Power Paola

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Romances autobiográficos salpicados de detalhes íntimos picantes da vida do autor e de sua família não são exatamente uma novidadade no mundo dos quadrinhos desde o advento de Robert Crumb. Mas começar uma carreira nesse nicho com um livro cuja primeira imagem da história, ocupando a página inteira, traz os pais da autora trepando, mais especificamente concebendo-a, bem, pode ter certeza que algum tipo de marca específica essa autora deve deixar no nicho estético que escolheu habitar.

Virus Tropical, da colombiana-equatoriana Power Paola, simultanemanente se insere e se destaca na linhagem dos grandes romances gráficos autobiográficos. Distanciada anos-luz dos perigos de transformar sua vida desenhada em uma espécie de “Meu Querido Diário”, o maior pecado desse setor, o que Power Paola faz é pegar um gênero já amadurecido e bastante exercitado sob a ótica dos anglo-saxões e adicionar uma dose saudável e fundamental de tempero latino. Nesse sentido, diferente dos seus pares norte-americanos, canandenses e europeus, Virus Tropical examina as relações familiares de Paola como entranhas vivas e presentes, não como elementos de uma equação a ser retratada, analisada e discutida cientificamente. Para os que acompanham o gênero, é impossível não comparar Virus Tropical com Umbigo Sem Fundo, de Dash Shaw ou Fun Home de Alisson Bechdel e perceber como a latitude influencia na perspectiva do quanto a vida em família inluencia na construção da nossa identidade.

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Paola nasceu em Quito, Equador, de uma gravidez inesperada. Sua mãe havia ligado as trompas mas ainda assim engravidou. O primeiro médico que examinou a Sra. Gaviria não acreditava na situação e deu seu veredito: “É impossível que esteja grávida. Deve ser um vírus tropical”. Assim, ela se tornou a quarta mulher de uma casa cujo único homem era o pai, sacerdote de uma igreja e claramente um coadjuvante – de uma ausência influente, mas ainda assim coadjuvante em relação ao eixo matriarcal construído com muito suor pela mãe de Paola. A partir dessa constituição básica se desenrolam os dramas cotidianos e absolutamente comuns: a separação dos pais, a rica interação entre irmãs de mesmo sexo porém de idades bem diferentes, a luta da Sra. Gaviria para manter o núcleo familiar minimamente unido e funciona. Em resumo, Virus Tropical é uma crônica muitíssimo bem construída sobre a difícil arte de tocar o barco nos mares do sul, onde a subsistência, a religião, o espaço urbano conturbado e os laços consanguíneos ganham papéis importantes na nossa narrativa pessoal.

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O traço de Paola é uma atração à parte. Declaradamente influenciado por Julie Doucet, o estilo rudimentar, um tanto quanto infantil, engana. As páginas tem ritmo, os cenários são ricos, o foco de ação é sempre claro. É a linguagem dos antigos fanzines punk usada para contar de forma crua e direta uma história bonita e cheia de amor.

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Virus Tropical ainda não saiu no Brasil, mas vocês podem pedir para o Liniers que está essa semana em Porto Alegre para o FestPoa Literária. Foi a editora dele que lançou o livro na Argentina.

Pra saber mais sobre Power Paola:

* Blog Power Paola.

* Blog La Poderosa.

* Flickr Power Paola – não deixe de visitar, tem muita coisa bacana.

* Entrevista ilustrada com Power Paola.

* O que mais escrevi sobre Liniers ou a Editorial Comun.

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Nos últimos anos, eu venho escrevendo de vez em quando sobre quadrinhos autobiográficos ou jornalísticos. Aqui vai uma pequena lista:

Pagando por Sexo de Chester Brown.

Exit Wounds de Rutu Mondam e Notas sobre Gaza de Joe Sacco. O primeiro, Exit Wounds, traz uma rara visão de uma quadrinista israelense dos conflitos da área.
The Quitter do Harvey Pekar
Jefrey Brown
Lucy Knisley
Josh Neufeld
David B.
Dash Shaw
Liniers
– Alison Bechdel (aqui e aqui).
Guy Delisle

Pagando por Sexo de Chester Brown

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Lançado no ano passado no Brasil, Pagando por Sexo é um romance-estudo-resportagem-autobiografia no qual o canadense Chester Brown conta detalhadamente como chegou à decisão de se relacionar sexualmente apenas com prostitutas, abandonando a ideia do amor romântico e do “sexo gratuito” como parte inerente de uma relação afetiva. O tema é cabeludo, mas a habilidade de Brown como narrador e ilustrador, já reconhecidas no meio literário, resolve tudo. Além de tornar uma reflexão cultural interessante e divertida, Pagando por Sexo enfileira causos e argumentos (inclusive com uma polpuda bibliografia) para sustentar moralmente e socialmente a escolha de seu autor.

