Uma lista de links sobre ação da PM nos protestos da final da Copa

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A depressão pós-Copa que muita gente relatou no início da semana tem um lado festivo e outro mais pesado. A versão festiva diz respeito ao fim do clima de micareta que tomou conta de algumas regiões de algumas cidades do país; a versão que deixa um gosto realmente amargo na boca são as consequências concretas da influência da Fifa e da Lei Geral da Copa sobre o ativismo social – materializado de forma flagrante e brutal na repressão a protestos no Rio no último domingo.

Ainda não me debrucei pra escrever mais longamente sobre o assunto porque, além de tempo, sinto que me falta mais conteúdo e experiência de primeira mão. Mas não quero deixar de compartilhar uma lista de links interessantes que surgiu nas minhas redes nos últimos dias e que acho que vale a leitura. Vamos lá:

* Protesto no Último Dia da Copa Recebido com Força Severamente Desproporcional, Prisões e Violência Policial – matéria no Rio On Watch.

* O braço forte da União: matéria da Publica sobre a ação coordenada da Advocacia Geral da União para coibir greves e protestos durante a Copa.

* A justiça e o Estado estão criando o criminoso antes do crime existir – entrevista com Jean Wyllys ao El País.

* Crítica da OAB e Anistia Internacional às prisões preventivas no Rio. Matéria da Folha.

* Movimentos denunciam intenções políticas das prisões no Rio – matéria no Sul 21.

* Nossa democracia está em jogo!– texto da Mídia Ninja com lista de links com repúdios de entidades à prisão de ativistas.

* Vídeo com o jornalista canadense Jason O’Hara sendo atendido por um paramédico após ser espancado e roubado pela PM carioca.

* Post no Facebook do jornalista do Terra que também foi agredido por PMs.

* Post na Fanpage do Mídia Ninja sobre a agressão ao repórter Ninja Felipe Peçanha.

* Repórteres Sem Fronteira lançam campanha alertando para a violência contra jornalistas brasileiros – nota da Mídia Ninja.

* E sempre vale a pena dar uma volta pelos posts do agregador de mídia independente Agrega.la

Uma seleção de posts com o outro lado da Copa

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Tudo bem: no fim das contas está tendo Copa, ela está divertida, cheia de jogos interessantes e com muitos gols. Eu fui no Coreia x Argélia, curti o clima da Copa (apesar do ar shopping center), adorei dar uma volta pela Cidade Baixa coalhada de gringos. Mas todo lado A tem seu lado B e, apesar da repercussão desproporcional, não faltam exemplos dos desmandos públicos e privados que estão acontecendo na paralela. Vai aqui, então, uma pequena coletânea de artigos, matérias e vídeos com o lado B da Copa. A escolha não é científica, foi um tanto quanto aleatória a partir do que chegou a mim nas últimas semanas via redes sociais. Mas certamente é representativa.

* Pra começar, tem a prisão abitrária do Everton em São Paulo, num tipo de ação que tem sido escandalosamente sistemática:

Sobre isso, tem mais um relato por escrito no site da C.O.P.A., que aliás faz um rico apanhado das ações violentas e repressivas a movimentos sociais durante a Copa.

* Outra boa fonte que está agregando o trabalho de coletivos midialivristas é o Agrega.la, dica do Patchwork, blog vizinho aqui no OEsquema.

* O caso mais recente e quente desses absurdos foi a agressão ao advogado Daniel Biral em São Paulo, repudiada pela OAB. Aliás, a prisão aconteceu numa ação da polícia que procurou reprimir um protesto contra a ação da polícia!

* Aliás, um artigo do El País questiona o uso de prisões e investigações pelo Governo paulista com o claro objetivo de desmobilizar ativistas. Diga-se de passagem, em Porto Alegre algo assim também acontece, embora em bem menor intensidade.

* O que nos leva ao texto do Pedro Abramovay no Brasil Post dando conta da prisão de Fábio Hideki Harano, acusado de “associação criminosa” e de ser um “black block” quando não há qualquer prova disso. Fábio está considerado um bode expiatório, um preso político.

* A Eliane Brum publicou esses dias um precioso texto na Folha mostrando o lado de um policial e de um ativista durante os protestos da Copa.

* O André Barcinski relatou em seu blog um papo informal com comerciantes de Paraty, pra quem a Copa só trouxe prejuízo. Dias depois, publicou um segundo texto citando uma matéria da Folha que corrobora em nível nacional a experiência dos seus entrevistados.

* Por sua vez, o site Five Thirty Eight, do jornalista-estatístico Nate Silver na ESPN, fez uma criteriosa análise sobre os gastos com estádios brasileiros e as projeções de público para os próximos anos, perguntando a si mesmo se o investimento vai valer a pena. A resposta: “A impressionante conclusão de pesquisas acadêmicas sobre os estádios e arenas é que eles oferecem de pouco a nenhum benefício no longo prazo.”

* No tema “estádio e arenas”, é obrigatório acompanhar o trabalho da Pública, Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo. Três matérias pra começar: Tem Dinheiro Publico, Sim Senhor (foram 4,8 bilhões de governos estaduais para a Copa); As Quatro Irmãs (que cobre a trajetória das quatro grandes empreiteiras do Brasil); e “Eles Estão Roubando Vocês”, entrevista com o jornalista Andrew Jennings, que investiga a Fifa há muito tempo.

Feita a compilação, meus votos são que o maior número possível de pessoas consiga suportar a ambiguidade de curtir a Copa sem desligar o espírito crítico e investigativo. Não é fácil, mas é possível e necessário.

198 formas não-violentas de fazer uma revolução

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Assisti ontem “Como Começar uma Revolução”, documentário inglês sobre o trabalho do especialista em ação não-violenta Gene Sharp. Americano e militante pacifista, ele se recusou a participar da Guerra da Coréia nos anos 50, foi preso por isso e a partir daí dedicou a vida a pesquisar formas de derrubar governos sem a necessidade do uso de violência. Em 1993, ele publicou “Da Ditadura à Democracia – Uma Estrutura Conceitual para a Liberação”, que compila métodos pacíficos de resistência e ação para grupos oprimidos. O livro já foi traduzido para mais de 40 línguas e é considerado uma peça intelectual importante em diversas insurgências ao redor do mundo.

