Depoimento sobre Retiro de Rua em SP

No vídeo acima, Adriana Muniz, designer e praticante zen budista de Minas, conta como foi sua experiência no Retiro de Rua de São Paulo no ano passado. Nessa modalidade de retiro, o retirar-se espiritualmente não acontece em algum vale distante, em meio às árvores, mas no meio da cidade mesmo, vivendo mais ou menos como um sem teto ou como um “Playboy de Papelão” como ouviu Adriana na rua.

Os Retiros de Rua são uma tradição de uma linhagem zen chamada Zen Peacemakers, do mestre americano Bernie Glassman, sobre o qual já escrevi algumas vezes aqui no blog.

The Zen Dude

Olha só que pérola: a revista Tricycle promoveu um bate papo de 40 minutos, dividido em duas partes, entre Jeff Bridges e Bernie Glassman. Bridges, você conhece. Provavelmente pelo sua icônica atuação em O Grande Lebowski, obra dos Irmãos Coen que passou de cult movie a culto de fato. Ou então de aparições recentes em filmes de diferentes intenções como Homem de Ferro, Homens que Encaravam Cabras e Coração Louco, que deu o Oscar ao já famoso “Dude”.

Bernie Glassman, por sua vez, é um personagem, digamos assim, mais de nicho. Aluno de um dos mais importantes mestres zen budistas do Ocidente, Maezumi Roshi, Glassman é considerado uma figura importante na construção do conceito de budismo socialmente engajado nos Estados Unidos. Sua organização, o ZenPeacemakers, desenvolveu modalidades de prática totalmente integradas à vida urbana contemporânea, o que incluiu a criação de negócios socialmente engajados e os inusitados retiros de rua (onde os praticantes passam alguns dias vivendo como e entre moradores de rua).

A conversa, em um tom de descontração que lembra muito o climão Lebowski, começa com a história de como os dois se conheceram, passa pelos projetos sociais de cada um e envereda por interessantes reflexões sobre a semelhança entre práticas meditativas e o processo de atuação. Bridges comenta, inclusive, seus sentimentos ambíguos em relação ao trabalho do ator em filmes que são construídos em sua maior parte na pós-produção, como é o caso de Tron Legacy. Se isso, por um lado, tira o romantismo de vestir a roupa do personagem, substituída por vestes especiais que marcam os pontos da computação gráfica posterior, por outro ele declara calmamente: “é como voltar à infância, quando você brinca e tem que inventar tudo na sua cabeça”. E ainda compara a situação com uma expressão clássica de outro grande mestre zen, Suzuki Roshi: “É a mente de principiante.”

***

Uma nota curiosa: interessado em trazer mais substância para a história de Tron Legacy, Bridges convidou Glassman pra participar de algumas reuniões de produção e discutir alguns temas existenciais do ponto de vista do zen budismo. Mas a influência é em duas mãos. Segundo uma outra matéria da Trycicle, do ano passado, Glassman tem na sala dele os três pilares espirituais do ZenPeacemakers com uma tradução em Lebowkês abaixo de cada um:

“Not Knowing, thereby giving up fixed ideas about myself and the universe.
(The Dude is not in)
Bearing Witness to the joy and suffering in the world
(The Dude abides. . .)
Loving Action
Healing myself and others
(Enjoyin’ my coffee)”

***

Outra coisa: vale um passeio no site do centro zen budista gaúcho Via Zen. Ali tem o relato de um monge zen gaúcho que está vivendo na Suíça e que participou de um retiro de rua. Também há uma sessão dedicada a uma série de textos e entrevistas em português sobre a conexão Porto Alegre/Brasil-Zenpeacemakers pilotada pelo psiquiatra José Ovídio Waldermar, coordenador do Instituto da Família.

Crooked Cucumber

Shunryu Suzuki foi um mestre budista da tradição Soto Zen enviado de uma área rural do Japão pra San Francisco, nos EUA, em 1959. Sua missão: ministrar alguns poucos rituais semanais e tomar conta dos funerais e casamentos de uma congregação de imigrantes japoneses . Ou seja, o cardápio básico da atividade na maior parte dos templos e congregações da época.

Mas, veja bem, estamos falando de 1959 e da cidade de San Francisco. Nessa época, o budismo começava a extrapolar as tradições imigrantes nos Estados Unidos, especialmente através de intelectuais universitários e escritores beat. Um ano antes, Jack Kerouac publicou seu segundo romance, Os Vagabundos do Dharma, no qual o poeta (e em seguida mestre zen budista) Gary Snyder aparecia como figura central da história, com uma retórica marcada pela filosofia oriental. O também poeta beat Allen Ginsberg aproximava seu texto e sua vida do budismo tibetano. E isso era apenas a ponta do tal do iceberg. Ali, a cidade já cozinhava a mudança cultural que viria marcar sua história, efetivando a transição da geração beat, acelerada, urbana, insone e ácida, para os hippies e sua batida lisérgica, mágica e transcedental.