Questões sexuais à parte, o que mais me chamou a atenção no livro foi o fato de Brown ter construído e divulgado formalmente uma via pouco usual de relação com mulheres. Não me interessa discutir os motivos da escolha ou investigar suas emoções, mas sim o fato notável dele ter aberto esse espaço, ainda que isso tenha acontecido em um país como o Canadá, que me parece ser mais tolerante à diversidade. Pagando por Sexo, nesse sentido, é fascinante.

Dias depois, lendo “Cultura, Um Conceito Antropológico” de Roque de Barros Laraia (clique aqui com o botão direito pra baixar em PDF), me deparei com esse parágrafo abaixo. É uma pequena ode à diversidade cultural do ser humano e na hora pensei que descreve bem o que senti lendo Pagando por Sexo:

“Não se pode ignorar que o homem, membro proeminente da ordem dos primatas, depende muito do seu equipamento biológico. Para se manter vivo, independente do sistema cultural ao qual pertença, ele tem que satisfazer um número determinado de funções vitais, como a alimentação, o sono, a respiração, a atividade sexual etc. Mas, embora estas funções sejam comuns a toda humanidade, a maneira de satisfazê-las varia de uma cultura para outra. É esta grande variedade na operação de um número tão pequeno de funções que faz com que o homem seja considerado um ser predominantemente cultural.”

Não se deveria cobrar de todos que aceitem ou apreciem a diversidade. Contemplá-la como fato já seria um belo começo.

Jerusalem por Guy Delisle

O trabalho do Guy Delisle é parecido com o passaporte dele. Em ambos os casos, estamos falando de páginas ilustradas (com carimbos ou desenhos) que revelam a trajetória de um globetrotter quase por acaso. A editora Zarabatana publicou no Brasil os incríveis diários de viagem de Delisle sobre a Coréia do Norte, China (as duas como diretor de animação) e  Burma (acompanhando sua esposa, que trabalha no Médico Sem Fronteiras). Em breve, vai ser a vez do esforço mais recente desse cartunistas e animador canadense, que andou passando um ano em Israel e cujo resultado de viagem é mais uma vez um volume de sensibilidade artística e humor únicos.

Quem já passeou por Pyongyang, Shenzen e por diversas regiões de Burma na companhia de Delisle sabe que não se pode esperar de Jerusalem – Chronicles from the Holy City, o jornalismo histórico-investigativo de Joe Sacco. Embora a primeira associação dessa região com quadrinhos pudesse levar nessa direção, o que nós testemunhamos nesse caso é o cotidiano de um cartunista expatriado tentando manter seu caderninho de sketches e ministrando workshops enquanto mantém a logística doméstica em um país conflagrado (Guy e Nadége tem dois filhos que costumam ir junto nas viagens). E, surpresa, a ausência de um mergulho documental e profundo no dna problemático do oriente médio não priva o livro de levantar questionamentos políticos e reflexões morais.

Pelo contrário. São justamente as tarefas cotidianas (ir ao supermercado, levar as crianças na escolinha, comprar um carro usado) que, colocadas contra o pano de fundo palestino-israelense, revelam os pontos nevrálgicos de uma região marcada pela tensão constante: o engarrafamento na ida pra escola dos filhos é devido a um problema em um checkpoint militar; a babá chega em casa de olhos vermelhos porque sua casa vai ser demolida pelo governo israelense; e assim por diante.

Elegante e lúdico, o traço de Delisle serve também para enganar olhos destreinados. Enquanto vai cativando o leitor com vinhetas divertidas do dia-a-dia e com sketches de locais históricos, um painel bastante rico da questão israelense-palestina vai sendo composto. No fim das trezentas e tantas páginas, o leitos se divertiu, se deleitou e também compartilhou um pouco de uma outra visão de mundo.