O filme está disponível gratuitamente no NOW (vá na sessão NOW TV e procure pelos documentários do GNT). Alguma boa alma também gravou da NET essa versão com legendas em português e botou inteiro no YouTube:

Embora eu não conheça profundamente o trabalho de Sharp, achei extremamente inspiradora a disposição dele não apenas de estudar e disseminar essas técnicas, mas principalmente de ORGANIZÁ-LAS. Opressão, em toda e qualquer escala, de relações institucionais até pessoais, é uma situação que nos deixa frequentemente paralisados. Oferecer um caminho estruturado com tantas opções de linhas de ação quando se sente que não se pode fazer nada – e que a violência é a única saída – é realmente uma contribuição inestimável. Mais interessante ainda, Sharp não defende que os atos revolucionários pacíficos sejam uma simples alternativa à luta armada, mas sim a alternativa mais eficiente.

Alguém que postula isso nesse momento tenso em que estamos vivendo no mínimo merece uma hora da sua atenção, né? O Brasil  não está em  situação tão limítrofe quanto está a Síria ou quanto estavam o Egito e a  Tunísia  recentemente, mas ainda assim a compilação e a reflexão de Sharp se mantém válidas especialmente para ampliar o acesso à ideia de que existem alternativas  para ações violentas. Pelo que acompanho nas redes sociais, muita gente ainda acha que a melhor maneira de lidar com os  políticos  corruptos ou com a polícia violenta ou com os black blocs ou com os  comunistas  ou com os baderneiros ou com os  reacionários é  descer o cacete. Poucas  dessas pessoas efetivamente bateriam ou machucariam alguém, mas uma  quantidade  ainda assustadora  dissemina na internet  (e em papos de boteco) a ideia da violência como solução  plausível e eficiente.

 

***

Algumas notas complementares:

* O pessoal do Hypeness recentemente escreveu um post falando um pouco mais sobre Sharp e o documentário. Dê um pulo aqui pra ler.
* O post inclusive indicam um link pra fazer download do livro dele em português gratuitamente.
* Eu já tinha lido por aí sobre Sharp, mas foi “Como Mudar o Mundo” do John Paul Flintoff que me fez ir atrás de mais material. Esse livreto faz parte de uma série da School of Life e saiu em português no Brasil pela Objetiva, que colocou um bom trecho pra baixar em PDF. Basta clicar aqui com o botão direito e baixar.

***

Curioso pra saber quais são os 198 métodos? Peguei a lista no MerdTV.

OS MÉTODOS DE PROTESTO NÃO VIOLENTOS E PERSUASÃO

Declarações formais

1. Discursos públicos
2. Cartas de oposição ou de apoio
3. Declarações de organizações e instituições
4. Declarações públicas assinadas
5. Declarações da acusação e de intenção
6. Comunicações de petições em Grupo ou em massa

Comunicação com uma audiência mais ampla

7. Slogans, caricaturas e símbolos
8. Banners, cartazes e comunicações exibidas
9. Folhetos, panfletos e livros
10. Jornais e revistas
11. Discos, rádio e televisão
12. Escritas com fumaça no céu ou na terra

Representações em grupo

13. Delegações
14. Prêmios satíricos
15. Grupos de lobby
16. Piquetes
17. Simulacros de eleições

Atos públicos simbólicos

18. Exibição de bandeiras e cores simbólicas
19. Uso de símbolos
20. Oração e culto
21. Entrega de objetos simbólicos
22. Nudez em protesto
23. Destruição de propriedade própria
24. Luzes simbólicas
25. Mostra de retratos
26. Pintura como forma de protesto
27. Novos sinais e nomes
28. Sons simbólicos
29. Reclamações simbólicas
30. Gestos rudes

Pressões sobre os indivíduos

31. “Atormentar” funcionários
32. “Insultar” funcionários
33. confraternização
34. Vigílias

Teatro e música

35. Sketches cômicos e brincadeiras
36. Desempenho de jogos e música
37. Canto

Procissões

38. Marchas
39. Desfiles
40. Procissões religiosas
41. Peregrinações
42. Cortejos

Homenagem aos mortos

43. Luto Político
44. Simulacros de funerais
45. Funerais demonstrativos
46. Peregrinação a locais de sepultamento

Assembleias públicas

47. Assembleias de protesto ou de apoio
48. Reuniões de protesto
49. Reuniões camufladas de protesto
50. Invasões de aulas

Retirada e renúncia

51. Abandono de recinto
52. Silêncio
53. Renúncias a homenagens 55
54. Virar as costas

MÉTODOS DE NÃO COOPERAÇÃO SOCIAL

Ostracismo de pessoas

55. boicote Social
56. Boicote social seletivo
57. greve de sexo
58. Excomunhão
59. Interdições

Não cooperação com os eventos sociais, costumes e instituições

60. Suspensão de atividades sociais e esportivas
61. Boicote a assuntos sociais
62. Greve estudantil
63. Desobediência Social
64. Retirada de instituições sociais

Retirada do sistema social

65. Permanência em casa
66. Não-cooperação pessoal total
67. Fuga de trabalhadores
68. Santuário
69. Desaparecimento coletivo
70. Emigração em protesto (hegira)

OS MÉTODOS DE NÃO COOPERAÇÃO ECONÔMICA:

(1) BOICOTES ECONÔMICOS

Ação por parte de consumidores

71. boicote de consumidores
72. Não-consumo de mercadorias boicotadas
73. Política de austeridade
74. Retenção de aluguel
75. Recusa de alugar
76. boicote nacional de consumidores
77. Boicote internacional de consumidores

