Por que Richard Dawkins pisou na bola ao sugerir o aborto de fetos com Síndrome de Down

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No último dia 20 de agosto, o cientista inglês Richard Dawkins, célebre defensor do pensamento científico racional, do evolucionismo e do ateísmo, causou uma onda de revolta na internet após publicar na sua conta do Twitter uma resposta a uma seguidora que soou a muitos ouvidos como uma declaração eugenista, de alguém que prefere eliminar da face da Terra seres humanos com defeitos congênitos. Durante um diálogo travado diretamente na rede social, a seguidora de Dawkins comentou, citando-o, que não saberia o que fazer se descobrisse que estava carregando na barriga um feto com Síndrome de Down. Dawkins respondeu, também citando-a: “Aborte e tente de novo. Seria imoral trazê-lo ao mundo se você tiver escolha”. No dia seguinte, após ter percebido a barbeiragem que fez, o biólogo publicou em seu site uma longa nota que misturava desculpas com esclarecimentos filosóficos acerca de sua posição pró-escolha do aborto. Nela, admite ter se expressado de forma grosseira e insensível em 140 caracteres, mas sustenta que “se a sua moralidade é baseada, como a minha, no desejo de incrementar a felicidade e reduzir o sofrimento, a decisão deliberada de dar à luz a um bebê com Síndrome de Down quando pode escolher abortá-lo nos primeiros estágios gravidez poderia ser, na verdade, imoral do ponto de vista do bem estar da criança”.

Ao tomar contato com essa história, minha primeira reação interna foi uma que Dawkins critica: revanchismo baseado na conexão emocional com meu filho de dois anos e meio portador de uma outra síndrome (falo disso mais adiante). Fiquei irritado e pensei em escrever algum rápido desaforo no Facebook, tagueando pessoas que sei que são fãs de Dawkins (“olha aí, o amigo desalmado de vcs!!”). Mas, diferente dele, já aprendi que redes sociais e reações impulsivas não combinam e fiz um esforço para tentar organizar o que fosse possível dos meus sentimentos antes de escrever qualquer coisa, buscando uma perspectiva com um tempero mais racional que colabore de forma mais positiva para esse debate. Abaixo vai o resultado.

Primeiro ponto: embora eu não considere Dawkins facista, eugenista ou desalmado, tenho certeza que tanto sua abordagem desastrada no Twitter quanto a nota de esclarecimento em seu site são profundamente prejudiciais para uma cultura de aceitação da diversidade não apenas no que diz respeito a portadores de Síndrome de Down, mas sim com todo e qualquer tipo de diferença. Dawkins deixa claro que quando fala de aborto se refere a fetos e quando fala de fetos não os considera ainda humanos compleamente formados, passíveis de sofrimento (não vou entrar nessa discussão aqui). Além disso, ainda ressalta que “existe uma profunda diferença moral entre ‘esse feto deveria ser abortado agora’ e ‘essa pessoa deveria ter sido abortada muito tempo atrás’. Mas, minúcias filosóficas à parte, a mensagem que se propaga é tão simples quanto seu tweet original: escolher ter um filho com síndrome de Down sabendo desde os primeiros estágios que ele vai crescer com limitações é imoral na opinião de um dos mais importantes cientistas do mundo, especialista em evolucionismo. Por mais controverso que seja Richard Dawkins, o efeito social disso não é nada desprezível.

Segundo ponto: provavelmente escapa a Dawkins a tremenda ironia de sua declaração, já que é justamente esse tipo de atitude que torna a vida de qualquer pessoa com deficiência mais difícil e mais sofrida. Antes de mais nada, não faz bem a ninguém ser considerado abortável em retrospecto e, mais uma vez, a explicação de que ele não está falando de humanos completamente formados mas de fetos não é contrapeso suficiente quando temos séculos de preconceito e incompreensão entranhados em nossas estruturas sociais e políticas. Na maior parte do mundo, inclusive nos países mais desenvolvidos economicamente, os indivíduos considerados diferentes da média ainda encontram grandes dificuldades para serem reconhecidos como pessoas e cidadãos. Acesso a tratamento, educação e convivência são frequentemente conquistados graças à luta ferrenha de pais, parentes, ativistas e dos próprios “diferentes”. Na base de obstáculos burocráticos, médicos ou práticos está sempre a dificuldade em ser reconhecido como um ser humano completo.

