Qual é a sua praia?

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Não sei qual é a origem da expressão “qual é a sua praia?” mas adoro a maneira como ela revela uma das formas que os brasileiros mais gostam de usar pra se classificar. Sendo parte de uma nação que foi formada a partir de uma incursão pelo litoral e cujo processo de interiorização foi épico, faz sentido que um brasileiro possa se definir com base nessa questão cheia de nuances e possibilidades. Perguntar “qual é a sua praia?” querendo saber “qual é a sua”, “qual é o seu jeito”, “qual é o seu gosto”, “qual o seu interesse”, deixa claro o quanto a praia é pano de fundo da personalidade nacional, nem que seja como contraste ou negação. Ou seja, a pergunta é tão universal e eficiente que você pode responder que “a sua praia” é ficar dentro de casa, no ar-condicionado, bem longe da praia.

Essa universalidade é uma qualidade da própria palavra “praia” no contexto brasileiro. Por baixo de todos os clichês praianos que “praia” evoca, se esconde uma quantidade incalculável de diferentes experiências e culturas. Eu e você podemos ter frequentado a mesma praia a vida inteira e mesmo assim daremos respostas completamente diferentes se nos questionarem literalmente “qual é sua praia?”. Não apenas para um carioca e um gaúcho “praia” tem significados distintos, como um carioca de 60 anos de Copacabana, um de 15 anos da Barra e um de 32 que mora em Realengo terão muito a dizer sobre praia sem necessariamente concordar.

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Provavelmente, o que cada um considera “sua praia” tem origem na praia que frequentou na infância. No meu caso, cresci veraneando nas praias do Rio Grande do Sul, o que por si já traz uma série de registros peculiares. O litoral gaúcho é conhecido pela sua sobriedade: uma linha reta do Chuí a Torres, sem recortes ou baías, banhada por um Atlântico frio, ventoso e, às vezes, de tons achocolatados. O mar aberto propicia a formação constante de dois fenômenos infames, que me assombraram por muito tempo: o buraco e o repuxo, geralmente sinalizados pelas bandeiras vermelhas e amarelas dos salva-vidas (a bandeira verde, alguns acreditam, não existe, é uma lenda inventada por catarinas de Bombinhas). Mesmo que meu pai sempre tenha incentivado eu e meus irmãos a termos uma vida aquática ativa, minhas primeiras lembranças do mar são a de um imenso Nescau gelado e ameaçador.

Não tínhamos “casa na praia”, um endereço fixo, mas todo verão meus pais davam um jeito de passarmos algumas semanas em alguma colônia de férias ou na casa de amigos generosos. Nesse segundo caso, integramos durante algumas temporadas uma turma grande de várias famílias que também tinham filhos que regulavam em idade comigo e com meus irmãos. As felizes memórias dessa época são baseadas em uma rotina que reflete em muito as limitações do veraneio no Rio Grande do Sul. “Ir pra praia” significava tanto estar na beira do mar com um grande grupo protegendo-se do implacável vento Nordeste conhecido popularmente como Nordestão, fugindo de repuxos e buracos, comendo milho verde e lambendo picolés de segunda categoria quanto ir para o “centrinho” no fim do dia comprar revistas em quadrinhos e tomar sorvete ou ficar em casa assistindo ao Carnaval na Globo enquanto os adultos se esbaldavam no baile do clube. Dependendo da “sua praia”, você também poderia ter memórias de mini-golfe, fliperama e cinema com filmes que haviam passado no meio do ano em Porto Alegre.

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Quando fiquei mais velho, é claro que experimentei outras praias e cada vez que eu conhecia uma fora do Rio Grande do Sul me sentia um explorador entrando em contato com uma nova civilização. O que eu entendia por “minha praia” aos poucos foi mudando. Aos 10 anos, ainda criança, fomos acampar em Santa Catarina e tenho bem presente até hoje a felicidade de tomar banho em enseadas de águas calmas, quentes e cristalinas. Logo depois da adolescência, passei atrasado pelo ritual gaúcho de amadurecimento ao ir com amigos diversas vezes para as praias da região de Garopaba, também em Santa Catarina, onde adicionei ao conceito de praia a ideia de um lugar para experiências alcóolicas e lisérgicas. Mais tarde, com 26, mergulhei no Mediterrâneo em Benicassin, no norte da Espanha e tomei contato com uma outra praia: me impressionei com a faixa de pedra em vez de faixa de areia, com a arquitetura classe média europeia do centrinho com o fato de que podia deixar minhas coisas na beira e entrar no mar sem me preocupar se iria ser roubado. Depois, viajei várias vezes para o Nordeste e fiquei fascinado com a multiplicidade de sotaques, sabores e modos praticados nas orlas e mares da Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba. Água de côco, queijo coalho e peixe frito hoje são mais comuns no Sul, mas não quando eu era criança, portanto não fazem parte do meu conceito original de praia. Com o tempo, aprendi também que entre os diversos charmes do litoral uruguaio está o incrível feito de fazer o mar gaúcho parecer quente. Visitei Cannes a trabalho quatro vezes no verão europeu e foi quando descobri que praia podia ser paga, incluir champanhe e lojas de marcas globais de luxo… Nos últimos anos, tenho ido com bastante frequência ao Rio, que sempre me impressiona com a intensidade de como a praia nasce na beira do mar e avança cidade adentro por entre os prédios, levando o sol, o sal, a areia, as gírias e todo um vocabulário comportamental para as ruas, os botecos, as residências, os restaurantes e os escritórios.