Ação por parte dos trabalhadores e produtores

78. Boicote de Trabalhadores
79. Boicote de produtores 56

Ações por intermediários

80. Boicote de Fornecedores e manipuladores

Ação de proprietários e gerentes

81. Boicote de negociadores
82. Recusa a alugar ou vender imóveis
83. Locaute
84. Recusa de assistência industrial
85. “Greve geral” de comerciantes

Ação por parte dos titulares de recursos financeiros

86. Retirada de depósitos bancários
87. Recusa de pagamento de taxas, encargos e multas
88. Recusa de pagamento de dívidas ou de juros
89. Corte de fundos e de crédito
90. Recusa da receita
91. Recusa de dinheiro de um governo

Ação de governos

92. Embargo Doméstico
93. “Lista negra” de comerciantes
94. Embargo de vendedores internacionais
95. Embargo de compradores internacionais
96. Embargo de comércio internacional

OS MÉTODOS DE NÃO COOPERAÇÃO ECONÔMICA:

(2) GREVE

Greves simbólicas

97. greve de protesto
98. Paralização rápida (greve relâmpago)

Greves agrícolas

99. Greve de camponeses
100. Greve de trabalhadores agrícolas

Greves de grupos especiais

101. Recusa de trabalho impresso
102. Greve de prisioneiros
103. Greve de Artesãos
104. Greve Profissional

Greves industriais comuns

105. Greve de Estabelecimento
106. Greve de Indústria
107. Greve de Simpatia

Greves restritas

108. Greve detalhada
109. Greve de recusa
110. Operação tartaruga
111. Operação padrão
112. Informe de “doença”
113. Greve por demissão
114. Greve limitada
115. Greve seletiva

Greves multi-industriais

116. Greve generalizada
117. Greve geral

Combinações de greves e fechamentos econômicos

118. Hartal (fechamento geral)
119. Desligamento Econômico

MÉTODOS DE NÃO COOPERAÇÃO POLÍTICA

Rejeição da autoridade

120. Retirada ou contingenciamento de fidelidade
121. Recusa de apoio público
122. Literatura e discursos defendendo a resistência

Não-cooperação dos cidadãos com o governo

123. Boicote de corpos legislativos
124. Boicote às eleições
125. Boicote de emprego e cargos no governo
126. Boicote aos departamentos governamentais, agências e outros órgãos
127. Retirada de instituições de ensino governamentais
128. Boicote de organizações apoiadas pelo governo
129. Recusa de assistência aos agentes da lei
130. Remoção de sinais próprios e marcadores
131. Recusa em aceitar funcionários nomeados 58
132. Recusa a dissolver as instituições existentes

Alternativas dos cidadãos à obediência

133. Respeito relutante e lento
134. Não-obediência na ausência de supervisão direta
135. Não-obediência Popular
136. Desobediência disfarçada
137. Recusa de uma assembleia ou reunião dispersar-se
138. Ocupação sentada
139. Não-cooperação com o serviço militar obrigatório e deportação
140. Ocultação, fuga e identidades falsas
141. Desobediência civil a leis “ilegítimas”

Ação de funcionários do governo

142. Recusa seletiva de assistência por assessores do governo
143. Bloqueio de linhas de comando e informações
144. Retardamento e obstrução
145. não-cooperação administrativa geral
146. Não-cooperação judiciária
147. Ineficiência deliberada e não-cooperação seletiva de agentes da lei
148. Motim

Ação governamental doméstica

149. Evasões semilegais e atrasos
150. Não-cooperação por unidades governamentais

Ação governamental internacional

151. Mudanças na representação diplomática e outras representações
152. Atraso e cancelamento de eventos diplomáticos
153. Retenção do reconhecimento diplomático
154. Rompimento das relações diplomáticas
155. Retirada de organizações internacionais
156. Recusa de participação em organismos internacionais
157. Expulsão de organizações internacionais

OS MÉTODOS DE INTERVENÇAO NÃO VIOLENTA

Intervenção psicológica

158. Auto exposição aos elementos
159. Jejum:
(a) Jejum de pressão moral
(b) Greve de fome
(c) Jejum Satyagrahica
160. Julgamento reverso
161. Assédio não violento

Intervenção física

162. Ocupação sentada
163. Ocupação de pé
164. Ocupação de meios de transporte
165. Ocupação de rios
166. Ocupação de usinas
167. Ocupação rezando
168. Ataques Não violentos
169. Bombardeios aéreos não violentos
170. Invasão não violenta
171. interjeição não violenta
172. Obstrução não violenta
173. Ocupação não violenta

Intervenção social

174. Estabelecimento de novos padrões sociais
175. Sobrecarga de instalações
176. Interferência retardatoria
177. Intervenção com discursos
178. Teatro de guerrilha
179. Instituições sociais alternativas
180. Sistema alternativo de comunicação

Intervenção econômica

181. Greve reversa
182. Greve com permanência
183. Ocupação de terra não violenta
184. Desafio a bloqueios
185. Falsificação politicamente motivada
186. Compra preventiva
187. Apreensão de bens
188. Dumping
189. Patrocínio Seletivo 60
190. Mercados alternativos
191. Sistemas de transporte alternativo
192. Instituições econômicas alternativas

Intervenção Política

193. Sobrecarga dos sistemas administrativos
194. Revelação da identidades de agentes secretos
195. Busca de prisão
196. Desobediência civil de leis “neutras”
197. Trabalho sem colaboração
198. Dupla soberania e governo paralelo

Diários de Bicicleta: Protestos

No alto do elevado

Um pensamento que me ocorreu com algum delay, mas vamos lá.

Acho curioso que, mesmo com todos os protestos, tão intensos e sucessivos, o papo da bicicleta não tenha emergido com força para o mainstream a partir dos nichos onde ele costuma se desenvolver. Parece que a bicicleta ainda é assunto ou de militantes do setor ou dos escaninhos da mobilidade urbana e da sustentabilidade. No máximo, chega naquele círculo um pouco mais amplo formado por pessoas que tem o costume de adotar causas contemporâneas e, superficialmente, à audiência das revistas semanais. Mesmo com tantos temas obscuros de política e sociedade se tornando populares nas mesas de bar ao longo de junho e julho, a riqueza da cultura do pedal não deu um jeito de ser iluminada nesses holofotes quando se falava de transporte urbano.