 

Pra fechar, bato mais uma vez na tecla do valor que tem esses diários de viagem em quadrinhos. Como escrevi já anteriormente, eles trazem uma particularidade em relação a diários escritos ou fotografados por serem a soma de decisões e atenções do olhar do cartunista. No caso, como estamos falando de um artista de reconhecida sensibilidade, quanto mais particular esse olhar – me desculpe o clichê – também mais universal.

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Repetindo: Jerusalém em breve estará à venda em português no Brasil. Fique ligado no site da Zarabatana Books, onde você encontra os outros livros de Delisle.

Mais um link: este é o site do canandense, onde você encontra também um blog com posts em francês e rascunhos constantes.

Por último, eu venho escrevendo de vez em quando sobre quadrinhos autobiográficos ou jornalísticos. Aqui vai uma pequena lista:

Exit Wounds de Rutu Mondam e Notas sobre Gaza de Joe Sacco. O primeiro, Exit Wounds, traz uma rara visão de uma quadrinista israelense dos conflitos da área.
The Quitter do Harvey Pekar
Jefrey Brown
Lucy Knisley
Josh Neufeld
David B.
Dash Shaw
Liniers
– Alison Bechdel (aqui e aqui).
Guy Deslile

…e…

Cachalote, que não é propriamente autobiográfico, mas vou botar aqui.

Aqui vai o link pra meus posts sobre quadrinhos.

Os dois lados da moeda

Dois toques rápidos sobre quadrinhos de não-ficção e graphic novels.

Quem acompanha esse mundo já vem convivendo há alguns anos com o dia-a-dia atribulado dos refugiados palestinos, cortesia do respeitável trabalho jornalístico de Joe Sacco. O cartunista americano-maltês tem retratado o conflito entre Israel e Palestina com talento e sensibilidade únicos, abrindo feridas e colocando o resto do mundo dentro da casa e da alma de gente que toma na cabeça praticamente todos os dias.

Mas, raramente temos um vislumbre, nessa mesma linha, do cotidiano do outro lado do muro. Por diversos motivos que não cabem a mim explorar, a vida de figuras ordinárias em Israel acaba chegando aqui mais ou menos da mesma forma rasa e superficial que a imagem esteriotipada do desespero e da revolta palestina. É aí que entra Exit Wounds.

A graphic novel da quadrinista israelense Rutu Mondam cobre justamente a vida de um jovem taxista de Tel Aviv – e quando ela é atravessada por fragmentos da guerra. O encontro com uma também jovem oficial do exército traz novidades relacionadas ao paradeiro do pai desaparecido do tal taxista. O que houve? Ele sumiu? Morreu num atentado? As perguntas e as respostas não são simples. Elementos como o exército israelense, atentados sucididas, pessoas desaparecidas e a tensão constante da guerra se alinham com temas como família, amor e solidão. Nesse sentido, Exit Wounds traz bem menos desespero, pobreza e destruição explícitas do que as histórias de Joe Sacco. Mas isso não faz dela, em nenhum momento, menos humana.

Então, é simples: gosta de graphic novel, gosta de Joe Sacco, gosta de um pouco de romance contado de forma inusitada, manda ver em Exit Wounds.

Um lembrete, algo que já escrevi aqui: ler esse tipo de história especificamente EM QUADRINHOS sempre oferece uma dimensão extra à narrativa. Nos desenhos, temos acesso a todo um âmbito visual que é fruto de estilo e escolhas pessoais, o que coloca no relato mais profundidade e personalidade.

Outra nota: tem uma edição da Drawn & Quarterly de Exit Wounds que vem com uma entrevista da Rutu Modan feita por ninguém menos que o próprio Joe Sacco.

Última: vale dar uma olhada no blog da Rutu Modam no New York Times.

Não vou me debruçar demais em cima de Notas sobre Gaza, que terminei de ler esse fim de semana. Então vamos rapidamente e direto ao assunto: quem curte Joe Sacco vai certamente abraçar com gosto esse volumão. Mas vale avisar: não é bem mais do mesmo. É um trabalho diferente de, por exemplo, Palestina ou Gorazde. Bem menos dinâmico e mais investigativo, aqui Sacco foca todo seu poder de fogo em um massacre ocorrido na Faixa de Gaza em 1956. O livro é igualmente o resultado e o relato dessa investigação, uma vez que o autor divide com o leitor seu esforço em espremer a verdade de exaustivas entrevistas pessoais que são equilibradas com documentos oficiais. Uma aula de história, jornalismo investigativo, quadrinhos e, sem dúvida, humanismo.

