Por que o Facebook é a internet das eleições 2014

 

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E quem diria: a rede social que passou boa parte do ano tendo sua decadência prevista por pesquisas e especialistas se tornou a grande estrela digital das eleições de 2014, mesmo antes do segundo turno terminar. Com cerca de 90 milhões de usuários ativos, dos quais 59 milhões acessando-o diariamente (dados de agosto), o Facebook vem combinando grandes números de audiência na internet com a aderência de todas as correntes políticas e classes sociais, além de permitir a discussão política em diferentes níveis de profundidade. Muita gente ama, muita gente o odeia o Facebook, mas todo mundo declara seu amor e ódio eleitoral postando no próprio.

Em 2010,  nas últimas eleições presidenciais, éramos menos de 9 milhões de brasileiros no Facebook e 9 milhões no Twitter. O Orkut era o terceiro site mais acessado do país e contava com 30 milhões de usuários, mas seu formato mais tosquinho e a população menos conectada e menos móvel impediam um fluxo tão orgânico e pulsante de conteúdos como temos hoje. Além do mais, os Protestos de Junho de 2013 ainda não tinham acontecido e política não era uma pauta tão quente como é agora (embora eu tenha a impressão que no Facebook TODAS as pautas tem pegado fogo). Na verdade, vivemos em um país tão diferente de 2010 em termos de cultura digital que é quase impossível fazer comparações.

Por um lado, o Facebook foi beneficiado pelo contexto de 2014: nos últimos dois anos, pudemos começar a usar a palavra “popular” para falar de smartphones, internet móvel e vídeo na internet. Nos últimos 15 meses, tivemos dois grandes eventos nos quais testamos intensamente nossas redes pessoais no que diz respeito a discussões nacionais – os já citados Protestos de Junho e, ligado a isso, a Copa do Mundo. Mas também há os predicados do próprio Facebook, sendo que o mais importante de todos é que ele combina os principais formatos de postagens e compartilhamentos em uma única plataforma: se você quer condensar sua opinião política em 140 caracteres, você pode; se você quer se estender, escrevendo um post de 2.000 caracteres manda; se você se contenta em compartilhar um card com um meme, tá valendo; vídeos oficiais do seu candidato são aceitos; vídeos não oficiais também são válidos;  selfie na urna? Tudo bem! O Facebook não tem preconceitos e aceita todo mundo que queira se expressar do jeito que bem entender – desde, claro, que esteja demograficamente dentro da população mininamente conectada do país.

Em termos de correntes política, também parece que ninguém teve muita escolha a não ser abraçar o Facebook para chegar ao eleitorado. Os sites oficiais dos candidatos, seus canais de YouTube, os blogs dos correligionários e os veículos à esquerda ou à direita, todos dependeram do Facebook para criar ou ampliar sua audiência. Mesmo as fanpages dos candidatos também não sobreviveriam de suas funções oficiais: um vez que a lei eleitoral proíbe a compra de mídia por parte de políticos e partidos em época de eleição, está sendo preciso contar com uma militância bem construída e versada na rede, o que significa ter capacidade de disseminação no Facebook. Partidos mais organizados e com militância conectada não garantem nada, mas levam vantagem ao menos ocupando o encanamento da internet com seus conteúdos.

E o Twitter? É claro que o Twitter retomou este ano sua importância, confirmando a vocação para segunda tela de eventos ao vivo pela TV e assim turbinando os debates nacionais. Eu, particularmente, gosto mais do poder de síntese e da qualidade do material que circula pelo Twitter. Mas é impossível negar: em se tratando de internet, a festa da democracia esse ano foi marcada, divulgada e confirmada via Facebook.

Brands as publishers: como estruturar a publicação de conteúdo digital para marcas

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Se, por um lado, a internet bagunçou o mundo do marketing e da publicidade com a multiplicação dos canais para os quais se precisa criar conteúdo (sem o mesmo tempo e a mesma grana de antigamente), por outro quem trabalha com isso não pode reclamar da quantidade de estudos, relatórios, sistemas, frameworks e pitacos sobre como fazer um bom projeto dessa natureza no ambiente digital.