Claro, não é por nada. O que vinha se pedindo nos protestos em termos de mobilidade eram algumas soluções bastante objetivas (passe livre, redução no preço da passagem) e eventualmente tópicos estruturais (quando podia, o MPL lembrava a todos que sua luta era por uma outra política de transportes). Mas tudo dentro do âmbito do transporte coletivo de massa, um contexto dentro do qual a bicicleta ainda tem pouco a dizer na linguagem popular. Sim, eu sei que em alguns lugares a bicicleta sempre serviu de transporte individual de trabalhadores, mas lembremos que a maioria dos brasileiros ainda parece sonhar com ônibus e trens minimamente decentes ou com o carro próprio para vencer longas distâncias em ambientes urbanos conturbadíssimos. Para se fazer sedutora nesse contexto, a bicicleta, como veículo e como proposta política de alto alcance, vai ter que rebolar.

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Leia todos os posts da série Diários de Bicicleta.

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Imagem daqui.

Mídia Ninja no Roda Viva: só não entende quem não quer

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Ontem à noite, o Pablo Capilé e o Bruno Torturra Nogueira, os dois articuladores mais visíveis da Mídia Ninja, ocuparam as cadeiras centrais do Roda Viva na TV Cultura (programa na íntegra logo abaixo). Sabatinados por uma bancada formada integralmente pelo que poderíamos chamar de jornalistas da velha guarda, eles tiveram a oportunidade de explicar, afinal de contas, o que é a Mídia Ninja e pra que ela serve. E, a seu modo e com suas limitações, explicaram. Não entendeu quem não quis – ou porque não vai com a cara deles ou porque não quer ir.

Bastou ouvir Pablo e Bruno (ou antes dar uma googleada básica…) pra saber: a Mídia Ninja é uma iniciativa de mídia alternativa buscando novas perspectivas de ação e cobertura jornalística. Ela é ligada à rede de produção cultural e de ativismo Fora do Eixo, nasceu das experiências do canal de streaming Pós-TV e é bancada por essa rede não apenas financeiramente mas também em termos de entrega pessoal. Ponto final.

A partir disso, poderia-se explorar dois caminhos: como a Mídia Ninja faz o que faz do ponto de vista jornalístico e como ela faz o que faz do ponto de vista político. Para prejuízo da análise das possibilidades de mídia, a bancada do Roda Viva ficou obcecada com o segundo caminho, que deveria, sim, ser explorado. Mas talvez não de forma tão pragmática, tentando com um desespero constrangedor encaixar a dupla de entrevistados dentro de conceitos que não dão mais conta de explicar a complexidade do que está acontecendo. A impressão que se tinha era que estavam tentando cavar uma declaração formal mais ou menos assim: “ok, admitimos, somos parte da asssessoria de imprensa do PT financiados pela Dilma”. Uma ideia que, apesar de sedutora e fácil de comprar, não faz muito sentido.

A Mídia Ninja é, acima de tudo e claramente, uma nova experiência com todas as indefinições que isso tem, sendo a principal um futuro nebuloso: como ela vai se manter relevante? Como vai se financiar? Que contribuições tem a dar no longo prazo? Mas… Ei, peraí… Não são as mesmas perguntas que estão fazendo à mídia tradicional? Bruno e Pablo responderam com clareza e segurança a perguntas que as grandes empresas de mídia não conseguem: vão se manter relevantes se mantendo conectados às ruas; estão buscando quatro diferentes modelos de financiamento (que podem ou não funcionar); pretendem refletir no seu modus operandi a complexidade das demandas e funcionamentos da sociedade brasileira contemporânea, fugindo do reducionismo maniqueísta da reportagem tradicional. Mais claro do que isso, impossível. Só faltou desenhar.

Mas, antes que me acusem de pelego da Mídia Ninja, também coloco aqui minhas ressalvas.

Primeiro, é notória a dificuldade do Pablo e do Fora do Eixo de produzir falas que atinjam pessoas fora de sua rede e de expansões próximas (o Bruno, ao que parece, é mais flexível). Eu entendo perfeitamente o que ele quer dizer com guerra memética (vimos isso o tempo todo nos protestos, de como máscaras do Anonymous e meia dúzia de slogans construíram o imaginário desse momento) ou com mosaico de parcialidades (vamos parar de fingir imparcialidades e compor a partir de nossos posicionamentos). Mas foi preciso me esforçar e aprender um pouco do seu alfabeto, uma disposição que pouca gente tem. Segundo Pablo, o Fora do Eixo tem um vasto sistema de produção que inclui centenas comunicadores e designers, então já está mais do que na hora de rolar um videozinho visual, simples e didático que explique de uma vez por todas como o Fora do Eixo se financia e se o tal dinheiro dos editais é ou não espalhado nominalmente na rede (e não sob a forma de desdobramentos em cards). Um único videozinho – e muita gente vai parar de encher o saco quanto a esse ponto, que, para quem é de fora, é realmente nebuloso.

Segundo, tenho a impressão às vezes que o Fora do Eixo doura sua pílula pois, apesar de estar circulando pouco com a minha banda nos últimos anos, não estou conseguindo enxergar essa rede de oportunidades citada no Roda Viva e que supostamente vem mantendo a sustentabilidade de muitos artistas. Minhas três experiências com eventos do Fora do Eixo foram todas positivas (numa delas, recebi das mãos do próprio Pablo o cachê de um show ANTES de entrar no palco, algo raro em qualquer circuito). Mas não tem faltado gente para criticar a atuação do Fora do Eixo nesse meio – assunto, quem sabe, para mais um videozinho explicativo.

Em terceiro: não concordo com o pensamento dos Ninjas de que todo mundo é mídia. Acho que, na verdade, todo mundo que sabe articular alguma linguagem é que é mídia. Isso não quer dizer que apenas profissionais de comunicação estejam autorizados para “ser mídia”, mas a pessoa precisa ter algum nível de intimidade com algum tipo de linguagem e disseminação. Escrevi sobre isso no post Nem Todo Mundo é Mídia no ano passado justamente depois de participar de um debate na Pós-TV.

