O lado mágico de crescer

livrosdamagia

Esse final de semana terminei de ler o volume encadernado dos quatro números que deram origem ao universo Livros da Magia, criado por Neil Gaiman. Aos não-iniciados, um rápido resumo: é uma mini-série que trata da introdução de um garoto de 12 anos, Timothy Hunter, ao vasto mundo da magia através de uma tour guiada por quatro outros personagens de quadrinhos ligados ao misticismo. Aos quatro, que compõem um grupo, cabe não apenas a missão de informar Tim de que ele é algo como um predestinado à magia, como também descortinar as maravilhas e os perigos mortais que o espreitam ao escolher viver como um mago contemporâneo. A mini-série termina sem Tim decidir. Os episódios se fecham, mas não a história. Gaiman é um escritor notório e devidamente reconhecido por sua habilidade na criação de universos ricos, de uma generosidade narrativa sem tamanho. Qualquer um que pegue a trama a partir do final da mini-série tem caminhos de sobra para explorar por toda uma vida.

Livros da Magia, na verdade, é uma história  sobre  ritos de  passagem e sua riqueza está também na forma como inverte a lógica popular que acompanha esse conceito. Em geral, diz-se que a saída da infância e a entrada na vida adulta é um período de desencantamento, de fixar os pés no chão, de abraçar o que é concreto e sólido, de deixar de besteira. Em Livros da Magia, o recado subjacente é virado do avesso. A suposta inocência infantil de Tim é convidada a se retirar não para dar lugar a um mundo compreensível e dominável, muito antes pelo contrário: o crescer é apresentado como uma miríade de reinos que beiram o insano. Entendo que não há nada  de fantasioso nessa  proposição. Pelo que tem me constado, crescer é bem mais parecido com isso do que com a ideia de  desencantamento. Crescer é mágico – não no sentido de um deslumbramento colorido, de fadas madrinhas, poções mágicas e varinhas de condão, mas no sentido de que você se mete em situações mais bizarras do que poderia imaginar quando mais jovem, lida com demônios  assustadores (os seus próprios), se mete em lugares mal assombrados, dá de cara  com ogros por aí – aliás, frequentemente se torna um.

Há seis anos sou padrasto e ano passado me tornei pai. Essas também são experiências mágicas e de uma forma que contraria o clichê que a cultura popular vende de magia. A rotina com um bebê, por exemplo, não é mágica por ser cheia de momentos coloridos e inebriantes e sim porque mexe com energias intensas: quase todos os dias parece  que passou um poltergeist pela casa, volta e meia você se vê coberto por substâncias esquisitas (mais ou menos como retratado em Caça-Fantasmas), objetos somem e se  quebram  sem explicação, pra não falar de todos os deuses e religiões que você invoca quando não quer que a criança acorde. Também é mágico ser praticamente obrigado a desconstruir verdades que você construiu tão dedicadamente, e fazer isso mês após mês, sentindo-se nauseado e meio pirado com a sucessão caleidoscópica de pequenos universos que vão se abrindo – alguns curiosos e cativantes, outros francamente desesperadores.

Enfim, eu sempre penso como é que meus pais criaram três filhos em uma época e em condições bem mais adversas, ou então nos milhões de famílias brasileiras que dão um jeito, a duras penas, de alimentar, educar e cuidar dos seus. Aí, só posso concluir: pra realizar a tarefa mais comum e ordinária nessa terra, que é simplesmente tocar o barco da vida em família, o cara tem realmente que ser mágico.

Pagando por Sexo de Chester Brown

4ulv4tuubl695qfb12ckwrx0v

Lançado no ano passado no Brasil, Pagando por Sexo é um romance-estudo-resportagem-autobiografia no qual o canadense Chester Brown conta detalhadamente como chegou à decisão de se relacionar sexualmente apenas com prostitutas, abandonando a ideia do amor romântico e do “sexo gratuito” como parte inerente de uma relação afetiva. O tema é cabeludo, mas a habilidade de Brown como narrador e ilustrador, já reconhecidas no meio literário, resolve tudo. Além de tornar uma reflexão cultural interessante e divertida, Pagando por Sexo enfileira causos e argumentos (inclusive com uma polpuda bibliografia) para sustentar moralmente e socialmente a escolha de seu autor.

Questões sexuais à parte, o que mais me chamou a atenção no livro foi o fato de Brown ter construído e divulgado formalmente uma via pouco usual de relação com mulheres. Não me interessa discutir os motivos da escolha ou investigar suas emoções, mas sim o fato notável dele ter aberto esse espaço, ainda que isso tenha acontecido em um país como o Canadá, que me parece ser mais tolerante à diversidade. Pagando por Sexo, nesse sentido, é fascinante.