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Atenção: volta e meia o Submarino anda fazendo promoções dos livros dele.

El Jardin Armado, David B.

O David B. já tinha dado a dica. Na sua já clássica graphic novel autobiográfica, Epilético, as batalhas medievais apareciam como fertilizantes pra imaginação e impulso artístico desde a infância do autor. Tamanha foi essa influência que a história da família Beauchard acabou retratada, de fato, como uma longa cruzada em busca da cura e redenção da epilepsia do irmão de David.

Desta vez, em El Jardim Armado y Otras Historias, as batalhas são o mote principal dos três contos criados e ilustrados pelo cartunista francês. Flutuando com elegância entre história e mito, David B. nos leva a lugares como a Pérsia no século VIII, em pleno califado de Harun Al Rashid (de Mil e Uma Noites) e Praga no século XVI. Em cenários de disputas territoriais, políticas e, sobretudo, religiosas, se desdobram episódios que promovem o encontro de três forças: os governantes e seu poderio militar, o homem comum em busca do paraíso e seres místicos que encaminham ou desencaminham conforme alguma lógica não-aparente.

Não se engane com meu palavreado ou com a minha descrição barroca: as páginas de David B. fluem como uma mãe lendo um conto de fadas na beira da cama à noite. Não há compromisso excessivo com o rigor histórico. A arte é primorosa e agradável. Tudo que temos que fazer é sentar confortavelmente, abrir o livro e deixar símbolos universais fazerem o seu habitual trabalho.

O livro saiu em espanhol pela Editoral Sin Sentido. E tem também em inglês na Amazon.

Ah: quem curtiu Persépolis vai certamente encontrar alguma afinidade com El Jardim Armado. Embora o trabalho do David B. não seja, neste caso, autobiográfico, o sabor do oriente médio está presente. Vai sem medo.

The Quitter, Harvey Pekar

Nos últimos dois anos tenho escrito com frequência sobre quadrinhos de jeitão autobiografico, sejam relatos de viagem, sejam simples fatias do cotidiano servidas individualmente ou em narrativas mais complexas. Esta cepa, cada vez mais rica em opções para quem quer variar um pouco do universo de heróis uniformizados ou de historias fantásticas, não nasceu ontem e nem vem do nada. Na verdade, ela tem uma linhagem clara de autores e, na base deste cânone, um dos pilares leva o nome de Harvey Pekar.

Verdadeiro muso do underground, Pekar ficou conhecido fora do seu círculo natural em 2003* devido à passagem de American Splendor pelo circuito alternativo de cinema. Premiado em Cannes e Sundance, o filme é um primor da metalinguagem, mesclando um pouco de filmagem documental com a escultura narrativa que todos nós fazemos (verbalmente ou mentamente) com a nossa vida. A única diferença é que Harvey transformava o material em (bons) roteiros de quadrinhos.

Boa parte da vida de Pekar poderia ser a vida de qualquer um. Mesmo numa cultura específica, sendo um jovem judeu americano num bairro pobre de Cleveland nos anos 50, a maioria dos dilemas que brotam das páginas dessa excelente Graphic Novel são de fácil identificação. The Quitter (que poderia ser traduzido como “O Desistente”) relata as repetidas e fracassadas tentativas do protagonista de criar um eixo para sua vida em torno dos esportes, da universidade e da carreira profissional. Vez após vez, ele desiste de caminhos relativamente retos quando encontra obstáculos universais (pais distantes, vizinhança inóspita, solidão adolescente, trabalhos tediosos). Atormentado por inseguranças e construindo involuntariamente a crença em sua displicência, Pekar vai se descobrindo bom em uma coisa: desistir das coisas.