A busca pela quebra de hierarquias conceituais e sociais, bem como a luta pelas liberdades civis, davam o tom da juventude daquela era. Pra uma audiência esfomeada por ideais, os ensinamentos do Buda sobre liberdade formavam um exótico e atraente banquete. Mas a congregação de imigrantes que Suzuki Roshi deveria liderar não compartilhava dessa efusividade. Sendo assim, um ponto de tensão instalou-se rapidamente no Soko-ji. Até então o único templo zen budista da região, o Soko-ji também mostrou-se pequeno demais pra acomodar a) uma comunidade sinceramente mais interessada em tradições do que na luta contra elas b) uma turma de jovens americanos de classe média buscando liberdade de padrões.

Essa tensão é o ponto central de Crooked Cucumber (47 moedas na Cultura!), biografia de Suzuki Roshi escrita com um bom humor e uma riqueza de relatos impressionantes pelo seu aluno David Chadwick. Nem de perto essa tensão é o único atrativo do livro, muito embora eu, garoto ingênuo, achasse que sim. Confesso, como vou mentir sobre isso?, que abri o livro em busca da história rocambolesca de um velhinho oriental e sua trajetória em meio à efervescência da cena beat. Mas encontrei muito, muito mais. A vida de Suzuki Roshi, como a dos grandes mestres e praticantes espirituais, desafia o conceito hollywoodiano de aventura que está encrustrado na minha mente.

Na verdade, pelo menos metade do livro explora a infância, a adolescência e parte da vida adulta do Suzuki Roshi no Japão, contando seu treinamento monástico, seu histórico familar e as imensas dificuldades de ser um líder religioso em um país conturbado. O mito do mestre zen que vive isolado em um cotidiano tranquilo e sem sobressaltos é sumariamente desfeito, página após página. Pra deixar mais claro: o cara comeu o pão que o diabo amassou, enfrentando a burocracia e o conservadorismo do sistema religioso da época no Japão, as dificuldades inerentes de um país em guerra, os desafios de ser chefe de família e líder religioso simultaneamente e, o mais impressionante, encarou uma série de eventos trágicos na sua família ou entre seus alunos alunos que transformaria a maior parte de nós em pessoas amargas e desesperançosas, duas palavras que não passam nem perto de refletir o espírito de Crooked Cucumber.

A partir da chegada nos Estados Unidos, o livro fica mais familiar – surge o contexto cultural americano e californiano da época – mas não menos surpreendente. No início, são poucos alunos ocidentais dividindo espaço com a congregação de imigrantes. As diferenças culturais são claras, mas as atividades não são tão intensas a ponto de causar uma cisão. Com o passar de algum tempo, entretanto, a disposição crescente de alguns dedicados jovens americanos para sentar e meditar contrasta de forma desconfortável com os rituais mais tradicionais dos imigrantes. Assim, as diferenças se acirram, Suzuki Roshi é chamado a fazer uma escolha e a preferência pela meditação como caminho escolhe por ele: sua nova casa é um grupo de jovens praticantes ocidentais leigos dispostos a entregar-se a uma exigente prática que no Japão era exclusiva de monges.

A partir daí, é tudo como um recomeço. Um eterno recomeço. Uma nova comunidade em uma nova cultura com novos desafios. O fato de ter encontrado alunos dedicados à sua visão de prática espiritual não quer dizer que o caminho tenha sido menos pedregoso para Suzuki Roshi.

O mais incrível, nessa biografia cheia de histórias curiosas e pitorescas, não é o que nos faz diferentes do seu protagonista, mas tudo aquilo que nos liga a ele, que nos faz parecido com ele. E isso é uma coisa bonita, porque justamente uma das crenças básicas do budismo é que todos – todos mesmo, budistas ou não budistas, amáveis ou violentos- temos a capacidade inata de despertar, de alcançar a liberdade de identidades e visões estreitas. Como nós, Suzuki Roshi veio, nasceu, cresceu, passou por dores comuns à raça humana, errou e acertou, foi criticado, foi elogiado, enfrentou obstáculos que vão de guerras a problemas domésticos. Por isso, o livro é rico. É uma biografia, mas também são ensinamentos vivos. Mostra o lado misterioso e insondável do mestre bem como seus aspectos mais humanos – os detalhes em dourado e as rachaduras.

Como é comum na tradição do zen budismo, Crooked Cucumber traz mais de 400 páginas que poderiam tranquilamente ser traduzidas em uma frase:

“Nem sempre assim”.

***

Alguns toques finais ao post.

A tradição Soto Zen, de Suzuki Roshi, tem centros de prática, templos e professores reconhecidos no Brasi. Mesmo não-budistas devem ser familiares com a figura da Monja Coen. O site da comunidade Soto Zen no Brasil é o Zendo Brasil.

Aqui na região de Porto Alegre, conheço bem o trabalho do Via Zen e um pouco do Zen Vale dos Sinos.

***

Ano passado, publiquei meia dúzia de posts sobre biografias de praticantes budistas, um tipo de leitura que tem me feito muito bem no sentido de aprender com o exemplo, com a sabedoria viva de quem confronta os ensinamentos do Buda com questões eminentemente práticas e cotidianas. Já escrevi aqui sobre os relatos de vida de Issan Dorsey (ordenado na linhagem de Suzuki Roshi), sobre as idéias do Fleet Maull, sobre o livro do Jack Kornfeld que conta o lado b da espiritualidade, sobre as histórias de um ex-monge na India, de um chef-mestre-zen (outro da linhagem de Roshi) e também comentei a biografia e o documentário sobre a monja Tenzin Palmo.