Um ótimo exemplo é o relatório gratuito Brands as Publisher da agência digital Huge, que traz um apanhado organizadíssimo dos principais desafios de criadores de conteúdo digital para marcas bem como uma série de linhas de ação práticas para o desenvolvimento e o, mais importante, a manutenção no dia-a-dia de um projeto de qualidade.

Dentre todos os achados, o que eu considero fundamental é a noção de que, nas palavras do relatório, “projetos de conteúdo eficientes requerem múltiplos fluxos de trabalhos com staff dedicado com sistemas e tecnologias dando suporte a cada um dos fluxos. Essa abordagem permite às organizações produzir diversos tipos de conteúdo que sustentam diferentes objetivos, como informações fresquinhas sobre produtos, ofertas promocionais e tópicos em tempo real sem precisar gerenciar conflitos de prioridade o tempo todo.”

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Em outras palavras: quem trabalha com conteúdo de marca para ambiente digital não pode viver se virando nos 30, como ainda é a regra em muitas empresas e agências digitais. O aspecto mais lúdico, horizontal e caótico da internet faz parecer que as operações relacionadas a ela também podem ou devem ser informais e soltas, quando é justamente o contrário. O único jeito de navegar de maneira mais tranquila pelas águas turbulentas da interatividade entre marcas e consumidores é sendo metódico, sistematizado e hierárquico.

Além disso, o relatório ainda responde a cinco questões cruciais para quem opera no ramo:

– Por que as marcas deveriam gerar conteúdo?
– O que significa isso?
– Quais são os drivers fundamentais de sucesso dos projetos de conteúdo?
– Como uma marca pode gerenciar bem operações de conteúdo?
– Quais são os investimentos chave necessários para a empreitada?

Está tudo lá explicadinho, tim-tim por tim-tim, inclusive com fluxogramas. É só ler e aplicar. Depois, não vem reclamar.

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Aproveitando o assunto, vale a pena ler também o post de Tom Goodwin no Digigay onde ele lista os 5 grandes mitos da publicidade moderna. Em relação ao tema acima, Goodwin defende que os consumidores NÃO querem conversar com as marcas e que marcas NÃO precisam gerar conteúdo. A argumentação é curta e rápida, mas o contraponto é interessante e super válido.

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Leia também:

7 Pesquisas que Vale a Pena Você Conhecer

– Por que você é impactado por tanta publicidade

Nunca esqueça da TORNEIRA

Pós-ruminando o post do último domingo, sobre o Dia de Desconectar, me lembrei de dois Minimalismos que fiz pra Oi num passado recente.

Num deles, eu trouxe à tona uma metáfora bastante comum hoje quando se discute mídias digitais, que é essa história de comparar informação à água. Não sei bem quem começou com isso, mas um dos caras que costuma usar esse comparativo é o futurista Gerd Leonhard. Também me lembro de um livro (que não li) chamado The Future of Music (o Matias comenta sobre ele nesse debate), no qual o futuro consumo de música é comparado com o consumo de água. É uma forma de explicar os modelos de assinatura, nos quais você paga uma mensalidade e tem acesso à música quando quiser no seu computador ou celular – que, preste atenção, deixam de ser garrafinhas pra se tornarem torneiras.

Digo isso, porque essa história de água, garrafinhas e torneiras é um excelente gancho pra quem se sente sobrecarregado com tanta informação que chega pelos meios digitais. Assim como nós somos cercados por informação, nós também somos cercados por água. Tem água correndo por canos nas paredes, no teto e no chão – inclusive na rua. A gente só não enxerga, mas somos rodeados de água encanada.

Se não existissem as torneiras, a água encanada ficaria o tempo todo jorrando, faria a maior molhaçada e seria uma incomodação do cacete. Então, inventaram essa maravilha que é a torneira. Quando a gente precisa, abre a torneira, usa a água. Parou de usar, fecha a torneira.