Dias depois, lendo “Cultura, Um Conceito Antropológico” de Roque de Barros Laraia (clique aqui com o botão direito pra baixar em PDF), me deparei com esse parágrafo abaixo. É uma pequena ode à diversidade cultural do ser humano e na hora pensei que descreve bem o que senti lendo Pagando por Sexo:

“Não se pode ignorar que o homem, membro proeminente da ordem dos primatas, depende muito do seu equipamento biológico. Para se manter vivo, independente do sistema cultural ao qual pertença, ele tem que satisfazer um número determinado de funções vitais, como a alimentação, o sono, a respiração, a atividade sexual etc. Mas, embora estas funções sejam comuns a toda humanidade, a maneira de satisfazê-las varia de uma cultura para outra. É esta grande variedade na operação de um número tão pequeno de funções que faz com que o homem seja considerado um ser predominantemente cultural.”

Não se deveria cobrar de todos que aceitem ou apreciem a diversidade. Contemplá-la como fato já seria um belo começo.

Jerusalem por Guy Delisle

O trabalho do Guy Delisle é parecido com o passaporte dele. Em ambos os casos, estamos falando de páginas ilustradas (com carimbos ou desenhos) que revelam a trajetória de um globetrotter quase por acaso. A editora Zarabatana publicou no Brasil os incríveis diários de viagem de Delisle sobre a Coréia do Norte, China (as duas como diretor de animação) e  Burma (acompanhando sua esposa, que trabalha no Médico Sem Fronteiras). Em breve, vai ser a vez do esforço mais recente desse cartunistas e animador canadense, que andou passando um ano em Israel e cujo resultado de viagem é mais uma vez um volume de sensibilidade artística e humor únicos.

Quem já passeou por Pyongyang, Shenzen e por diversas regiões de Burma na companhia de Delisle sabe que não se pode esperar de Jerusalem – Chronicles from the Holy City, o jornalismo histórico-investigativo de Joe Sacco. Embora a primeira associação dessa região com quadrinhos pudesse levar nessa direção, o que nós testemunhamos nesse caso é o cotidiano de um cartunista expatriado tentando manter seu caderninho de sketches e ministrando workshops enquanto mantém a logística doméstica em um país conflagrado (Guy e Nadége tem dois filhos que costumam ir junto nas viagens). E, surpresa, a ausência de um mergulho documental e profundo no dna problemático do oriente médio não priva o livro de levantar questionamentos políticos e reflexões morais.

Pelo contrário. São justamente as tarefas cotidianas (ir ao supermercado, levar as crianças na escolinha, comprar um carro usado) que, colocadas contra o pano de fundo palestino-israelense, revelam os pontos nevrálgicos de uma região marcada pela tensão constante: o engarrafamento na ida pra escola dos filhos é devido a um problema em um checkpoint militar; a babá chega em casa de olhos vermelhos porque sua casa vai ser demolida pelo governo israelense; e assim por diante.

Elegante e lúdico, o traço de Delisle serve também para enganar olhos destreinados. Enquanto vai cativando o leitor com vinhetas divertidas do dia-a-dia e com sketches de locais históricos, um painel bastante rico da questão israelense-palestina vai sendo composto. No fim das trezentas e tantas páginas, o leitos se divertiu, se deleitou e também compartilhou um pouco de uma outra visão de mundo.

 

Pra fechar, bato mais uma vez na tecla do valor que tem esses diários de viagem em quadrinhos. Como escrevi já anteriormente, eles trazem uma particularidade em relação a diários escritos ou fotografados por serem a soma de decisões e atenções do olhar do cartunista. No caso, como estamos falando de um artista de reconhecida sensibilidade, quanto mais particular esse olhar – me desculpe o clichê – também mais universal.

***

Repetindo: Jerusalém em breve estará à venda em português no Brasil. Fique ligado no site da Zarabatana Books, onde você encontra os outros livros de Delisle.

Mais um link: este é o site do canandense, onde você encontra também um blog com posts em francês e rascunhos constantes.

Por último, eu venho escrevendo de vez em quando sobre quadrinhos autobiográficos ou jornalísticos. Aqui vai uma pequena lista:

Exit Wounds de Rutu Mondam e Notas sobre Gaza de Joe Sacco. O primeiro, Exit Wounds, traz uma rara visão de uma quadrinista israelense dos conflitos da área.
The Quitter do Harvey Pekar
Jefrey Brown
Lucy Knisley
Josh Neufeld
David B.
Dash Shaw
Liniers
– Alison Bechdel (aqui e aqui).
Guy Deslile

…e…

Cachalote, que não é propriamente autobiográfico, mas vou botar aqui.