Fora isso, longa vida à Mídia Ninja e a suas iniciativas. Eles não são os únicos que estão fazendo alguma coisa, mas souberam embalar sua experiência e relevância (como escrevi aqui) de forma a abrir espaços mais mainstream de divulgação e discussão de novas ideias. E isso não é pouco em um cenário de mídia confuso e em crise.

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Para ler mais:

Matéria da Camila Hessel no Estadão que conta um pouco trabalhos da Mídia Ninja anteriores aos protestos. (peguei no Matias).

Imagem: Revista Fórum.

Law and Order: Special Vândalos Unit

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Sou fã das franquias Law and Order e por um motivo muito claro: adoro a forma como os roteiros do seriado organizam o caos que se instala quando o lado mais horroroso do ser humano emerge. Em cerca de 45 minutos, uma barbárie acontece, causa surpresa e indignação, é investigada, questionada, explicada e, no espaço de um único episódio, todo o quebra cabeças é montado. Mesmo com desfechos depressivos, mesmo quando tudo dá errado, ao menos ficamos com um dos consolos da cultura humana, que é a possibilidade de transformar eventos em uma história, o que coloca um mínimo de lógica nessa vida loka. Se a lógica não é moral ou ética, ao menos é narrativa. Se não temos justiça, pelo menos temos início, meio e fim.

Algo similar, me parece, aconteceu a partir da prisão arbitrária, violenta e bizarra dos oito manifestantes que participavam dos protestos de segunda-feira no Rio de Janeiro. Na segunda, acompanhei as transmissões ao vivo da Mídia Ninja. E, nos dias que se seguiram, testemunhei, como muitos outros, o caos daquela noite sendo desmontando peça por peça e remontado até que fizesse sentido. Os protagonistas dessa montagem? Pessoas indignadas, conectadas em rede, subindo vídeos, comentando-os, compartilhando-os e adicionando camadas e mais camadas de links, análises e indignações, até que aos poucos uma narrativa linear de algo que parecia surreal fosse emergindo.

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Dá um certo trabalho montar o quebra-cabeças e muito mais gente viu a história linear no Jornal Nacional ontem do que nos diversos posts espalhados pelo Facebook . Mas, enfim, o trabalho está sendo feito e, como falei, em rede. Em rede não significa um grupo articulado ou sectarizado, pois até mesmo a Globo se tornou um ponto dela. Tempos incríveis.

Primeiro aprendizado: para olhos contemporâneos, o mosaico da construção de sentido em rede é menos caótico do que a narrativa linear oficial – como a que a Polícia Militar do Rio tentou fazer vingar.

Segundo aprendizado: a rede não pertence a ninguém, nem mesmo às pessoas que dizem dominar as linguagens de rede. A narrativa linear e tradicional do Jornal Nacional ontem à noite e as barbeiragens criminosas da Polícia Militar carioca no Twitter no início da semana são camadas tão importantes e tão construtoras do que está acontecendo quanto os protagonistas individuais com celulares nas mãos.

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Alguns textos interessantes que caíram nas minhas mãos:

As Vozes das Ruas por Marcos Rolim.
A Militância e as Responsabilidades do Jornalismo por Sylvia Debossan Moretzsohn

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Foto: Ana Carolina Fernandes

Mídia Ninja x Mídia Golpista

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Há algumas semanas, a Simone do Vale comentou no Facebook: “a Mídia Ninja deveria ganhar um prêmio por esse nome”. Ela estava se referindo, claro, à essa turma derivada do Fora do Eixo/Pós TV que vem construindo um verdadeiro case de relevância midiátia (ou memética, como gostam eles). Claro que há muitos ângulos para serem exploradas nesse caso, mas concordo 100% com a Simone especificamente nessa história do nome e acho isso importante.

Ao lado da questão das interfaces, que já comentei aqui em outro post, o uso inteligente da linguagem é outro item de defasagem das mídias e políticos tradicionais. Expressões que navegam bem no imaginário pop, como “Mídia Ninja”, circulam com mais desenvoltura nos tubos e conexões da internet – e assim também constróem sua relevância. Os Ninjas tem conhecimento de causa, nasceram nesse meio, sabem que o seu público disseminador, além do leitor, exige uma cobertura doce, um marshmellow. Mais do que mero adereço, isso é fator de identificação, a carteirinha do clube. Para quem importa, para quem repassa, não é preciso explicar. Mídia Ninja, ainda que responda por um acrônimo (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação), é autoexplicativo. Em quem não conhece ou não domina a linguagem nativa na qual ela nasceu, causa uma estranheza que gruda, que instiga. Quem são esses caras? Que nome é esse?

(Abaixo, entrevista em audio com Bruno Torturra do Mídia Ninja)

Na outra ponta do espectro está uma outra expressão, caduca e contraproducente. Os militantes mais tradicionais de esquerda ganhariam muito em circulação e entendimento de sua mensagem se abandonassem imediatamente o rótulo “mídia golpista” que aplicam em certos setores da comunicação mainstream. Não tenho dados para sustentar minha hipótese, mas suspeito fortemente que a expressão “mídia golpista” bloqueie completamente a comunicação com qualquer pessoa que não faça parte do grupo restrito do emissor da mensagem. E então, qual o sentido? Qual o objetivo em falar uma língua que só quem concorda com você entende? Quem ainda fala em mídia golpista precisava era aprender uns golpes ninjas.

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Ps: “Ninja” funciona por tempo determinado, numa faixa etária e demografia bastante específica. Curiosamente, deve sua sustentação à cultura oriental importada primeiro por seriados e filmes da TV aberta do passado recente – quer coisa mais mainstream? Em envelhecendo, gosto de imaginar que tipo de expressão funcionaria com o pessoal mais jovem, que militará no futuro próximo. Talvez, quem sabe, um cozido de Harry Potter e zumbis. Veremos.