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Dessa trajetória toda, restou uma combinação maluca e diversa sobre o que seria a “minha praia”. Do Rio Grande do Sul, mantenho a paixão pelo milho verde, pelo “passeio no centrinho” e a disposição de dar pelo menos um mergulho em qualquer mar, em não fazer cerimônia por causa do frio ou de ondas fortes. De Santa Catarina, carrego a paixão por enseadinhas guarnecidas por morros de mata atlântica. Do Nordeste, curto as piscinas naturais e a certeza de que amanhã não vai chover. Da Europa, a ideia de que existe um meio termo interessante entre urbanizar e asfaltar uma praia. Do Rio de Janeiro, me encanta o conceito de praia como cultura pop e não só como um lugar. E por aí vai.

Foi difícil fechar a lista acima. Tenho dúvidas se é isso mesmo, se não estou exagerando ou esquecendo alguma coisa. Mas este é precisamente o ponto sobre “a sua praia”. Ela pode ser sua, mas é praia: no lento e cadenciado vai e vem das marés, muda o tempo inteiro ainda que pareça ser sempre a mesma.

***

Fotos

 

1 e 2: Praia da Ferrugem (SC)

3: Itaparica

4: Uma prainha ao lado de Cannes

Muito além do Tropa de Elite 3

Um dos meus vizinhos de OESQUEMA, o Bruno que comanda o Urbe, fez algo que eu estava pensando fazer, mas com mais propriedade: reuniu alguns vídeos e links para textos fundamentais se você quiser sair do clima “torcida organizada” e entender um pouco melhor o que está acontecendo no Rio de Janeiro. Pra começar, vale assistir todo o Roda Viva com o Luis Eduardo Soares.

Parece pouco leve pro fim de semana, mas eu garanto que ativa menos a ansiedade do que assistir qualquer noticiário.

Muito além do Tropa de Elite 3

Um dos meus vizinhos de OESQUEMA, o Bruno que comanda o Urbe, fez algo que eu estava pensando fazer, mas com mais propriedade: reuniu alguns vídeos e links para textos fundamentais se você quiser sair do clima “torcida organizada” e entender um pouco melhor o que está acontecendo no Rio de Janeiro. Pra começar, vale assistir todo o Roda Viva com o Luis Eduardo Soares.

Parece pouco leve pro fim de semana, mas eu garanto que ativa menos a ansiedade do que assistir qualquer noticiário.

Carta Aberta a 2009

Caro 2009

Não podemos dizer que não fomos avisados. 2008 foi bem claro quanto a termos de abrir o olho com você. Até pensei que ele estava exagerando um pouco, mas a verdade é que eu só não tinha captado bem a sutileza do seu dedo nas coisas nos primeiros meses. E eu só não fui totalmente coagido pela posse do Obama porque tenho um providencial pé atrás com essas coisas. Mas sei que ali você estava começando a aprontar.

Pra falar a verdade, como 2009 você foi extremamente… 2009. Mas de um jeito que não esperávamos totalmente, e é daí que vem esse olhar desconfiado de nossa parte com você nesses últimos dias. Não me leve a mal, mas você não deixou uma boa impressão na sua passagem. E como você foi bastante direto conosco, o mínimo que posso fazer é retribuir a sinceridade.