Aqui vai o link pra meus posts sobre quadrinhos.

The Mindscape of Alan Moore – legendado

Fácil assim: é dar o play e se deleitar com os 77 minutos de monólogo de um dos grandes nomes da nossa era. Contador de histórias nato, hábil agregador de conteúdo, Moore começa pelos fatos da sua infância e chega até a uma linda explicação sobre por que considera a si mesmo (e todos os artistas e inclusive os publicitários) um mago. A partir daí, vira uma salada de frutas artística-esotérica-científica – mas que salada de frutas, meus amigos! Que salada de frutas!

Enquanto assistia a esse vídeo, me senti privilegiadíssimo por ter lido Watchmen em 1988, com 14 anos, na oitava série. A minha ida até a banca do outro lado da rua do colégio pra comprar o primeiro número está marcada na minha mente.  Sabe-se lá que tipo de cozido essa leitura fez no meu cérebro naquela idade, mas sem dúvida eu só tenho a agradecer.

No coração das tréva!

O Brasil República mal completava 30 anos quando o jornalista Ulisses de Araújo foi enviado aos grotões de Minas Gerais pra cobrir a convulsão social gerada por um grupo de bandoleiros. Os relatos misturavam histórias de saques e violência com fortes teorias de associação com o demônio – só isso explicaria a crueldade e a suposta invencibilidade do líder do bando, Antonio Mortalma. Mas, na medida em que Ulisses vai penetrando o Estado e as diversas camadas de informações desconexas fornecidas por autoridades, religiosos e cidadãos, um quebra-cabeças mais complexo vai se montando. Mortalma, na verdade, é apenas um dos vértices de uma disputa maior e mais virulenta entre ele, outro bandoleiro chamado Manoel Grande e o lado da lei, representado pelo Coronel Odorico Pereira.

Num primeiro olhar, então, o fio condutor de Estórias Gerais parece cobrir o processo de formalização da república brasileira, o trabalho de levar a lei onde não há lei. Mas claro que mesmo os quadrinhos em preto & branco não são em preto & branco e à medida em que avançamos na leitura vamos acompanhando, pelos olhos de Ulisses, a descoberta dos fundamentos humanos que regem as estruturas & as batalhes de poder. São questões, então, estruturais e que persistem até hoje. A história se passa em 1920 mas tem todos os ingredientes do noticiário atual. Poderia muito bem se estar falando da atuação das milícias nas comunidades cariocas ou dos bandos endemoniados que agem no Senado e no Congresso. Muda o tom e a cor da novelinha, mas os elementos são estritamente os mesmos.

Por outro lado, a investigação de Ulisses também é interna e não apenas externa. Essa noção me veio quando lembrei do comentário de um amigo sobre a história de Apocalipse Now (e calcada no romance “O Coração das Trevas” de Joseph Conrad). Segundo ele, há uma leitura que olha a essência de ambas as obras como uma viagem interior disfarçada de aventura exterior. Assim como no filme a trajetória do Capitão Willard rumo ao coração do Camboja pra resolver a insanidade do Coronel Kurtz poderia ser comparada à imersão que muitas pessoas fazem em seu próprio “coração das trevas”, em Estórias Gerais a viagem ao interior do Brasil pelo jornalista Ulisses pode também ser lida como uma investigação da alma brasileira, da linha nacional que separa barbárie e civilidade. E aí está se falando tanto a linha externa, no âmbito social, quando a interna, que se funda no âmbito psíquico (do coletivo ou de cada indivíduo).

Ficou complicado? É culpa minha que viajei na análise, porque Estórias Gerais é simplesmente Guimarães Rosa com Francis Ford Coppola, um livro direto, vigoroso e dinâmico, sublimemente roteirizado por Wellington Srbek (aliás, um dos melhores roteiros de HQ que já li) e divinamente desenhado, uma delícia de ler. Tem um ritmo e uma habilidade no contar da história que servem de plataforma pra arte minimalista e exuberante (sim, adjetivos aqui não excludentes) de um grande mestre dos quadrinhos, o Flávio Colin. Ou seja, não estamos falando de “mais uma graphic novel”, mas sim de um trabalho que atravessa gêneros e culturas, que diverte, instrui, chacoalha e faz pensar, cumprindo integralmente a ambição de uma forma maior de arte pop.