Consulta popular e linguagem

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Seja quando for, seja plebiscito ou referendo, se vingar a ideia de uma consulta popular sobre a reforma política, enfrentaremos provavelmente um efeito colateral preocupante: um horário eleitoral gratuito em rádio e televisão para defender os diferentes pontos de vista de cada questão. Assim como os termos da consulta (ou sua realização), tudo ainda é especulação, mas é bastante óbvio que algum tipo de campanha publicitária deve acontecer em pelo menos três níveis: o nível oficial, com a propaganda eleitoral institucionalizada em rádio e TV; o nível sub-oficial, com diversas entidades e movimentos produzindo e divulgando seus argumentos em vários meios; e o nível popular, com a massa em geral discutindo nas ruas e nas redes sociais, reproduzindo, diluindo ou remixando os conceitos dos outros dois níveis em algo totalmente novo.

De qualquer forma, estamos na iminência de um fenômeno completamente novo no que diz respeito à propaganda política. Nada do que aconteceu até hoje nos preparou para o que vamos assistir a seguir. Será um espetáculo midiático experimental por excelência, com todas as implicações naturais de uma novidade: exageros constrangedores, simplificações grosseiras, centenas de novas abordagens e algumas soluções realmente relevantes, funcionais e inspiradoras.

Se arrisco algum prognóstico é o da diversidade. O que me passa pela cabeça no caso de uma batalha publicitária pela reforma política é a combinação de todas as técnicas já existentes, desde a publicidade de massa via televisão e rádio (com sua avançada tecnologia de reduzir o debate a meia dúzia de questões e dois lados) até um incontável número de ações de conscientização e discussão por indivíduos e pequenos grupos na internet. Entre um e outro extremo, milhares contribuirão com um olhar particular, centenas farão a diferença enquanto alguns poucos encherão os bolsos de dinheiro para criar e produzir as campanhas massivas – quanto a estes últimos, não há dúvidas.

Mais do que nunca, a habilidade de compreender a linguagem e as ferramentas de comunicação do nosso tempo será fundamental. Suspeito que os marqueteiros tradicionais enfrentarão alguma dificuldade não apenas pelo barroquismo do assunto “reforma”, mas também pela quantidade de concorrentes de qualidade que vem se formando nas fileiras das mídias digitais. Os protestos de junho mostraram a força dos blogs políticos e de alguns movimentos sociais que dominam magistralmente a cultura digital. Caso você não tenha notado, foram esses dois grupos que forneceram os links que tantos disseminaram enlouquecidamente durante as semanas mais movimentadas do “vem pra rua”.

Sendo assim, prepare sua cabeça e seu estômago, porque a invasão midiática dos protestos de junho parece ter sido apenas o início de uma nova forma de diálogo político nos meios de comunicação – tanto o diálogo espontâneo como o diálogo planejado e moldado. Boa sorte a todos nós.

A esse respeito, vale muito ver “No”, do chileno Pablo Larraín baseado em uma peça de teatro de Antonio Skarmeta. “No” conta de maneira ficcional (mas com uma abordagem gráfica documental incrível, usando antigas câmeras U-Matic) a concepção inovadora da campanha pelo “Não” que defendia o fim da ditadura de Augusto Pinochet em 1988. No filme, um publicitário chileno de sucesso provoca uma reviravolta na forma da campanha do “Não”, importante ainda que considerada fútil por políticos mais tradicionais. É um excelente ponto de partida para discutir a necessidade dos políticos se apropriarem da linguagem do seu tempo e também sobre os limites de profundidade dessa apropriação e uso. O filme foi aclamado pela crítica cinematográfica mas foi duramente atacado por lideranças políticas de esquerda da época que retrata, que consideram “No” caricatural.

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Imagem: Sachin Teng

Entrevista: ocupação da Câmara de Santa Maria

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A cidade de Santa Maria se tornou célebre nacionalmente pelo famigerado incêndio da boate Kiss em janeiro deste ano. Agora, durante os protestos de junho, a cidade voltou a ser protagonista, mas dessa vez por um motivo bem menos trágico: um grupo de manifestantes ocupou a Câmara de Vereadores por uma semana de forma totalmente pacífica e construtiva, numa ação que surpreendeu pela ausência de vandalismo e violência policial. Além disso, a ocupação ainda trouxe frutos concretos, como o questionamento público da CPI da Kiss (sob suspeita de tentar blindar a imagem do governo municipal) e o afastamento do Procurador-Jurídico da Câmara, também articulador político da CPI e presidente do PMDB, partido governista local. Para mais informações, vasculhe o site Sul 21.

A ocupação foi transmitida pela internet através de posts em redes sociais e vídeos no YouTube. Entre as pessoas que estavam postando, encontrei Atílio Alencar, meu conhecido do meio cultural independente, com quem já havia trabalhado alguns anos atrás. Aproveitei a proximidade com Atílio para fazer algumas perguntas a ele, que participou ativamente da ocupação como participante do coletivo midialivrista Trança Rua. A conversa iniciou com os manifestantes ainda dentro da Câmara, mas no meio da troca de emails o grupo começou a desocupação por ter atingido algumas de suas metas. Apesar de passado o calor da situação, achei por bem fazer esse post e registrar os bastidores de uma ação importante no momento que estamos vivendo.

Conector: Quem é o grupo que está ocupando a Câmara de Santa Maria? É um grupo de origem única ou congrega pessoas de diversas frentes?
Atílio: A ocupação da Câmara resulta da unificação das mobilizações pela democratização do transporte coletivo e pela justiça no caso Kiss; assim, reune diversas entidades, como as associações de familiares e vítimas da tragédia, coletivos, diretórios estudantis, organizações das marchas e indivíduos não-organizados. É uma multiplicidade de agentes envolvidos, que encontraram pontos de convergência suficientes para unificar suas pautas.