Em alguns aspectos, você foi parecido com seu primo 1999. Confuso. Barulhento. Com jeitão de ressaca. Remexendo em coisas profundas e fazendo algumas limpezas. Como que num processo violento de gestação, preparando a cama para 2011 deitar, como 99 fez com 2001. Na música você foi bem assim: indefinido, atirando para todos os lados e deixando para 2010 mais uma tarefa, a de consolidar os caminhos da década que vem por aí. Foi assim também com os rumores sobre o Woody Allen filmar no Brasil, não é mesmo? Todo esse zunzunzun, criando a maior expectativa, mas de novo ficou pros seus sucessores a tarefa de transmutar o boato em realização.

Até um filme sobre seu irmão mais novo, 2012, você arrumou pra tentar disfarçar seu jeitão folgado. Só eu percebi que o filme não era sobre seu irmão, mas sobre você? O resultado das negociações em Copenhague foi o epílogo desse filme e eu sei que você planejou isso direitinho. Transmedia storytelling. A história se espalhando por jornais, televisão, cinema e flashmobs inúteis.

Não me venha com Dirty Projectors e Emicida. Não me venha com Jupiter Apple e Black Drawing Chalks. Não me venha com Se Beber Não Case, Watchmen, District 9, Umbigo sem Fundo, Moon e Meu Querido Mês de Agosto. Não me venha com as baladas do Wado ou aquele showzinho do Little Joy no Opinião. Seus pequenos acertos a mim me parecem mais desvios de conduta. O Rio foi escolhido como sede da Copa do Mundo, tudo bem, mas de novo isso soa como alguma sacanagem sua com os caçulas 2010, 2011, 2012, 2013 e, especialmente, o pobre coitado de 2014.

No âmbito pessoal, posso dizer que você não pegou lá muito leve comigo. Tá certo, eu não vou me abster das minhas responsabilidades, principalmente no que diz respeito ao meu orgulho e minha mania de autosuficiência. Mas, na boa, você não precisava ser tão… drástico. Embora eu ache que em muitos pontos você estava certo, não gostei nada do seu tom. Tá bom, eu entendi o recado. Mas nem tudo eu digeri ainda e, gostando ou não, 2010 vai ter que terminar de descascar alguns abacaxis com que você me presenteou. Cada um com seus problemas, né 2009?

Bom, desculpe meu amargor. É mais um desabafo do que propriamente uma opinião sólida. Claro que você não é de todo mal e, agora mais calmo, também preciso admitir que você teve que lidar com o espólio da sua década, tudo que foi mal resolvido por 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 e seu irmão mais próximo, o 2008 (que muito espertamente deixou pra você administrar, por exemplo, toda a euforia em torno do Obama). Então, não me entenda mal, eu sei que seu ano também não foi fácil e vejo o por quê de você ter jogado tudo pra cima em novembro e dezembro: chuvaradas homéricas detonando várias regiões do Brasil, Mano Brown todo serelepe na capa da Rolling Stone, uns malucos enfiando agulhas em crianças. Até mesmo terrorista tentando explodir avião me apareceu e o controvertido Fábio Barreto se acidentou feio. Bizarro, 2009, bizarro. Você não é muito certo das idéias, na boa.

Mas, bem, eu estava tentando olhar para suas qualidades e sei que você tem algumas: você foi honesto, direto. O que aconteceu com o Michael Jackson na sua administração deixou todo o resto da biografia dele no chinelo. Assim é você. Vai metendo o dedo na ferida. Você não foi nada político e fez o que tinha que ser feito em muitos casos. Deu um Nobel sarcástico para o Obama e revelou o puritanismo/tesão reprimido dos brasileiros com a mina da Uniban. Prendeu o Polanski. Não precisava ter levado o Clodovil, mas em compensação, você expôs o Sarney de uma forma que não tínhamos visto ainda. Arrumou um namorado pra Madonna chamado Jesus (cara, você é definitivamente uma figura).

Por essas e por outras é que eu meio que admiro você e até perdôo alguns excessos. De novo, levando pro lado pessoal, confesso que eu andava precisando de umas chacoalhadas e nisso você foi mestre. No fundo, tenho uma certa gratidão por alguns de seus esparros. Embora o seu trabalho não seja de todo confortável, você é bom no que faz.

Resumindo, 2009, tudo de bom pra você, segue teu rumo, descansa, abraço na família.

Mas é o seguinte: não me aparece aqui de novo!

O melhor do Tim (não o Maia, o Festival)

De todos que já frequentei (Tim ou não) esse foi o festival que mais me pegou de sangue doce. Primeiro porque acabei lá por conta de um fim de semana romântico no Rio, não tinha como objetivo principal ver as bandas. Segundo porque nenhuma das atrações (fora o DJ Yoda) me falava muito ao coração. Terceiro porque o zunzunzun sobre a baixa venda dos ingressos, o preço absurdo e a prévia gongação generalizada do line up já projetavam um clima meio empastelado na história toda, então era melhor nem se entusiasmar demais.