Ao menos o que se convenciona de chamar de “coisas” na competitiva sociedade americana. Enquanto ia enfileirando empregos burocráticos, Harvey semeava uma vida paralela à base de boemia cultural leve, reviews não pagos para revistas de jazz e, mais adiante, roteiros inovadores para quadrinhos underground. Contemporâneo e parceiro de Robert Crumb (outro mestre da mesma linhagem), a descoberta da vocação não trouxe fama e fortuna, mas ao menos contradisse a “maldição do desistente”.

Não dá pra desprezar a dor e o drama de Harvey Pekar, mas de certa forma ele enganou a todos nós. Em primeiro lugar, pintou sua imagem como “desistente”, quando no fim das contas se engajou em algo realmente significativo. Em segundo, parecia escrever quadrinhos de não-ficção, mas contar a própria história é sempre um exercício ficcional. Por fim, costumava desprezar revistas de homens em uniformes coloridos combatendo gênios do mal. Mas, ao lutar contra seus demônios e fantasmas, ao encerrar uma graphic novel pedindo aprovação geral e dinheiro para pagar as contas, o que ele faz em “The Quitter” é mostrar um outro significado – talvez mais verdadeiro – para a palavra super-herói.

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Mais algumas notas.

1. De primeira, eu torci o nariz para a arte do Dean Haspiel. Não sou muito fã desse traço estilizado e anguloso. Mas, aos poucos, fui percebendo o MEU olhar superficial e percebendo a profundidade dos quadros, os enquadramentos, a estética e o ritmo que o cara imprime: é coisa finíssima.

2. Antes do lançamento do American Splendor em filme, o Harvey Pekar teve um período curto de celebridade televisiva ao participar de oito programas do David Letterman. Como ele era muito ácido e falou mal da proprietária do canal NBC, acabou cortado do programa, conforme ele mesmo contou ao Douglas Rushkoff. A história aparece nessa série de quadrinhos online da Smith.

Jeffrey Brown

Numa rápida folheada, o que mais chama a atenção em um livro do Jeffrey Brown são aspectos que provavelmente vão afastar a maior parte das pessoas. Afinal, estamos falando de 1) quadrinhos 2) autobiográficos 3) desenhados toscamente, uma combinação que não fica em pé na sua estante ou na sua memória a menos que 1) o cara seja muito bom contador de histórias e 2) os desenhos toscos sejam mera fachada.

Esse é o golpe ao contrário de Jeffrey Brown que, de fato, me enganou direitinho. Não fosse minha mulher, que nem é fã de quadrinhos mas que teve a sensibilidade de comprar dois livretos dele, eu não teria ultrapassado esse esquisito pedágio estético e não teria tido 3 das leituras mais bacanas dos últimos tempos.

Vamos começar por Clumsy, primeiro livro publicado por Brown e também o primeiro que eu li dele. Curiosamente, também é o tipo de livro do qual eu fujo: cansei de quadrinhos sobre caras desajeitados (uma das traduções pra clumsy) e suas desventuras sentimentais. Mas, por algum motivo, Clumsy me prendeu do início ao fim e nem tanto porque eu queria saber o fim da história (o rompimento da relação de Brown com uma namorada à distância, anunciado logo de cara) nem tampouco porque eu precisasse ir até o fim para terminar a narrativa (Clumsy é uma coleção de pequenas cenas cotidianas).

O grande atrativo do Clumsy (e, na verdade, também dos outros dois livros dele que eu li) é a sensibilidade de Brown pra escolher a dedo que momentos da vida privada rendem uma cena interessante. Em uma época em que o escangalhamento da privacidade é regra, se torna ainda mais difícil criar narrativas a partir de momentos privados, já que muita gente passou a acreditar que todo momento privado fosse naturalmente uma narrativa. É aí que entra o treinamento exaustivo a que o autor se submeteu.

Em Funny Misshapen Body, Brown deixa de focar apenas sua vida sentimental pra nos entregar fartas e bem servidas sequências de sua formação. Lá descobrimos que ele se alimentou durante anos de uma dieta consistente de quadrinhos, começando com os super heróis mas passando, mais adiante, para a seara das graphic novels independentes. Nomes como Chris Ware e Daniel Clowes são frequentemente citados e, no caso de Ware, ele mesmo é personagem de algumas historietas deste volume: o respeitado autor de Jimmy Corrigan é quem dá o primeiro empurrão na carreira de quadrinista de Brown, orientando o rapaz a investir na autopublicação de Clumsy depois de repetidas rejeições editoriais.

