à estrutura local do show no que diz respeito a organização de filas, bebidas e banheiros. Não vivi isso porque cheguei em cima da hora e não saí do meu lugar, mas tem bastante gente reclamando.