De fato, minha experiência foi a de confirmar o ar esquizo que se profetizou aos quatro ventos para o Tim 2008. Ao menos no sábado, dia que compareci, a impressão geral era a de faltar uma pitada ou duas de tempero. Ou, quem sabe, um bom prato principal, já que dá pra dizer que os palcos tavam bem temperados com eletrônica contemporanea, punk cigano, a tal da new rave, a “nova mpb” e por aí vai. Ainda assim, tendo vivido boa parte da adolescência vendo show ao vivo pelas resenhas da Bizz, não me sinto bem em assinar embaixo de vibe reclamona. Sim, a curadoria podia ter se ligado mais (o Hermano Vianna foi confrontado pela reportagem do JB na Revista de Domingo), mas o ingresso 40% mais barato que pegamos com o cambista e as seguintes figuras fizeram valer a noite:

1) DJ Yoda

(vídeo roubado do Matias)

Em 2005, soterrado de atrações interessantes por tudo quanto é lado no Sonar em Barcelona, ainda tive ânimo e disposição de me surpreender com um DJ inglês que literalmente saltava aos olhos. Sábado passado, a sensação de assistir Yoda foi exatamente a mesma, sem tirar nem pôr: um resgate do entusiasmo de ter oito anos de idade ao ver o cara manipular não só beats e acapellas mas também imagens, sobrepondo e misturando cenas do imaginário pop dos últimos 40 anos numa demonstração incrível de técnica e bom humor. O Brasil quase perdeu o chamado Magic Cinema Show (um nome despretensioso e exato), já que até poucos dias atrás Duncan Beyni viria apenas como DJ, deixando de lado sua incrível faceta de VJ. Sorte que, por algum motivo, o jogo virou pro nosso lado. Num momento em que o rap e a “música eletrônica” pagam o preço de ter se afundado em pretensão, nada como um cara com cenas de Vila Sésmo e O Grande Lebowski na manga pra lembrar qualé.

2) Har Mar Superstar

Ele veio como convidado especial do chato Neon Neon e acabou roubando a cena com seu freestyle afiado e sua barriga quase sexual. Infelizmente, nunca tinha ouvido falar do Har Mar, mas googleando aqui e ali descobri que o cara já escreveu música pra Jennifer Lopez e Kelly Osbourne e abriu show pros Strokes. Tudo que faltava de groove e intensidade (e faltava bastante) pro Neon Neon tinha de sobra no Har Mar, que ainda apareceu pra dar o ar da graça no show dos Klaxons com seus falsetes altamente inspiradores que iam além da piada.

3) Gogol Bordello

Música cigana da europa oriental tocada na porrada. Como bem diz o Matias, pode soar um tanto quanto micareta e inspirar olhares cínicos. Mas a batida tum-tá-tum acompanhada por gaita, violino e guitarra pesada, por mais que soe fácil e clichê, é contagiante. Até uns passos eu ensaiei, totalmente contaminado. Se o Wander Wildner se juntasse com Kraunus e Plestkaya, o efeito seria parecido.

4) Klaxons

Banda boa e representativa da sua geração é aquela que parece um monte de coisa e não parece coisa alguma. Assim é o Klaxons: puro Pixies, mas também total Altern 8. É pós-punk, mas também é grunge. É reto e cru, mas também é pop. Porque, no fim das contas, desde os anos 60 é tudo a mesma coisa, reembalada de acordo com o espírito de cada tempo. Essa é a graça da história, não?

Durante o ótimo show do Klaxons, me lembrei do DJ Erol Alkan, que no início dos anos 00 resgatou o rock pras pistas na noite londrina Trash. Em cima do palco, os Klaxons estavam fazendo o que Alkan fazia com os CDJs ao abrir o conceito de “batida dançante” para toda uma leva de estilos que há algum tempo não encontrava espaço na pista se não fosse sob a forma de remix. Os Klaxons deixaram bem claro: colidir rock com eletrônica não precisa necessariamente de samplers ou bateria eletrônica, bastam uns falsetes e uns baixos poderosos que tá feito o trabalho. Embora eu não seja um fã ardoroso da banda, fiquei feliz de ver que it’s not over yet…

***

Cobertura OESQUEMA:

– Bruno entrevistou o MGMT e deu uma opinião geral com um olhar carioca.