Isso é bacana: após acompanharmos o autor em momentos de sua infância, da vida na escola, da escolha pela educação formal em arte (tô dizendo que esses desenhos toscos são só pra nos enganar…), pelos seus clássicos subempregos de Geração X e até por alguns relacionamentos, o livro termina com a história da concepção e publicação de Clumsy, o primeiro livro. Algum ciclo certamente se fecha aí.

O título Funny Misshapen Body é inspirado em grande parte na doença crônica de intestinos que acompanha Brown num bom pedaço da sua vida até então. Essa passagem é ao mesmo tempo exercício e prova do talento do cartunista: transformar um episódio médico de intestinos em algo a ser acompanhado exige mais do que meia dúzia de câmeras escondidas e uma audiência adestrada no mundo dos reality shows. É preciso, de fato, ter o olhar detalhista que revela (ou induz) as nuances escondidas no cotidiano mais intragável. Não estamos falando de um mero relato, mas quase de um trabalho de escultura, de retirar os excessos e deixar o essencial, tanto em termos verbais quanto visuais.

Little Things pende mais para Body do que para Clumsy. Continuam, aqui e ali, as aventuras sentimentais, mas está mais para uma coleção de fatias (como diz o subtítulo) da vida cotidiana. Apesar de ser mais do mesmo, é um pouco como Ramones: se você curte o jeito como ele resolve as coisas no papel (que não deixa de ser meio Ramones, à base do 1-2-3-4), não é enjoativo.

A história que fecha Little Things, assim como em Body, também é simbólica. Deixando pra trás os rolos de relacionamento, as doenças crônicas, as viagens de acampamento e a vida de gerente de loja de CD pra dar as primeiras pinceladas da paternidade. De novo, o tema de concepção fecha um volume do autor. Não sei dizer se esse padrão se repete no resto da obra, mas assim que eu for voltando aos livros de Brown, o que pretendo fazer aos poucos, vou contando pra vocês.

Deixo aqui, então, mais essa indicação dessa tecla que tenho insistido em bater: quadrinhos de não-ficção. Em temos de investigação endêmica da vida alheia, como já disse, por meio de reality shows e redes sociais, é bacana ver uma abordagem que se insere nesse traço forte da cultura contemporânea conseguindo fugir da vulgaridade. Ou seja, não precisamos negar nossa inserção no zetgeist, no espírito do tempo, e nem precisamos chafurdar na superficialidade.

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Algumas notas finais.

A produção de Brown é relativamente grande. Não deixe de dar uma olhada na página dedicada a ele na Amazon ou, se preferir, compre direto nas editoras. O site do autor tem os links.

Ele inclusive já publicou material de ficção e humor, fora do escopo das próprias memórias. Mas esses, confesso, ainda não conheço.

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Cheguei no trabalho do Jeffrey Brown de um jeito muito bacana e meio do avesso. Em outubro, eu e minha mulher estávamos em Montreal (ainda sai um post sobre a cidade) quando encontramos por acaso (juro) a loja da Drawn & Quaterly, uma das mais importantes editoras de quadrinhos independentes do mundo, uma espécie de Fantagraphics menorzinha e canadense. Lamentavelmente, me esqueci de tirar uma foto na frente da loja.

Bem, na primeira esbarrada com a D&Q, fizemos uma visita rápida pois nossa caminhada tinha outros objetivos e também tinha tanta coisa pra comprar que fiquei meio tonto e não gosto de comprar nada logo de cara. Alguns dias depois, voltamos lá dedicados a explorar a loja de fato e saímos com duas sacolas de material muito bom. Foi lá que comprei, por exemplo, o French Milk e o New Orleans After the Deluge, já comentados aqui.

Minha mulher, que não é tão fã de quadrinhos, também fez seu pequeno rancho e levou dois pequenos livros do Jeffrey Brown, além de um outro álbum bacana que ainda não li e que certamente será comentado aqui em breve. Devo a ela a descoberta. É como se eu, inapto para o mundo gourmet, tivesse apresentado um bom restaurante a ela, que domina os prazeres da mesa.

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Se você também curte quadrinhos, explore a categoria LIVROS do blog. Eu não faço distinção entre livros “escritos” e livros “desenhados”. Pra mim é tudo LIVROS.