Com o excesso de informação, tem que ser a mesma coisa. Não é porque existe um fluxo constante de informação chegando que a torneira precisa ficar aberta o tempo todo. Ou, para ser mais direto, não é porque ficam vendendo o conceito de “always on” e que o email pode ser configurado no celular que você vai deixar ele aberto, atualizando o tempo todo.

O email, o Facebook, o Twitter, o Orkut, a rede de SMS são como canos por onde passa água. Cabe a cada um abrir e fechar a torneira adequadamente se não quiser se afogar.

Língua

O avanço acelerado das novas tecnologias não mexe só com os nossos hábitos de comunicação, mas também com os termos, com as nomenclaturas que a gente usa.

Por exemplo, é comum a gente dizer que usou o telefone em ligações do fixo, mas quando liga do celular, geralmente diz que ligou do celular – que também é um telefone. Nesses casos, estamos falando de aparelhos físicos. Mas quando a gente faz uma ligação por Skype, provavelmente diz que fez uma ligação pelo Skype e não pelo aparelho, o computador.

Quando a gente fala com alguém por SMS, poderia dizer que falou com essa pessoa por telefone, mas diz que passou uma mensagem. Do mesmo jeito, se a gente vê uma notícia interessante no Twitter, geralmente não diz que viu no computador, o aparelho, mas que viu no Twitter, o site.

A língua sempre foi assim, vivas e mutante. Mas, vamos combinar: hoje em dia, ela está se puxando.

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Post inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Oi FM.

Todos os dias às 9h30 e às 13h45 no seu rádio ou na webradio.

Sempre elas, as redes sociais

Essa semana o novo caderno Its Mais do Correio do Povo trouxe pedaços de uma entrevista comigo sobre o nosso querido e disputado assunto que está aí no título. Um dos tópicos bacanas da conversa foi o questionamento sobre os profissionais que trabalham com redes sociais – será o analista de redes o novo DJ? Pra ler a reportagem inteira, que inclui também a visão do Leo Prestes e da Rosana Hermann, você precisa ir na edição digital do Correio do Povo do dia 15 de setembro e folhear até a página 32/33. Colei aqui embaixo a íntegra do papo comigo.

Its Mais: Qual o perfil do usuário das redes sociais conhecidas? Por exemplo, o Orkut está mais relacionado com as classes C/D, o Twitter tem média de idade mais alta etc. Como este universo vai se movimentar, quais tuas próximas apostas em termos de sites de relacionamento?

Gustavo Mini: Eu acho que o Orkut vai permanecer durante muito tempo como a grande rede social brasileira. O brasileiro gosta de grandes movimentos mainstream, de ir atrás de um grande bolo. O Facebook vem crescendo, mas não acho que a curto prazo ele tome o lugar do Orkut. Diversos estudos falam sobre a demografia do Facebook, Twitter e Orkut, mas eu acho que isso é muito móvel. Daqui a pouco surge uma nova geração que redefine tudo. Então eu sempre acredito que qualquer regra é passageira. O que eu acredito que vai continuar acontecendo é um aprofundamento do uso de redes sociais, um refinamento de acordo com a necessidade de cada público e não em bloco: algumas pessoas vão se focar nos jogos sociais como Farmville, outras não vão estar nem aí. Fala-se na tendência de Social Commerce, de comprar estando dentro da rede social em vez de ir ao site de uma empresa. Mas o sucesso do Social Commerce é mais complexo do que o sucesso dos jogos sociais, porque exige que as empresas adaptem o seu modelo para o ambiente das redes sociais e falo de modelo de negócios, de modelo mental, modelo de operação, da comprar, estocar, vender e divulgar. Muitas coisas vão começar a acontecer dentro das redes sociais, mas isso depende muito da forma como elas vão facilitar a vida das pessoas. O Facebook ainda tem um funcionamento meio chatinho e complexo. O Orkut é mais basicão e direto. Eles fizeram algumas modificações agora, vamos ver como isso repercute com o tempo.