Como escreve Andrew Solomon em Longe da Árvore, comentadíssimo livro que mergulha no universo de dez categorias de minorias: “Na vasta literatura sobre os direitos dos deficientes, os estudiosos enfatizam a separação entre impairment (dano, debilitação), consequência de uma condição orgânica, e disability (incapacidade, deficiência), resultado do contexto social. Ser incapaz de mover as pernas, por exemplo, é uma debilitação, mas não poder entrar em uma biblioteca pública é uma incapacidade.” Ou seja, muitas das restrições que tornam menos feliz a vida de deficientes, para usar o parâmetro moral de Richard Dawkins, não são fruto de suas limitações, mas sim das limitações do contexto social que os rodeia e da incompreensão acerca de seus direitos e necessidades. Incompreensão essa que Dawkins acaba de ajudar a amplificar.

Nesse sentido, o capítulo sobre Síndrome de Down de Longe da Árvore é asustador para os padrões contemporâneos – mas muito pedagógico. Está tudo lá, com fontes: no século 19, os Downs eram considerados por alguns estudiosos como “pesos mortos para a prosperidade material do Estado.” A Suprema Corte Americana, no final da década de 20, promulgou uma decisão pela esterilização forçada de pessoas com deficiências intelectuais que durou cerca de 50 anos. Em 1968, a respeitada revista Atlantic Monthly publicou um artigo de um especialista em ética que sugeria não haver culpa em se abandonar um bebê com Síndrome de Down porque “a verdadeira culpa surge apenas de um crime contra uma pessoa e alguém com Down não é uma pessoa”. Foi só a partir dos anos 70 que se passou a considerar que portadores de Síndrome de Down poderiam ser estimulados a evoluir intelectualmente e funcionalmente, o que em pouco tempo provou ser viável em um nível absolutamente inimaginável nas décadas anteriores. Eu sei que Dawkins não refuta isso e nem defende diretamente a redução de oportunidade de crescimento para qualquer pessoa com deficiência, mas suas declarações são facilmente depositadas na conta dos deficientes como um pesado débito. De novo: se ele quer mesmo incrementar a felicidade, como reza sua moralidade, seu tweet não está colaborando.

Terceiro ponto: um artigo no The New York Times, motivado pelo tweet de Dawkins, reuniu uma série de estudos que, entre outras coisas, comprovam que jovens adultos com Síndrome de Down tem habilidades adaptativas mais sofisticadas do que sugerem seu baixo QI, o que impacta diretamente numa melhor probabilidade de qualidade de vida. O texto ainda coloca: “os dados indicam que pessoas com Síndrome de Down e os familiares que os cuidam sofrem menos do que se supõe. Além disso, mesmo que a Síndrome de Down interponha desafios inquestionáveis, pesquisas sobre opções de tratamento sugerem que há base para um otimismo cauteloso. Em qualquer cálculo moral que o Sr. Dawkins e outros possam querer fazer, esses fatos merecem ser levados em consideração com seu devido peso.” Sob esse ângulo, tanto a declaração original quanto a explicação extensa de Richard Dawkins soam, no mínimo dos mínimos, mal informadas.

Tenho um filho de dois anos e meio que tem Síndrome de Prader Willi, que é diferente da Síndrome de Down (tenho um sobrinho com Down) mas, para efeitos práticos, não muito menos complicada de se lidar. Logo, é claro que escrevo esse texto com o espírito do pai que quer proteger o filho e se proteger de vê-lo sofrer em dobro, pela sua condição e por conta de uma cultura de diversidade recente, frágil, ainda passível de ser corroída por declarações ignorantes. Mas também tem outro motivo que é ao mesmo tempo egoísta e amplamente social: a convivência íntima com uma pessoa que nasceu e vai crescer tão diferente do que eu imaginava ressaltou minhas próprias inclinações não-conformistas. Apesar de ainda precisar negociar todos os dias com meus próprios preconceitos e bloqueios internos na aceitação do diferente (e eles não são poucos), me dou ao direito de parafrasear Andrew Solomon: “Odeio a perda de diversidade no mundo, ainda que às vezes fique um pouco desgastado por ser essa diversidade.”

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A Síndrome de Prader Willi, que meu filho tem, é uma condição genética um pouco mais rara do que a Síndrome de Down. Se você quer conhecer, leia o material abaixo e cuidado com o que encontra no Google. Há muitos textos e vídeos alarmistas, que tratam os casos mais severos com um certo sensacionalismo. Na apresentação abaixo há links para fontes confiáveis.

Além disso, também sugiro a leitura da coluna do psicanalista Contardo Calligaris sobre o livro do Andrew Solomon que citei no post, Longe da Árvore.

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Foto: Wikimedia.

Os memes na infância de Dawkins

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Irresistível o aperitivo que o Brainpickings selecionou do livro de memórias do Richard Dawkins: trechos nos quais ele comenta insights sobre o conceito de meme com lembranças da construção de apelidos bizarros de colegas da escola. Não sou grande fã do ativismo raivoso do Dawkins, mas não dá pra negar a contribuição dele para compreendermos esse processo tão importante da evolução humana que é a geração compulsória apelidos na escola. Me emocionei.

