O Twitter é uma coisa engraçada…

No momento em que escrevo esse post, eu tenho 1.467 seguidores. Toda vez que eu tuíto alguma coisa, eu tenho a impressão de que sou ouvido por toda essa galera.

É esquisito. É como se existisse, em algum lugar indefinido, meio límbico, um auditório com 1.467 pessoas. A luz do palco vem direto nos meus olhos, então eu não consigo ver exatamente quem elas são. Tenho uma vaga idéia, porque todos os dias, antes de entrar no auditório, eu passo por um painel com pequenas fotinhos delas. Pra saber quem elas são, eu teria que olhar nos arquivos e ver um breve resumo sobre cada uma. Muito trabalho, então eu apenas lido com o fato de que ali tem 1467… pessoas.

O esquema funciona assim: eu venho correndo da rua, entro no auditório e falo rapidamente duas ou três frases. Às vezes é um pensamento. Uma frase supostamente ishperrta. Às vezes eu trago um recorte de jornal ou de revista e sugiro que eles leiam. Ou um vídeo. Ou uma foto.

Freqüentemente, eu também entro e mostro a eles pedaços de frases de outras pessoas que também estão falando em auditórios idênticos espalhados pelo espaço. Algumas em auditórios com apenas 50 pessoas, outras em auditórios enormes, com dez, vinte mil pessoas.

É tudo muito rápido. Eu entro, digo o que tenho a dizer e saio do auditório. Não sei o que acontece com as pessoas antes ou depois de eu fazer minha entrada. É muito estranho. Porque às vezes eu entro, falo e saio. Vinte minutos depois, entro de novo e está todo mundo lá de novo. Será que essas pessoas não têm vida? O que eles fazem o dia inteiro além de ficarem ali, esperando quietinhas pra me ouvir?

Ah não. Eles não são tão passíveis. Alguns deixam mensagens privadas pra mim na caixa dos bastidores. Outros, eu consigo ver por entre as luzes do palco, copiam o que eu falei e saem correndo para o seu auditório, pra repassar a minha mensagem à sua platéia.

Mas é estranho. Muito estranho.

Eu já tentei dar uma de Didi Mocó pra ver se eles existem mesmo. Uma vez eu entrei, falei e saí. Mas voltei rapidinho, tipo, em dois segundos. E estavam todos lá ainda. Outra vez, entrei de costas, pra fingir que estava saindo. Mas eles estavam lá. Eu já entrei na madrugada, no meio da manhã, ao meio dia, durante a tarde. Mesma coisa.

Todos os 1.467 no mesmo lugar. Todos eles lá. O tempo todo. Bizarro.

Claro, eu também ouço vozes. Mas isso é assunto pra outra hora.

O que aconteceria se desligassem a internet por uma semana?

O trecho acima, de Apertem os Cintos o Piloto Sumiu 2, além de ser um clássico momento da comédia moderna também oferece um excelente paralelo pra responder à questão proposta no título do post. No filme, a espaçonave que faz o primeiro vôo tripulado à Lua enfrenta sérios problemas técnicos enumerados pela aeromoça: asteróides e problemas no sistema de navegação, que está levando a nave direto pro Sol. Mas o caos se instala mesmo quando um passageiro se revolta e acusa a moça de estar escondendo algo. E ela admite: “Ok… é verdade… também acabou o café.” Aaaaaaaaah!!

Bom.

Digamos, então, que um dia o Al Qaeda puxe a tomada da internet e toda rede fique desativada por uma semana. Honestamente, eu não me apavoro tanto com o provável caos no mercado financeiro ou no sistema de serviços à população, seja público ou privado.

Essa semana, o @maurodorfman comentou que o Twitter é o SAC do universo. Portanto, eu fico imaginando que o verdadeiro problema no caso de um “web blackout” (uéblecáuti) seriam os bilhões de pessoas que reclamam e desabafam no Twitter, no MSN, nos blogs e redes sociais todos os dias. Onde toda essa energia vai ser depositada? O que essas pessoas vão fazer?