Conector: A ação foi planejada com antecedência ou surgiu no calor das manifestações?
Atílio: A ocupação não foi premeditada; resultou “naturalmente” de uma intervenção da multidão na assembleia, quando, em uma sessão ordinária no dia 25/06, os vereadores optaram por interromper os trabalhos e abandonar a casa ao invés de seguir em diálogo com os manifestantes. Permanecer na casa consistiu em uma afirmação daquele lugar como um espaço público, e principalmente como gesto de resistência frente às fraudes cometidas pelos legisladores durante a CPI do caso Kiss, concebida para blindar o governo municipal através de uma articulação anti-ética por parte de sua base na Câmara.

Conector: Quais são as exigências para a desocupação? A agenda é negociável?
Atílio: As pautas imediatas são: a exoneração do Procurador Jurídico do Legislativo Municipal, Robson Zinn, pela sua conduta na implementação de uma CPI fraudulenta; e a renúncia dos vereadores que integram a mesma CPI de suas funções que nela exercem, com o objetivo de dissolver essa comissão fajuta.

Conector: O que acompanhamos de fora é que não está havendo violência nem por conta dos ocupantes e nem por conta das autoridades. Procede essa ideia? Vocês estão sendo ameaçados de alguma forma, além dos cortes de internet?
Atílio: As ameaças de reintregração de posse foram constantes em declarações da base governista na imprensa local. Já no primeiro dia, um aparato considerável de policiais militares devidamente não-identificados também rondava o prédio da Câmara. Mas em nenhum momento houve conflito de fato. Certa noite, recebemos inclusive a visita de dois policiais uniformizados na ocupação, que foram muito simpáticos. A população está solidária com os manifestantes, entendem a importância e a legitimidade dessa ocupação.

Conector: Como está sendo a atuação da polícia e da segurança da casa?
Atílio: Não houve, até agora, nenhum incidente com a polícia. Os seguranças da casa apenas impedem nosso acesso ao segundo piso, onde ficam os gabinetes dos vereadores (que desertaram de seus postos durante toda a semana de ocupação, mesmo tendo os manifestantes deixado bem claro que nossa intenção nunca foi obstruir a presença dele; pelo contrário, estávamos lá para esperá-los). E, sob ordens da direção da casa, as saídas de emergência foram trancafiadas, impedindo a circulação de ar no recinto e a evasão, em caso de algum acidente.

Conector: Quais são as dificuldades que vocês estão enfrentando para se manter aí dentro?
Atílio: A ocupação criou várias comissões de suporte para viabilizar a permanência dos manifestantes na casa, desde segurança até limpeza e comunicação. Com a ajuda e o apoio da população, através de doações, tem sido possível manter a base firme, e inclusive desenvolver atividades culturais na assembleia. O problema, como citado acima, foi estabelecer-se num ambiente semi-hermético, por conta das portas encerradas do plenário. Foram vários os modos de sabotagem que se tentou aplicar à ocupação, mas nada foi suficiente para causar dispersão. O número de ocupantes ainda passa de uma centena, isso há mais de 5 dias de ocupação.

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Conector: A ação de vocês (que está sendo replicada em Belo Horizonte) contrasta totalmente com a ocupação vândala que foi tentada em Brasília. Como vocês enxergam essa ocupação? Como vocês compõem a ideia de ocupar um espaço que é do povo com as normas convencionais para manter a ordem social (como a história da reintegração de possse)?
Atílio: O pedido de reintegração de posse, nesse caso, é um contra-senso. A ocupação não gerou nenhum impedimento para as funções básicas da casa. O que houve foi que, com a suspensão de uma sessão muito importante, o povo deliberou por permanecer na casa. E, abandonado pelos seus representantes, desenvolveu ali as formas de sustentar sua permanência: cozinhando, conversando, divertindo-se, acolhendo e cuidando do outro. A casa é do povo, então, nada mais justo que tomá-la para si, criar outros sentidos para o lugar que não apenas a solenidade vazia dos ritos legislativos. Inclusive, todos nos sentimos muito bem ocupando as cadeiras dos vereadores, durante a sua ausência. Fica a mensagem: quando o povo perde o medo de tomar o que é seu, o poder deixa de ser algo sagrado.

Aqui terminava a primeira parte de troca de mensagens. Em seguida, o grupo desocupou a Câmara e Atílio respondeu a mais algumas perguntas.

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Conector: Como está sendo a desocupação?
Atílio: A desocupação começou logo após a assinatura do acordo com o presidente do Legislativo, Marcelo Bisogno. Durante a madrugada e o a manhã de segunda, os manifestantes desmontaram o acampamento e as estruturas improvisadas de cozinha e dormitório. Ainda rolou uma sessão de limpeza no final. O pai de uma das vítimas da tragédia na Kiss se responsabilizou pela pintura das pixações na fachada e nos banheiros da Câmara. Não houve intervenção policial nem confusão com os seguranças da casa; a ocupação encerrou de modo pacífico, como sempre foi a proposta dos manifestantes.

Conector: Quais os próximos passos do grupo?
Atílio: Essa semana haverá um encontro entre diversas entidades, movimentos e indivíduos não-organizados, para a composição de um Bloco de Luta pelo Transporte em Santa Maria. O TrançaRua estará presente, e já está definido que o grupo segue fazendo a cobertura das manifestações populares na cidade.

Conector: O grupo que se formou vai se manter coeso ou conectado em rede?
Atílio: Já estão sendo criados canais virtuais de comunicação e os encontros estão sendo agendados. A tendência é que, impulsionados pela vitória – mesmo que parcial – na ocupação, os movimentos ganhem maior consistência interna e passem a contar cada vez com a adesão de outros grupos. Nas próximas semanas, com certeza, as mobilizações pela democratização do transporte urbano em Santa Maria vão render vários atos – a começar pela Audência Pública agendada sobre a pauta, no dia 05 de julho.

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Todas as fotos: Instagram de Atílio Alencar / Coletivo Trança Rua.