Julgamentos

A telinha acima é o documentário “Judgment Day: Intelligent Design on Trial”, que tem inteirinho pra assistir no YouTube (em inglês). Ele cobre, com entrevistas e dramatizações, o conflito que se instalou em uma pequena cidade da Pensilvânia ali por 2004 por conta de uma ação polêmica: a tentativa de embutir o ensino do criacionismo nas aulas de ciência da escola local. O caso, como toda boa história americana, foi parar na justiça.

Ensinar criacionismo como ciência é proibido pela constituição dos Estados Unidos, mas há anos movimentos criacionistas tentam empurrar a sua visão da origem das espécies disfarçando-a de uma suposta teoria científica chamada “Design Inteligente”. O que o filme conta é justamente os detalhes de como se desmontou, peça por peça, a noção de que “Design Inteligente” é algo próximo de uma teoria científica.

Fora de discussões de mesa de bar, não é um assunto fácil. Não dá pra tomar uma decisão judicial com base no “dãã, nada a ver, isso aí não existe, é ÓBVIO que não existe.” Mas o documentário encaminha o raciocínio pra nós, que estamos assistindo, dando rápidas noções de evolucionismo, criacionismo e americanismos. Embora claramente defensor do pensamento científico clássico (o que gerou reclamação dos criacionistas sobre a falta de isenção) , o filme tem umavisão razoável da situação como um todo.

Aproveite enquanto está facinho no YouTube: “Judgment Day” é imperdível e talvez obrigatório numa época de avanço assustador de bancadas ditas “religiosas” no nosso Congresso.

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Diga-se de passagem: apesar de me envolver com o filme e o sugerir como peça importante de reflexão para um fenômeno cultural que estamos vivendo no Brasil, não sou um desses fundamentalistas do pensamento científico. Costumo acompanhar as entrevistas de dois grandes advogados do ateísmo ativo, o Christopher Hitchens e o Richard Dawkins, mas não tenho nenhuma vontade se ser colocado no mesmo balaio deles.

Nesse ponto, tendo a concordar mais com a entrevista do Alain de Botton para o Caderno Cultura da Zero Hora (que, por sinal, anda bem bacana): existe uma multidão silenciosa que não se alinha com os extremos – sejam teístas ou ateístas. É uma imensa área cinzenta que reúne, acredito, algum pessoal disposto a compor diferentes visões, abrindo mão da abordagem mais agressiva e buscando promover uma cultura de paz e compaixão sem necessariamente vincular o Estado a tradições específicas.

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Na verdade, cheguei a esse filme por indicação do professor Charles Watson no terceiro módulo do seu falado Workshop de Processo Criativo. Ele costuma usar, no curso, um trecho do “Judgement Day” em que um cientista explica o funcionamento do mecanismo evolucionário pra derrubar um argumento dos criacionistas. É mais ou menos o seguinte.

Uma das defesas do “design inteligente” se baseia no estudo de uma bactéria que tem uma organela de propulsão tão complexa que, segundo eles, “não poderia ter evoluído de algo mais simples”. Logo, só pode ter sido desenhado por um “designer inteligente”. Esse conceito é chamado de “complexidade irredutível”. Um dos exemplos clássicos pra defender a complexidade irredutível é a ratoeira – aquela que o rato pega o queijo e fica preso num araminho. Para os partidários do design inteligente, a ratoeira não tem função se privada de alguma de suas partes.

A contraexplicação da acusação no Jugdement Day caminha simultaneamente por um lado biológico e outro simbólico. Na biologia, vem à tona uma versão anterior da bactéria citada na qual a organela/motor de propulsão, sem algumas partes, não está totalmente evoluída. Mas, apesar de não servir como propulsor, funciona muito bem como… injetora de veneno.

Pra ilustrar melhor o argumento, o cientista dá seu depoimento usando uma ratoeira como prendedor de gravata. Sem três de suas cinco partes, a ratoeira não serve pra pegar rato. Mas isso não a inutiliza como acessório de vestuário.  Em outras palavras, do ponto de vista da evolução, é possível, sim, que existam etapas intermediárias nas quais os mecanismos biológicos tem funções totalmente diferentes de suas versões evoluídas.

Não sei se ficou claro. Tem que ver o filme mesmo.

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O Charles Watson usa isso como paralelo para o processo criativo: é muito comum que, quando estamos criando, se tenha centenas de idéias aparentemente inúteis ou bestas mas que geralmente servem de escada – ou de etapas intermediárias – para a construção do que se consideraria a solução final. Ou seja: aqueles papéis rascunhados no lixo não são lixo, são só a idéia final ainda na pré-escola.