Aaaaaahhhh!!!

Sobre liberdade & edição

O Tiago Dória recentemente comentou que estamos vivendo na era do desmanche do conteúdo. Adorei essa expressão que resume bem um jeito de viver contemporâneo. É aquela coisa: em vez de ouvir discos inteiros, estamos preferindo músicas individuais que coletamos e selecionamos de acordo com a nossa preferência. Ou então, em vez de ler todo o conteúdo de um só portal de notícias, escolhemos matérias específicas de diferentes fontes de informação na internet.

Isso me lembra um assunto freqüente que vi no “Twitter” há alguns meses: pessoas de mau humor reclamando do mau humor do “Twitter”. As aspas são propositais: não faz sentido reclamar do Twitter, mas talvez sim do “Twitter”. O primeiro, sem aspas, é a ferramenta, algo neutro, cujo usuário decide como vai utilizar. O segundo, com aspas, é o consolidado. Aquela telinha com um conteúdo de pessoas que EU decido seguir (e não o programador da rádio), onde EU sou o editor (e não o diretor de programação do SBT), onde EU fiz a escolha (e não o chefe de redação da Folha). Se o MEU “Twitter”, com o grupo de seguidores que EU montei, está chato ou repetitivo ou insosso ou irrelevante, a responsabilidade é toda minha (e não do editor da Veja). É mais ou menos como brigar com o shuffle do mp3 player por ele estar tocando só música ruim.

A questão toda é que o desmanche do conteúdo coloca nas mãos de nós, ouvintes, leitores, espectadores, a responsabilidade de editar obras artísticas e informações. Todos nós – e não apenas os “formadores de opinião” ou os “curadores” – estamos nos tornando de fato editores e cada vez mais temos duas coisas: primeiro, a liberdade de escolha. E em segundo lugar, a responsabilidade. Porque se nós é que estamos escolhendo e selecionando, também não podemos mais botar a culpa em ninguém da má qualidade do que consumimos em termos de informação e entretenimento.

***

Ilustração roubada do blog do Guy Deslile.

Post inspirado num texto que gravei para o Minimalismo na Oi FM.

Hoje nao tem autopista

as esquerdas, Biz Stone, dono do Twitter

Interrompi 35 semanas de Autopista poraue estou em Cannes cobrindo o Festival de Publicidade pra agencia. O wireless do meu hotel foi pro saco, entao estou aqui numa mistura de lan house com telefonica onde os teclados sao muito esquisitos. Por isso a ausencia de acento e por isso estou teclando devagar – ah vc nao nota isso.

Suspeito que nao vou ter muito tempo pra escrever aqui pelas proximas duas semanas (depois dessa semana em Cannes estarei de ferias) mas na ledida do possivel passo aqui pra contqr alguma coisa. O grosso do conteudo esta indo pro blog da Escala. Entao soh me resta contar aqui aue soh dormi duas horas no voo esta noite entao nem sei direito mais o aue estou escrevendsjfhdsfurehlkjmhm

A mente & os protocolos da cultura digital (2)

Se o ser humano se reprograma por repetição e contexto, o acesso diário (repetição) no Twitter ou no Facebook (contexto) sem dúvida deixa marcas na mente. Não vou nem entrar no assunto do cérebro, a neuroplastia e muito menos criar exóticos sub-factóides dizendo que quem acessa o Twitter todos os dias só vai saber se expressar em até 140 caracteres, mas com certeza estamos vivenciando algum tipo de troca entre nossa mente e as interfaces que utilizamos de forma mais intensa.

A construção da identidade do indivíduo pré era digital não se limitava, obviamente, a suas atividades psicológicas e sempre incluiu relação com objetos e aparelhos. Mas quando um número considerável de horas da nossa semana é passada preenchendo pequenos formulários ou tentando condensar nossos dramas e comédias em mensagens rápidas entremeadas de gifs animados dentro de caixinhas flutuantes e piscantes, precisamos admitir que estamos transformando nossas narrativas internas em experiências vivas de transmedia storytelling.