Estamos vivendo uma crise de interface com o usuário

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O conceito de interface com o usuário não é exclusivo das mídias digitais, mas seu significado nessa área está me ajudando a emoldurar mais racionalmente tudo isso aí que está acontecendo. Dentro do design industrial e da computação, a interface com o usuário é todo recurso que permite o diálogo entre a máquina e a pessoa. O mouse do computador é uma interface, bem como a aoarência gráfica dos programas, as telas, botões, menus, tudo aquilo que permite que a gente comande determinado programa. Na internet, a interface de um site é a tradução gráfica de uma montanha interminável de códigos ininteligíveis para a maior parte dos usuários.

Uma interface é crucial para a interação entre as partes e suspeito que o que nos falta, como coletivo nacional, são diversas interfaces em diferentes níveis. Por exemplo, na falência do voto como uma interface com o poder público constituído, restou retomar uma milenar interface política: a rua. As manifestações presenciais no espaço público transformam milhares de pessoas em pixels que se organizam em diversas telas – na TV, na internet, nos visores de câmeras, nas esquadrias das janelas, nas fotos de jornais e revistas. Algumas pessoas, versadas no alfabeto que está sendo usado pelo grupo heterogêneo de manifestantes, compreenderam rapidamente a mensagem consolidada nessa interface. Outras, alheias a uma linguagem que vinha sendo gestada há pelo menos uma década, demoraram ou estão estão demorando a entender.

Claro, o primeiro sinal da ineficiência de uma interface é a perplexidade. Como assim? Onde aperta? Não estou entendendo… O segundo sinal é a impaciência, seguido de perto pelo terceiro, a irritação. Se a situação persiste sem solução, o quarto sinal é a violência. Computadores, caixas eletrônicos e telefones já apanharam muito por conta dos defeitos nas suas interfaces. A interface defeituosa é o diálogo obliterado e um convite à agressividade. A boa interface produz empatia e conduz ao entendimento mútuo.

Existem muitos trabalhos em muitos níveis a serem feitos em interfaces a partir da explosão de manifestações. Existe o nível da política institucionalizada, nos corredores dos três poderes. Existe o nível da discussão teórica, que flana entre as universidades, os institutos, os escritórios particulares de intelectuais, as redações de alguns veículos e os quartos dos articulistas independentes. Existe o nível dos movimentos sociais e suas organizações. Existe as ruas e existe a massa da população debatendo em paradas de ônibus, em bares, nos seus empregos. E existe a internet, o âmbito que até agora tem se provado como o melhor complemento ao trabalho das ruas pela possibilidade congênita e única de replicar a diversidade de anseios e de pontos de vista.

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Luli Radfahrer, em artigo publicado na Folha de São Paulo, destaca a importância da internet na reestruturação do diálogo no país. Bem utilizada, ela é, óbvio, a interface da sociedade em rede. E isso deveria incluir o Governo. A rede não serve apenas para convocar manifestações, compartilhar artigos e passar adiante vídeos e imagens dos protestos. Ela também se presta para duas coisas: estabelecer um canal mais próximo entre Governos e cidadãos e para instituir o choque de transparência que o país precisa. Mas não está sendo utilizada, com raras exceções, para isso. O conceito de dados públicos e de serviços ao cidadão via mídias digitais, na imensa maioria dos casos, naufraga em sites e aplicativos mal projetados, antipáticos e cheios de restrições. Cabe lembrar que não estamos falando de luxos, de brinquedinhos e distrações, mas recursos que poderiam reduzir filas, custos, tempos de espera, número de funcionários públicos e níveis de separação entre Governos e cidadãos.

Em artigo no Globo, Daniel Galera fez um chamado interessante: retornar a publicidade governamental ao seu significado original, que era mais relacionado ao conceito de transparência. As campanhas publicitárias do Governo, hoje, seguem a cartilha do mercado publicitário e funcionam dentro de uma lógica que exige o aporte de milhões de reais para a criação e veiculação de campanhas cuja eficiência, em muitos casos, precisa ser seriamente questionada. É dinheiro público que poderia ser aplicado em outros setores mais urgentes. O escritor propõe que a publicidade oficial deveria se comportar mais como prestação de contas e, eventualmente, como comunicação de conteúdos essenciais. Hoje, ela tem cara (e custo) de venda de produtos industrializados de massa. A meu ver, isso é, em parte, necessidade contextual: o Governo, de fato, concorre pela atenção das pessoas na grande mídia com a Coca-Cola e o Itaú. Mas isso também é, por outro lado, o resultado de um sistema viciado que atende a tantos interesses privados que se torna tabu questionar.

As duas propostas, de Luli e Galera, se complementam. Constrói-se uma nova utopia a guiar nossas reivindicações: com uma estratégia de transparência radical via rede, porém intermediada por interfaces simplificadas e atraentes, os Governos poderiam abrir mão da caríssima publicidade oficial em meios de comunicação de massa. Essa lógica também libertaria o Governo das amarras políticas com os grandes veículos – no Brasil, ser anunciante de porte garante algum poder de barganha no noticiário.

A ideia de unir transparência radical com boas interfaces usando a internet como um canal prioritário de conexão entre Governos e cidadãos se apoia também no papel que a rede está tendo na vida cultural dos brasileiros. Já faz alguns anos que ela está mudando, em alguns casos radicalmente, a forma como as pessoas constróem suas vidas. Já não assistimos futebol e novela como antigamente, não encontramos namorados e namoradas como antigamente, não nos comunicamos com nossas famílias como antigamente, não comparamos preços e compramos como antigamente, não criamos e ouvimos música como antigamente, não vamos ao banco como antigamente… Por que, então, vamos continuar nos relacionando com nossos representantes oficiais como antigamente?

Claro, faço questão de repetir: a proposta (que nem é minha, vem sendo martelada por intelectuais da cultura digital, estou apenas engrossando o coro) tem cara de utopia e exige uma mudança radical de olhar e de cultura. Mas entendo que é pra isso que as pessoas estão indo pra rua. Entendo que eu nem deveria sentar para escrever se fosse para ficar remoendo as velhas soluções.

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Imagens: Kirra Jaminson