***

Estórias Gerais saiu em 2001 em edição limitada e foi relançada em 2007 em formato mais amplo e comercial pela Conrad. Compre lá.

Os dois lados da moeda

Dois toques rápidos sobre quadrinhos de não-ficção e graphic novels.

Quem acompanha esse mundo já vem convivendo há alguns anos com o dia-a-dia atribulado dos refugiados palestinos, cortesia do respeitável trabalho jornalístico de Joe Sacco. O cartunista americano-maltês tem retratado o conflito entre Israel e Palestina com talento e sensibilidade únicos, abrindo feridas e colocando o resto do mundo dentro da casa e da alma de gente que toma na cabeça praticamente todos os dias.

Mas, raramente temos um vislumbre, nessa mesma linha, do cotidiano do outro lado do muro. Por diversos motivos que não cabem a mim explorar, a vida de figuras ordinárias em Israel acaba chegando aqui mais ou menos da mesma forma rasa e superficial que a imagem esteriotipada do desespero e da revolta palestina. É aí que entra Exit Wounds.

A graphic novel da quadrinista israelense Rutu Mondam cobre justamente a vida de um jovem taxista de Tel Aviv – e quando ela é atravessada por fragmentos da guerra. O encontro com uma também jovem oficial do exército traz novidades relacionadas ao paradeiro do pai desaparecido do tal taxista. O que houve? Ele sumiu? Morreu num atentado? As perguntas e as respostas não são simples. Elementos como o exército israelense, atentados sucididas, pessoas desaparecidas e a tensão constante da guerra se alinham com temas como família, amor e solidão. Nesse sentido, Exit Wounds traz bem menos desespero, pobreza e destruição explícitas do que as histórias de Joe Sacco. Mas isso não faz dela, em nenhum momento, menos humana.

Então, é simples: gosta de graphic novel, gosta de Joe Sacco, gosta de um pouco de romance contado de forma inusitada, manda ver em Exit Wounds.

Um lembrete, algo que já escrevi aqui: ler esse tipo de história especificamente EM QUADRINHOS sempre oferece uma dimensão extra à narrativa. Nos desenhos, temos acesso a todo um âmbito visual que é fruto de estilo e escolhas pessoais, o que coloca no relato mais profundidade e personalidade.

Outra nota: tem uma edição da Drawn & Quarterly de Exit Wounds que vem com uma entrevista da Rutu Modan feita por ninguém menos que o próprio Joe Sacco.

Última: vale dar uma olhada no blog da Rutu Modam no New York Times.

Não vou me debruçar demais em cima de Notas sobre Gaza, que terminei de ler esse fim de semana. Então vamos rapidamente e direto ao assunto: quem curte Joe Sacco vai certamente abraçar com gosto esse volumão. Mas vale avisar: não é bem mais do mesmo. É um trabalho diferente de, por exemplo, Palestina ou Gorazde. Bem menos dinâmico e mais investigativo, aqui Sacco foca todo seu poder de fogo em um massacre ocorrido na Faixa de Gaza em 1956. O livro é igualmente o resultado e o relato dessa investigação, uma vez que o autor divide com o leitor seu esforço em espremer a verdade de exaustivas entrevistas pessoais que são equilibradas com documentos oficiais. Uma aula de história, jornalismo investigativo, quadrinhos e, sem dúvida, humanismo.

***

Atenção: volta e meia o Submarino anda fazendo promoções dos livros dele.

Laerte

Não sei se vocês notaram, mas o Laerte vem prestando um serviço de valor inestimável pro nosso país. Não, eu não estou falando dele assumir publicamente o fato de usar/desfrutar/curtir roupas femininas. O que eu acho mais fundamental é a FORMA como ele vem fazendo isso na mídia, com uma mistura de clareza, firmeza e ternura que raramente se vê em quem está tentando alargar um pouco os horizontes dos costumes sociais.

Às vezes sinto que falta no ativismo social um pouco desse jogo de cintura, dessa paciência em explicar, dessa tolerância para com a dificuldade do outro em compreender novos paradigmas. Em certos momentos, quem quer defender a justiça social parece que vira ditador: tome porrada em quem deu porrada em sem teto, dê-lhe linchamento em quem maltratou cachorro, corte-se a cabeça dos políticos corruptos! É muito sangue nos olhos e daí não dá pra enxergar direito.

Por isso, vejo em Laerte um exemplo a ser seguido nesse sentido bem específico. Empurrar os limites com menos belicismo é mais uma das artes que ele está executando tão bem.

***

Mistura finíssima: Laerte + Pereio no Sem Frescura.