Isso implica na lenta construção de um novo alfabeto psicológico, mais complexo, espalhado, fragmentado e, acima de tudo, ligado a interfaces que nos levam a narrar nossos pensamentos e sentimentos de uma forma ainda não experimentada na história humana. Não é raro, por exemplo, uma discussão entre casal ou uma conversa entre amigos começar ao vivo, continuar por email, atravessar uma tarde no msn (entrecortada por uma série de outras atividades) e se desenvolver em frases cifradas de Fotolog ou mensagens de SMS.

Para fazer o eixo narrativo desse papo ter sentido (se é que algum dia ele fez ou vai fazer), é preciso preciso saber comunicar o que você está sentindo ou pensando em meia dúzia diferente de linguagens (o que acaba configurando uma única linguagem fragmentada e fluída). Nesse contexto, um mísero gif animado condensado em alguns pixels pode comunicar uma montanha de sentimentos complexos – com maior ou menos sucesso, dependendo da conexão entre as duas pessoas. Aquele smile estava sorrindo com alegria genuína ou com o mais puro sarcasmo? Quem decide?

Não tenho dúvida que a maior parte das pessoas está desenvolvendo um novo talento (o MIT chama de New Media Literacies) ao disparar em um único dia uma dúzia de mensagens de SMS para pessoas diferentes com diferentes conteúdos, tons e significados, todos dentro de um frame muito rigoroso formado por um número limitado de caracteres e uma interface gráfica ainda bastante rudimentar. No fundo, estamos aprendendo a tirar leite de pedra e não é pra menos que tanto rolo aconteça devido a mal entendidos em scraps e comments por aí na vida.

Tá, mas e daí? Não sei. Continuo no próximo post.

Mad Men, Café da Manhã da BBC, a Dança do Siri e TV Branding

O Mini saiu de férias e me pediu pra regar as plantas nesta quinta-feira aqui no Conector.

Eu tenho um blog que fala sobre marcas de televisão na era digital, ou TV III, e tenho observado alguns fenômenos que acho que valem a pena comentar aqui (ainda mais que o Mini tem dissecado o livro do Henry Jenkins em diversos posts). Me refiro aos seqüestros, apropriações e intrusões de marcas de TV.

1. O Seqüestro de Don Draper

No dia 13 de Agosto de 2008, às 7:56 da manhã, o Twitter publica a primeira mensagem de um usuário que paradoxalmente vive nos anos 60.

“Tomando um whisky com Roger, para que ele não se sinta um alcoólatra”.

O tweet é assinado por Don Draper, o publicitário de vida dupla, personagem principal da premiada série americana Mad Men, produzida pelo canal premium AMC e transmitida no Brasil pela HBO. Vale acompanhar a série somente pela encenação da época, muito álcool, cigarro, ausência de consciência ecológica e ética, machismo e princípios de revolução feminista. A caracterização da agência de publicidade nos anos 60 é tão perfeita que é praticamente um personagem em si.


Veja também a paródia de Mad Men nos Simpsons.

Como sou fã da série, imediatamente segui os tweets de Don, e logo em seguida começo a receber convites para seguir outros personagens da série no Twitter: Roger Sterling (um dos donos da agência de publicidade fictícia Sterling Cooper), Peggy Olson (a secretária ambiciosa que vira redatora), Betty Draper (a mulher de Don) e até mesmo de Joan Holloway (a office manager voluptuosa).

Pensei eu: “que ação de marketing sensacional da AMC. Expandir a marca da série através da personificação dos personagens, permitindo que fãs dialoguem diretamente com eles, imergindo no mundo fictício de Mad Men. Bela maneira de engajar a audiência.”

No dia 25 de Agosto, menos de duas semanas depois, o Twitter bloqueia as contas de todos os personagens de Mad Men devido a uma intimação do DMCA (Digital Millennium Copyright Act) em relação aos direitos autorais de propriedade da rede AMC.