Its Mais: Qual o futuro do blog? Ele sobrevive ao meios mais instantâneos?
Gustavo Mini: Eu acho que como ferramenta de publicação ele pode se modificar, pode ir até pra dentro de redes sociais. Mas o que me interessa mais é o blog como modelo de reflexão, uma espécie de crônica da era digital, que permite explorar a fundo assuntos verticais, especializados, com uma certa informalidade. Eu acho que esse conceito de blog veio para ficar, seja em ferramentas de blogagem (como WordPress ou Blogger), seja em qualquer outro formato. Agora, o conceito de blog particular, de diário pessoal, esse foi substituído pelas redes sociais. E faz todo o sentido do mundo que isso tenha acontecido.

Its Mais: Quais, na sua opinião, são os atributos necessários para atuar nas redes sociais com sucesso?
Gustavo Mini: Depende muito do objetivo da pessoa ou da marca. Mas, no geral, eu diria que uma marca precisa saber que não é e nunca vai ser uma pessoa, que ela é uma marca, e que é melhor ela ser honesta quanto a ser uma marca e descobrir a sua voz de marca nas redes sociais do que fingir que é uma pessoa. As redes sociais são lugares de trocas, simbólicas ou concretas, e é bom que a marca tenha o que trocar, que ela não finja que seus valores simbólicos são concretos e vice-versa.

Its Mais: O Analista de Redes Sociais é o novo DJ? Qualquer um pode ser, é mais intuitivo ou devem ser seguidas algumas técnicas?
Gustavo Mini:
O problema do cargo de Analista de Redes Sociais é que ele é muito novo pra poder definir exatamente o que ele é. Tem que ter um pouco de intuição, mas definitivamente a pessoa precisa de um bom conhecimento técnico do funcionamento das redes sociais, dos sistemas de mensuração e de como construir diferentes estratégias para diferentes clientes. Só porque o cara fez um perfil muito engraçado que bombou no Facebook não quer dizer que ele saiba como replicar isso em outras situações.

Its Mais: Como você avalia a interação e atuação dos Analistas de Redes Sociais em Porto Alegre? Já é uma profissão consolidada?
Gustavo Mini:
Conheço poucos mas bons profissionais que estão se consolidando. Não é uma profissão consolidada, ainda não teve tempo pra isso. Mas tem pessoas bem bacanas que estão procurando ser mais do que “um jovem que passa bastante tempo no Orkut”. A pessoa tem que ter visão estratégica e conhecimento técnico, além de uma boa rede de relacionamento. Por exemplo, apesar de acompanhar este mundo de perto, eu sei que eu não poderia fazer isso pois não tenho a manha do relacionamento digital como algumas pessoas com quem trabalhamos. Não dá pra achar que qualquer mané com um perfil popular no Orkut pode trabalhar como Analista de Redes Sociais.

Dilmaboy: agora sim

Desde que a equipe de campanha do Obama postou o primeiro vídeo da campanha “Yes We Can” no YouTube que uma espécie de frenesi tomou conta dos publicitários, dos políticos e dos marqueteiros políticos. A estratégia de integrar a internet e, mais especificamente, as redes sociais num segmento que sempre privilegiou o combo “mídia de massa + corpo a corpo” é lógica e, bem feita, visivelmente eficiente. Só uma grande dúvida sempre pairou no ar: quem vai conseguir executar uma ação dessas no Brasil, um país cheio de peculiaridades culturais e digitais? Mais do que isso, que cara vai ter uma campanha política participativa no país?

A resposta chegou essa semana. Embora ainda esteja em fase de decolagem de views no YouTube, Dilmaboy parece ser o primeiro meme das Eleições 2010, o primeiro “Jabulaaaaaaaani,” o primeiro “Vuvuzela”, o primeiro “Larissa Riquelme” (bem, esse talvez não). É o espírito mashupeiro e tosco-improvisador do brasileiro traduzindo o conceito de participação política digital.

Não é bem o que o Pedro Dória levantou domingo, a respeito da necessidade de uma contribuição pública de maior análise na rede, enriquecendo o debate. Mas, lendo o texto do Bruno ontem sobre a mitologia popular da Copa 2010, não tive dúvida: Dilmaboy tem sua importância e, mais do que qualquer Twitter oficial de presidenciável, deu o start definitivo da campanha política 2010 na internet.