– O Matias fez um enorme post sobre a versão paulista do festival, linkou um monte de outras matérias e ainda descolou o Fabric Live do DJ Yoda.

– O Arnaldo ainda não publicou nada porque também não tem que ficar dando mole pra vagabundo.

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Anotações soltas:

– Eu estava muito animado pra ver o show do Marcelo Camelo (estréia no RJ, não sabia). Ainda mais que  abriram a tenda mesmo pra quem não tava de pulseirinha azul (o ingresso daquele palco). Mas três músicas no ambiente dispersivo e com um som meio embolado me fizeram cair fora e, ainda bem, ir ver o Gogol Bordello. Acho que se fosse sentadinho e comportado no teatro aqui em Porto Alegre, era capaz de eu ter curtido mais.

– Essa história de cobrar trocentos mil reais por cada tenda precisa acabar… quem não tem a fortuna pra cobrir todos os shows precisa fazer escolhas bizarras, como se quem gostasse de Paul Weller não fosse curtir os Klaxons. E mais: uma coisa é você ter que escolher entre cinco bandas ótimas em festival da Inglaterra, onde essas bandas vivem circulando. Outra é no Brasil, onde não é todo dia que aparece um Har Mar Superstar na sua frente.

– Tocando com os Walverdes, eu não tenho moral pra reclamar de som alto… mas em alguns shows parte do embolamento vinha do volume excessivo. Vai ver que os caras caíram no conto do “quando lotar abafa o som”. Não lotou, então…

– Mas fora isso… tudo bem! E com você?

Data Visualization

Também chamam de Infoviz ou Infoesthetics. Mas, independente do rótulo, a base é a mesma: tomar uma antipática massa de dados e dar um jeito de transformá-la em amiga, algo raro em se tratando de dados. Quantas pessoas você conhece que tomariam uma cerveja ou passariam uma noite de bom grado com uma pilha de lâminas do Excel?

Por outro lado, os projetos mais arrojados de Data Visualization não são um extreme makeover de relatórios, mas sim obras em si que oferecem portas de entrada mais intuitivas na geração de insights, na busca por inspiração ou no mero ato de comunicar o que quer que seja.

Há pouco, a Slate largou um slideshow bastante instrutivo a respeito desse assunto, fazendo o que eu já tinha pensado mas deu preguiça: construiu uma linha do tempo colocando o Treemap do Ben Shneiderman como big bang (deve existir algo mais antigo, mas enfim) e abriu uma série de caminhos para os que quiserem se aprofundar.

Esse é um assunto que sempre cortejei, uma vez que eu adoro sistemas de organização, ainda mais quando acompanhados de senso estético. Por conta disso, ano passado resolvi entrevistar o Jonathan Harris para o número inaugural da +Soma, um dos nomes mais citados quando o assunto é a alquimia dos dados em poesia visual. A entrevista começa aqui, continua aqui e termina aqui.

Obviamente estava há horas tentando emplacar uma idéia na área para algum cliente da agência, mas dois projetos saíram na frente aqui no Brasil: O Rio Está Feliz e Ame Seu Coração (que em setembro teve até instalação no vão livre do Masp). São duas iniciativas bem interessantes e fico feliz de estarem sendo feitos tentativas comerciais de Data Visualization, mas também parece um prato cheio para piadas de cartunistas, especialmente a ação no Rio, não?

Aqui na agência, fizemos uma experiência. Ao longo de um mês, um grupo de pessoas acessou quase que diariamente o Emotional Cities, que cataloga o humor de cada pessoa e junta em sets visuais por cidades, países ou grupos que você monta. No meio dessa história me caiu uma ficha muito grande que a questão do Data Visualization não diz respeito só à facilidade de leitura de dados. Por ter uma interface amigável e uma proposta simpática, o Emotional Cities obriga a pessoa a parar por alguns minutos que seja e refletir a respeito do seu estado de espírito – algo que poucos fazem na correria do dia-a-dia. Isso fecha com o que o Jonathan Harris me falou na entrevista, que ele não vê problema em uma interface que exija um pouco mais envolvimento porque um maior envolvimento oferece uma maior recompensa interna ao usuário. Bom design, menos velocidade, mais recompensa. Uma equação valiosa em termos humanos.

Agora… você quer ver um cara que REALMENTE se puxou no assunto? Então dá uma olhada no Visualizing The Bible do Chris Harrison. Em parceria com um pastor, o cara transformou várias referências cruzadas da Bíblia em imagens. Beira o TOC, mas é isso aí, vam’bora. Que atire a primeira pedra…