No dia seguinte, a empresa Deep Focus, responsável pelo marketing da AMC, persuasivamente convence seu cliente de que personagens do Mad Men engajando audiência via Twitter é boa publicidade, e assim as contas dos personagens são restauradas.

Depois de toda a ação, uma dúvida permanece: quem está por trás dos tweets de Don Draper e dos outros Mad Men?

O mistério vem à tona somente meses depois. Dia 16 de Novembro de 2008, Paul Isakson, estrategista e planejamento de marcas para a agência de marcas digitais Space 150 escreve um manifesto em seu blog, sob o título de Confessions of a (fake) Mad Man assumindo a paternidade dos tweets de Don Draper.

Paul confessa que tudo começou como uma um projeto pessoal de pesquisa ao pensar que seria possível estender realisticamente um personagem de um programa de TV para dentro de uma rede de relacionamentos.

A iniciativa de Paul Isakson, e dos outros fãs da série que assumiram identidades dos personagens no Twitter, é um exemplo perfeito de brand hijack (seqüestro de marca), onde usuários e fãs tomam para si uma marca e promovem sua evolução.

Paul liberou Don Draper de seu cárcere digital e o entregou para a AMC este mês, e pediu desculpas por não ter alimentado o personagem tão bem devida à falta de tempo para se dedicar a tarefa.

2. Apropriação no Café da Manhã

A apropriação de uma marca acontece quando um canal ou programa de TV refere-se ao conteúdo relacionado a outro canal ou programa com o intuito de promover sua própria marca, apropriando-se dos valores de marca alheios através dessa associação. Henry Jenkins fala brevemente disso no Convergence Culture, contando o caso dos outros canais de TV que entrevistavam os candidatos do Big Brother que haviam sido eliminados da casa.

Aqui no Reino Unido, isso acontece descaradamente todos os dias de manhã, quando a grande rede pública BBC exibe seu show matutino de notícias, o BBC Breakfast. Boa parte do show consiste em entrevistas com celebridades de programas de sucesso de outros canais de TV da Inglaterra. A desculpa é que é rede pública, sem fins lucrativos, com foco em fomentar a diversidade. Enquanto isso, o BBC Breakfast aumenta sua audiência às custa de valores de marcas de terceiros.

No Brasil, o Vídeo Show é um bom exemplo de apropriação de marca dentro do domínio de marca de um conglomerado de mídia. O formato do show é basicamente uma ferramenta de promoção dos outros conteúdos da Globo, e ao mesmo tempo, enriquece sua própria marca através dos atributos dos programas que documenta.

Mas não há nada como a sacripantice do Pânico na TV, que descaradamente ridiculariza contratados da Globo em entrevistas desconcertantes. Neste caso, a marca da Globo (ou Glóbulo, nas palavras do Sílvio) é apropriada e “torturada”. Aqui, existe uma simbiose bizarra de marcas, numa dinâmica onde a Rede TV promove brand awareness da Globo através da constante menção ao seu nome e atores, enquanto a RedeTV ganha audiência via seu freakshow de desconstrução da marca Global.

3. A Intrusão do Siri na toca da Globo

O fenômeno mais curioso é do Pânico da TV, com a Dança do Siri promovida pelos personagens Vesgo & Sílvio. A dança em si virou um forte veículo da identidade do show, e é relacionado com o programa seja onde estiver.

O mais engraçado é a intrusão da dança (e conseqüentemente da associação à marca) durante as transmissões ao vivo da Globo, feita por fãs do programa.

A Globo tem um histórico de rigidez no controle de sua marca. Mesmo assim, é difícil impedir a intrusão, ainda mais num ambiente digital, como aconteceu na sua festa da novela Sete Pecados no Second Life. O vídeo abaixo é um tanto quanto parcial, mas ilustra bem mais uma intrusão de uma marca da RedeTV no domínio da Globo.

Estaria o Conector a apropriar-se de marcas ao publicar posts de convidados neste blog?

Espertinho esse Mini, hein? Bem feliz lá curtindo umas férias.

Post escrito por Will Prestes enquanto o Mini está de férias.

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